Autor: Andre Naves

Para que os Direitos pisem no barro

Os pisos constitucionais da saúde e da educação devem existir ou não? De um lado, argumenta-se que os pisos garantem previsibilidade e protegem os Direitos Sociais. De outro, sustenta-se que eles engessam o orçamento e amarram o gestor público. É um debate legítimo, intenso, que mobiliza economistas, juristas e a opinião pública em geral.

Mas, por mais importante que seja, ele esconde um debate ainda mais importante: o da racionalização e da otimização dos recursos. A verdade é que o problema brasileiro não é a falta de investimento. É a falta de eficiência! O dinheiro existe, mas sua gestão é falha.

Enquanto discutimos o tamanho do balde, a água escorre pelos furos…

Read More

Humildade Radical e as lições das urnas

É preciso Humildade Radical para escutar as urnas… Escutar… Não ouvir! Enquanto ouvimos fisicamente, escutamos com a razão, com a sensibilidade. E a verdade é que não houve ambiguidade. As urnas falaram: foi uma vitória contundente, histórica, que desautoriza todas as certezas dos que se diziam donos da verdade. Quem apostou que o povo pensava como os editores dos jornais, como os formadores de opinião, como os gabinetes, perdeu.

Read More

Em defesa dos Pisos da Saúde e Educação

Na atual selva eleitoral, voltam a circular propostas de desvinculação dos pisos constitucionais da saúde e da educação. Tratam tamanha insensatez como se fosse gesto de maturidade fiscal, sem consequências para ninguém.

É preciso desmascarar essa narrativa, apoiada em interesses escusos e equívocos econômicos. Economistas do quilate de André Lara Resende — um dos pais do Plano Real — vêm desmontando com erudição que o tamanho da dívida pública, em si, não é o problema do Brasil.

Nossa dívida é interna, denominada em moeda nacional, e o país detém reservas externas pujantes. O governo federal não é uma família que pode quebrar em reais: é o emissor da moeda. O que importa não é o número absoluto da dívida, mas a eficiência e o modo de seu uso.

A dívida tem dois lados, como lembra Lara Resende: ao mesmo tempo em que é passivo do Estado, é também ativo e riqueza do setor privado. A questão decisiva é se esse endividamento financia inclusão ou concentração, investimento social ou juros. Ou seja, se é utilizada de acordo com o mandamento de nossa Constituição Democrática, isto é, para reduzir a pobreza e as desigualdades sociais e regionais, ou se é utilizada para privilegiar alguns poucos historicamente favorecidos.

Uma trajetória de dívida desconectada dos problemas sociais é, além de inconstitucional, socialmente excludente. Por isso, os pisos da saúde e da educação não são obstáculos à responsabilidade fiscal: são a sua essência. São o compromisso de que o endividamento público sirva para reduzir desigualdades.

É por isso que essa cruel e destrutiva proposta de desvinculação me preocupa. Trata-se de uma questão civilizatória. Uma questão de Justiça Social. A Constituição de 1988 é a rocha democrática sobre a qual nossa casa comum foi erguida. E, entre suas pedras angulares, estão esses dois pisos que costumam ser tratados como pedras de tropeço!

A fundamentação é lógica e essencial: o texto constitucional reconheceu um fato óbvio. O de que fortalecer a Educação e a Saúde são maneiras de potencializar a autonomia individual, fortalecendo, assim, o capital humano. Com isso, impulsiona-se a Criatividade e a Inovação, essenciais para os valores fundamentais da nossa Constituição Democrática, ou seja, para a valorização do Trabalho e da Livre Iniciativa.

O artigo 212 determina que a União aplique, nunca menos de 18% da receita de impostos em manutenção e desenvolvimento do ensino, e que estados e municípios apliquem 25%. O artigo 198, reforçado pela Emenda Constitucional 29, fixa que estados apliquem 12% e municípios 15% da receita em ações e serviços públicos de saúde. São determinações que traduzem o artigo 6º em orçamento público: educação e saúde são Direitos Sociais.

Além disso, o artigo 5º, parágrafo 3º, deu estatura de emenda constitucional aos tratados internacionais de direitos humanos — de modo que o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a Convenção de Nova York, integram a Constituição Democrática.

