Category Archive : Literários

Rua Nascimento Silva, 107

“Minha filha… Isso faz uns 30 anos e lá vai fumaça!” Dona Terezinha do Badoca, muito amiga da vó Rosinha, sempre falava isso. Lembro daquelas broas de mandioquinha que ela fazia… Quando saíam do forno… Manteiga derretendo… Cafezinho… Bolo de fubá… E eu ali: rouco de tanto ouvir.

            Sempre que ela falava no tempo dos antigo, ela usava essa expressão… “Lá vai fumaça!”… Uma versão mais pitoresca do “tempo do onça” ou “do guaraná com rolha”! Mas duas senhorinhas, amigas desde a infância lá em Minas, só falavam de um tempo da fumaça…

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Inveja e Evolução

Sabe aquele dito da roça, “inveja mata”? Pois lá nos antigamente mesmo, foi capaz de ser assim – Caim de olho no irmão, não deu outra: sangue no terreiro, o primeiro crime da história. A coisa era feia, não tinha papinho de perdão, não. Mas o tempo vai passando e, de grão em grão, a gente aprende um tanto.

Vê só o caso do José, aquele dos sonhos coloridos e casaco todo chique. O povo da família, roído de inveja, não teve coragem de acabar com o irmão feito Caim. Jogaram ele num buraco, venderam feito gado no leilão. Já melhorou um pouco: deu tempo de contar história depois. E olha que da desgraça saiu coisa boa. Virou gente grande lá no Egito, salvou meio mundo de passar fome. A vida tem dessas: aperta, mas ensina.

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Sonhos

Sonhos

            A arapuca de Caim fez com que Abel ficasse vulnerável aos seus golpes. No momento da pedrada final, Esaú desperta. Abre os olhos. Tudo fora um sonho… Caim? Abel?

            Senta na cama. Olha o celular… 03:33… Aviso? Coincidência? As luzes da cidade já se apagaram… Até elas! Puxa vida! Insônia logo hoje!

            E na madrugada, quando os tigres vêm atazanar nosso sono, Esaú levantou. Apertou o botão da Nespresso. O cheiro do café… Pena não ter aquele bolo de fubá que a vó Sara fazia sempre que o vô Abraão recebia visitas…

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Perseverança

            No mundo da literatura tem uma lenda tão asquerosa que me arrepia sempre que penso nela. Camões sofreu um naufrágio (na verdade, ele tripulava um barco que foi devorado pelo mar)…

Naquele clima de barata-voa, no corre-corre do “deusnosacuda”, ele correu para salvar “Os Lusíadas”, e deixou sua “amada” Dinamene, uma Alfonsina ancestral, ter como tumba a pacífica imensidão azul…

            Se essa história torta sobreviveu a todos os cataclismas, ainda hoje sendo contada de boca em boca, é que muita gente acredita que essa incivilidade traiçoeira seja um ato de heroísmo travestido.

Eu, tão ufanista como qualquer Policarpo, sempre admiro as vantagens brasileiras, desde suas raízes também lusitanas. Admirar Camões já é pedir demais!

            Sabe, não me importa que o cidadão escreva os maiores tesouros da última flor… Ele é um lixo de ser humano! Pelo menos ele perdeu um olho na confusão… Camões, o caolho d’Os Lusíadas, que deixou a covardia vencer e perdeu o mais valioso tesouro…

            Mas a gente nunca pode desistir de buscar o entendimento… Lixo também aduba!

Ao que parece, ele se arrependeu. A partir daquilo, sua pena começou a homenagear o Amor. Igual um lobo, uivando para a Lua, ele parece, nos versos dos sonetos, procurar o olhar de sua Dinamene… Olhar submerso, salgado… Lágrimas e mar… Quanto do sal que tempera o mar são lágrimas portuguesas?

            Se pelo menos o tempo voltasse… Mas ele é implacável! Tão grande Amor para tão curta vida! Séculos depois, um outro poeta português, esse sim, enorme em honra e sensibilidade, parecia dialogar com Camões, perguntando:  “Valeu a pena?”…

            Soneto 29 de Camões. De verdade! Nunca li nada tão lindo! O tema é conhecido… Jacó trabalhava para Labão. Amava Raquel. Depois de sete anos, Labão o fez casar com Lia… E Jacó perseverou por outros 7 anos buscando os favores de Raquel, e dizendo que, feliz, ainda trabalharia mais sete se “Para tão longo amor, (não fora) tão curta a vida!”

