O Povo Brasileiro Venceu!

O Povo Brasileiro Venceu!

São onze da manhã deste 25 de outubro de 2026. Escrevo antes da abertura das urnas. Você, leitor, já sabe o que eu ainda não sei. Gosto muito disso. A verdade é que você, ao ler, está sendo meu coautor: reescrevendo ao interpretar, enriquecendo a coluna com as suas críticas, reflexões e informações que ainda não tenho. Por isso, te agradeço. Te homenageio, caríssimo leitor: e qual a melhor maneira de te honrar senão escrever ainda mais e melhor?

Entretanto, se a ignorância me traz desvantagens, ela também apresenta uma vantagem: escrever antes obriga a dizer apenas aquilo que nenhum resultado pode desmentir. Não sei quem tomará posse em janeiro. Sei o que o país fez de si mesmo nas últimas semanas, e isso não será alterado em nenhuma apuração.

O Brasil se pintou de vermelho e de amarelo. A princípio, como quem se divide. Aos poucos, no entanto, a divisão foi ganhando forma de reconhecimento. Na véspera, diversas cidades, em diferentes unidades da federação, receberam carreatas, motociatas e caminhadas. Milhões de pessoas saíram de casa num sábado de véspera porque têm a Esperança na construção de um Brasil de Amor, Ordem e Progresso.

Não houve confronto de maior gravidade a lamentar. Num mundo que convive com a política como espetáculo de aniquilação — onde adversário virou inimigo e divergência virou traição —, um país de mais de duzentos milhões de habitantes fazer campanha presidencial intensa, apaixonada, polarizada, sem que a rua se transforme em campo de batalha, é um feito civilizatório.

É PATRIMÔNIO DO POVO!

O povo brasileiro é Ordeiro, Decente, Honesto e Trabalhador. Ordem não é silêncio diante da exclusão. Decência não é bom comportamento diante da injustiça. Honestidade não é docilidade com o inaceitável. E trabalho não é irreflexão! Ordem é a capacidade de discordar sem se destruir. Decência é tratar o adversário como adversário, e não como inimigo a ser exterminado. Honestidade é dizer o que se pensa mesmo quando o pensamento desagrada. E o trabalho do povo brasileiro não é apenas a força que move a economia — é a inteligência que inventa saídas inovadoras e criativas.

Não votamos pelo medo. A Esperança foi nossa conselheira na solidão da urna. Esperança é assumir um compromisso com o esforço de hoje e com suas consequências. A Esperança é, portanto, um insumo produtivo. E o Brasil tem, hoje, mais dela do que a maioria dos países ricos.

Prova disso não está apenas nas ruas. Está numa, entre várias, experiências recentes. O governo abriu, na internet, uma consulta para que qualquer brasileiro — especialista ou leigo, professor ou agricultor, estudante ou dona de casa — apresentasse ideias para o enfrentamento da crise climática. O povo respondeu. O Plano Clima Participativo mobilizou mais de 24 mil pessoas em plenárias e consultas, recebeu perto de 3 mil contribuições da sociedade civil e incorporou 104 propostas priorizadas pela 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, que mobilizou mais de 71 mil pessoas. Em 2025, a plataforma Brasil Participativo recebeu 9.469 propostas — quase o dobro do ano anterior.

Isso significa que há inteligência suficiente no país para pensar a crise climática — e ela não estava concentrada em Brasília. Estava dispersa em padarias, sindicatos, cooperativas, universidades do interior, comunidades ribeirinhas. Isso é uma constatação sobre o Brasil: os problemas brasileiros, em sua maioria, são resolvíveis localmente, por quem os vive. A descentralização não é uma preferência ideológica — é uma exigência de eficiência. Em resumo: nenhum gabinete em Brasília sabe quantos buracos tem a estrada que liga a periferia ao centro do município.

O gargalo do desenvolvimento brasileiro, portanto, não é a preguiça do povo, que trabalha, e trabalha muito. É a papelada do Estado. Desburocratizar, simplificar, desregulamentar o que não protege ninguém e só atrasa todo mundo: isso é senso comum. Entretanto, devemos ressaltar que facilitar a atividade econômica não pode significar abandonar nossa gente. O que sustenta crescimento duradouro é capital social: a educação, a saúde, a proteção social.

Amartya Sen mostrou com evidências que desenvolvimento é expansão de liberdades reais — e que liberdade sem capacidade é uma palavra vazia. Quem não tem escola não tem escolha. Quem não tem saúde não sonha. Quem não tem proteção não empreende. A economia que dá certo é aquela que cresce sem deixar ninguém para trás.

Talvez você, caríssimo e raríssimo leitor, esteja comemorando. Talvez esteja de luto. Nos dois casos, o que a campanha revelou permanece: nós vencemos! Somos um país que levou milhões às ruas com Esperança e Alegria; somos ordeiros, decentes, honestos e trabalhadores. Acima de tudo, aprendemos a conviver com o dissenso! Abrimos canais digitais e recebemos milhares de ideias de gente comum; atraímos capital do mundo inteiro, mas ainda precisamos pedir licença a Brasília para trabalhar. Em suma, temos pressa de crescer e obrigação de não deixar ninguém para trás.

Quem venceu as eleições, o leitor já sabe. Eu não. Mas arrisco dizer que, ontem como hoje, quem venceu foi o povo brasileiro — porque atravessou o processo sem se perder de si mesmo. As cores das passeatas vão desbotar com o tempo, mas o hábito de conviver com o diferente, não.

Aos que governarão — seja quem for —, fica o recado que a rua deu com clareza:

MAIS RESPEITO AO POVO BRASILEIRO!

André Naves — Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP. Especialista em Inclusão Social, Direitos Humanos e Economia Política. Membro dos Grupos de Trabalho da DPU: Pessoas Idosas, Pessoas com Deficiência e Pessoas em Situação de Rua. Comendador Cultural. Escritor. Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

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