            Camões, o caolho arrependido! Daria tudo para voltar no dia fatal. Lá seria perdido o maior poema épico ocidental desde a Antiguidade! Os argonautas se perderiam nas brumas do olvido… O velho do Restelo se calaria… O gigante Adamastor ruiria…

            Nesse dia, Dinamene, como uma Raquel, como uma matriarca amorosa e bela, perdoaria… O perdão de quem enxerga.

            No fim, ela teria essa beleza da mulher…

Perseverança e perdão!

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University.  Comendador Cultural. Escritor e Professor.

www.andrenaves.com 

Instagram: @andrenaves.def

Milagres

            Eu já contei pra vocês, mas não custa repetir, que as caminhadas são parte da minha vida. Nelas que eu proseio com D´us, penso, organizo as minhas pendengas da mente… É caminhando que eu me entendo comigo mesmo e com Ele!

            Dia desses, lá na esquina da Diana com a Palestra Itália, eu reparei em algo que sempre esteve lá, mas eu nunca tinha enxergado! Sabe quando a gente se acostuma com a paisagem, e em vez de descobrir o extraordinário no ordinário, a gente faz justo o contrário? A gente se acostuma… Vira rotina… A gente diminui tudo de mais extraordinário em algo simplesmente comum… Ordinário!

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Bibas

            Perdoem-me…

Hoje não escreverei algo doce como de costume…

As minhas crônicas são recheadas de saudades, valores e Esperança. Cada um de vocês, das mais diferentes maneiras e ainda que não o saibam, acabam sendo co-autores das historietas: é que conforme a leitura avança e a imaginação toma conta, as suas saudades se misturam às minhas!

É aí que os sorrisos de cada um sempre brotam.

JUNTOS!

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Hospitalidade

Nem lembro do ano… Acho que era no tempo em que a Romênia era ainda Rumânia… Será? Eu sempre tive das minhas excentricidades, sabe? Um espírito contestador e vaidoso. É da minha natureza deixar todo mundo meio embasbacado com curiosidades sem eira nem beira…

            Imagina uma criança, que nem bem saiu da casca do ovo, falando que Baku é a capital da República Soviética do Azerbaijão, ou que Astana era a do Cazaquistão. Eu nem sabia direito o que era a União Soviética… Mas meu prazer estava em encher a boca e falar.

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Coragem

Quais suas superstições de Ano Novo?

            Todo mundo tem… Desde as mais corriqueiras, como se vestir de branco, amarelo ou outras cores, comer romãs, tâmaras e lentilhas, até algumas mais sofisticadas e charmosas…

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Crônica de Fim de Ano

Eu adoro crônicas. Na verdade, acredito que elas sejam dos estilos literários mais populares que há. É que elas, além de trazerem lirismo às páginas jornalísticas, circulam livremente pelas correntes de e-mail e de whatsapp (de que toda gente reclama, mas que todo mundo lê) durante gerações!

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Criação

Do Criador! Rei Milagroso, Famoso e Solar! Labor! Silêncio!

            Do albor do Universo, do Big-Bang, ecoa o primordial som. Aquela frequência primitiva que ainda pulsa no ritmo de nossa circulação. O Titã do Universo foi emulado pelos Titãs nacionais: o pulso ainda pulsa! O coração é o todo em nós! É a Luz que foi separada das trevas…

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Cabanas

            Agora eu era um Apache, herói, e meu cavalo… A primeira lembrança que tenho de uma cabana era a minha tendinha apache, que eu adorava brincar de bang-bang. Quando ela sumia, eu improvisava outras com os sofás, as almofadas e os lençóis!

Nunca vi uma criança que não gostasse de brincar de barraca: ali era o império da alegria, quando o tempo ficava suspenso e os sonhos eram a realidade!

            Sabe o que eu mais gostava? Quando os adultos vinham brincar com a gente. As cabanas deles eram bonitas, sofisticadas, maiores…

Um mar de folhas enfeitando. A Natureza fazia parte da Alegria, do Jogo! Na nossa não tinha espaço nem para tomar um suco, mas a imaginação nunca é pequena. Nas deles, tinha até para tomar refeições!

            Natureza, Alimento, Sonhos, Imaginação, Alegria! Eles até recebiam visitas, que coisa! Gente que vinha de longe para compartilhar a felicidade. Natureza, Alimento, Sonhos, Hospitalidade… Alegria! E aquela brincadeira alegre e feliz que perseverava… E nós ouvíamos de outros que, ainda que não víssemos, sentíamos!

            Todo ano estava lá, ao nosso lado, aquele grande cientista judeu, Einstein, com sua maneira inovadora de saber a Natureza… A Luz! Estava lá a trovoada musical de Mahler! Os sons alimentando com intensidade e fervor as almas! Estavam conosco as sábias lições de Hillel, ensinando que para que os sonhos virem realidade, todos precisamos, juntos, coletivamente, construir…

            Uma coisa interessantíssima que eu só consigo reconhecer agora. Parece até que as névoas do desconhecimento foram ficando mais rarefeitas enquanto a Luz do entendimento foi banhando essas memórias oníricas… Sir Rabbi Jonathan Sacks também aparecia por lá!

            A Imaginação, na cabana, é a Luz de Toda Gente! Todos Juntos, edificando as estruturas do mundo com Sorrisos, Alegria e Justiça Social!

É lá que o tempo se suspende! É la que Passado, Presente e Futuro se encontram! Debaixo da sucá que a Poesia dos Afetos vale tanto quanto a Prosa dos laços de sangue!

TODOS JUNTOS…

SORRINDO!

ANDRÉ NAVES

Defensor Público Federal. Escritor e Professor. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e Economia Política. Comendador Cultural.

www.andrenaves.com

Instagram: @andrenaves.def

Va Pensiero

            Dia 6 de outubro de 2024. Agora são, aproximadamente, 08:30. Já votei… Meus grandes amores: Ana Rosa, Democracia e Ópera. Só vou mandar esse texto para averiguação e publicação após o fechamento das urnas, lá pelas 17:00. Detestaria influenciar a manifestação de vontade apaixonada, mas vestida de razão, de ninguém. É que algumas coisas fora do comum têm acontecido aqui em São Paulo…

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Absurdo!

Absurdo!

            – Absurdo você fazer isso, Aldir! Porra! Que merda! Marquei consulta com você, psiquiatra, tomei o endereço do consultório, e quando chego aqui me deparo com essa bodega! Eu devia desconfiar… Quem busca o lirismo da humanidade com a música não consegue ser sério…

            – Calma, Di! Até parece que você não busca, com suas pinturas, a poesia do povo… Eu aprendi a fazer isso com você. Na “Samba” você me ganhou: dá pra sentir o batuque da sensualidade na tela. Toma uma comigo e sossega o faixo. Você, Di, ensinou o Brasil a enxergar o Brasil! Desde o catálogo de 22 até o “Baile Popular”, é puro suco da gente. E aqui, a gente pode pedir umas e outras, comer uma moelinha acebolada, ouvir os sons do mundo…

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Platero

            Não sei bem como foi…

Nem lembro direito em que escritório a gente tava! Acho que era na Comedoria do SESC Pompeia. Era lá sim!

A memória é esse suco da verdade. Os fatos só existem pelo que a gente experimenta. Como um suco de caju! Será que falta doce? Será que amarra a boca? Será que tá aguado? A gente tem de tomar para descobrir se tá no ponto!

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Aroma de Saudades

            Hoje em dia a turma cria os filhos diferente. Na minha época, não… Acho que tudo era mais simples, mais verdadeiro, mais genuíno… Não sei… É o saudosismo que vem tomando conta de mim. Acho que acontece com todo mundo: a gente vai ficando velho e meio bobo…

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Maratona

Eu gostaria de ter escrito esse capítulo no dia 25 de julho… Hoje já é dia 29. Como diz o ditado, “sempre que D´us vê nossos planos, Ele ri”… Também, pudera, os planos são Dele! Claro que a gente tem de se planejar para tudo. Mas, também, nós devemos ter a flexibilidade para adaptar tudo o que foi planejado às novas circunstâncias.

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Alma

            Lembram lá atrás quando eu falei de Walter Gropius e da escola Bauhaus de arquitetura e design? Eu até usei uma fonte não-serifada, que rimava mais com o sabor modernista… Lembraram? Faltou um detalhe que, de tão importante, era a alma daquela história…

            Pra contar essa história de som e fúria a gente precisa de uma trilha sonora especial. Intensa e solene. Emoção pura. Sinfonia n. 2 de Gustav Mahler, “Ressurreição”! Pra quem gosta, e eu aprecio bastante, que tal uma taça de vinho? Uma dose de whisky? Uma cachacinha?

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Enxergar!

            E o carro se perdia na estrada reta. Plantações intermináveis para todos os lados. Caminhões que passam. Usinas. Cheiro de cana queimada, processada, colhida. Pamonhas da beira…

Enxergo o Futuro, a Prosperidade, a Esperança!

            Enxergo!

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Deserto sem Respostas

            Chega a ser engraçado se não fosse trágico… As minhas ideias que floresciam como lírios do campo ressecaram em um profundo e silencioso deserto: um deserto sem respostas… Acho que a vida é assim mesmo… Atravessamos a aridez inóspita em busca de respostas que de tão evidentes acabam se tornando invisíveis…

            O Otto Lara Resende contava uma história bem interessante de um senhor que morava há mais de 32 anos num mesmo apartamento. Lugar bonito, na frente do mar de Copacabana. Sempre fiquei imaginando a biblioteca desse homem. Será que tinha tapetes? O que ele gostava de ler? Ele fazia as cruzadinhas? Lia o obituário?

            Vamos voltar para o leito do enredo… Aquele senhor morava lá há mais de 32 anos. 32… Passava pelo porteiro todo santo dia. Cumprimentava. Até caçoava do futebol… Mas nunca parou para ver mesmo. Acho que nem o nome sabia. De tanto ver, ele não via. Que coisa, né?

            Um dia entrou no elevador. 32 anos, veja bem. Não estou falando de 32 horas… Tinha um cartaz pregado lá. Foto do porteiro bem grande. Morreu. Foi nesse instante que nosso protagonista descobriu seu nome, seu rosto… Descobriu que ele tinha família. Foi a primeira vez que aquele senhor enxergou o porteiro.

            Na morte, enxergou. Puxa vida!

            A história termina aí. Mas a gente entende quando vai desertificando tudo. De tanto ver, não vê… Sabe o caminho que a gente passa todo dia? Deserto. Sabe o que a gente só ouve? Grande silêncio que ecoa a falta de respostas…

            Hoje eu tô meio que escrevendo só umas ideias sem nexo. Talvez seja pela minha gripe. Gripe passa. Não é desculpa… Pra quem já voltou do coma, o que é um estadozinho gripal? Quem sabe seja o cansaço? Escrever é meu prazer e a fadiga passa lá longe, onde o vento assobia e faz curva.

            Deve ser pela tensão do momento. De ver tanta gente hipnotizada, repetindo a ilusão desértica de um silêncio sem respostas nem ideias. Parece até uma zumbilândia… De tão óbvias, as respostas nunca são ditas. Pior, mentiras ganham a ribalta! Prefiro o silêncio ensurdecedor que a sedução de um canto das sereias que leva à ruína e à morte!

            MENTIRAS!

            Mas no deserto em que se tornou minha mente, parece até que estou vendo alguma coisa brotar. Um pingo de esperança no meio daquela secura da morte. Aquela que nunca resseca, nunca morre, a última no deserto.

            ESPERANÇA!

            UMA ROSA VERMELHA!

André Naves

Le Chaim

            Sucesso como sempre! Aplausos!

Daniel Baremboim, o encantador dos pianos, tinha feito mais uma de suas mágicas! Tocar o “Rach 3” não é pra qualquer um… Ainda mais com tanta emoção, esperança…

Sabe quando a gente ouve até a poesia do piano? Parece até que ele está conversando, falando… “Shalom”…

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