Ao contrário das narrativas tendenciosas e obscuras, os números mostram que o piso funciona. O Ideb de 2025, divulgado pelo Inep, foi o melhor em vinte anos, com avanço em todas as etapas — dos 6,0 para 6,3 nos anos iniciais do fundamental, de 5,0 para 5,3 nos anos finais, de 4,3 para 4,5 no ensino médio. Em contextos sociais de telas, consumismo e tantas distrações, o crescimento, ainda que numericamente pequeno, é gigantesco, heroico e persistente.

O motivo? O Fundeb — hoje regido pelo artigo 212-A, recriado pela Emenda Constitucional 108 — investiu em 2025 com R$ 341,1 bilhões e deverá chegar a R$ 370,3 bilhões em 2026, alta de 8,54%: o maior orçamento da educação básica na história do país. O investimento público total em educação alcançou R$ 540 bilhões em 2023, cerca de 4,9% do PIB. É o Fundeb que garante a escola de qualidade que prepara o estudante para a universidade pública; é o piso federal que financia a expansão das universidades e institutos federais, onde nasce a pesquisa.

A Convenção de Nova York, em seu artigo 32, determina que os Estados promovam pesquisa e desenvolvimento de tecnologias novas, incluindo tecnologia assistiva, voltadas à inclusão social. A Lei Brasileira de Inclusão, no artigo 27, assegura o sistema educacional inclusivo em todos os níveis. E a Lei Berenice Piana consagra, em seu artigo 3º, o direito da pessoa com transtorno do espectro autista ao diagnóstico precoce, ao tratamento e à educação inclusiva. Essas normas exigem que a ciência brasileira produza conhecimento para derrubar barreiras.

Quanto à Saúde, por exemplo, em 1940, o brasileiro nascia com expectativa de vida de 45,5 anos; em 2024, chegou a 76,6 anos, o maior valor já registrado pelo IBGE. A mortalidade infantil, que beirava 146 óbitos por mil nascidos vivos nos anos 1940, está em 12,6. O que explica tamanha evolução? O SUS, financiado pelo piso do artigo 198, com sua atenção primária que chega à periferia, ao quilombo, ao assentamento.

E a pesquisa em saúde também acelera: o Ministério da Saúde destinou R$ 561 milhões a pesquisas científicas em 2025 — cinco vezes a média do período anterior —, recursos que financiam desde vacinas produzidas com soberania nacional até tecnologias assistivas que devolvem autonomia a quem o mercado ignora.

É por isso que educação e saúde são os pilares da reindustrialização. A Nova Indústria Brasil, que o BNDES ampliou para R$ 300 bilhões em financiamentos, não se sustenta sem engenheiros formados em escolas públicas decentes, sem técnicos saídos dos institutos federais, sem trabalhadores saudáveis atendidos pelo SUS. Indústria sem universidade é montagem; universidade sem pesquisa é conhecimento sem obras; pesquisa sem inclusão é infrutífera.

Os pisos não são engessamento orçamentário, ou amarra fiscal. A questão não é se é possível gastar, mas a qualidade do gasto. E não há gasto de melhor qualidade do que aquele que garante que a riqueza nacional chegue à sala de aula e ao posto de saúde.

A Dignidade deve pautar o orçamento que deve ser elaborado à luz da Constituição. Uma sociedade estruturalmente inclusiva nasce de investimento qualificado, da creche à pós-graduação, em toda a rede do cuidado.

André Naves — Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP. Membro dos Grupos de Trabalho da DPU: Pessoas Idosas, Pessoas com Deficiência e Pessoas em Situação de Rua. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

Prestidigitação Persecutória

Os fatos trazidos recentemente à luz merecem uma reflexão mais ampla e profunda:

Mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro, extraídas pela Polícia Federal, vieram a público de maneira a sugerir um favorecimento eleitoral ao candidato Flávio Bolsonaro, em detrimento do atual Presidente, candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva.

Não cabe aqui antecipar juízos sobre fatos ainda sob apuração. Cabe, sim, examinar o que a Constituição exige de quem conduz uma investigação, e por que o uso do processo como instrumento de disputa eleitoral ofende, de forma chapada, o sistema constitucional de garantias individuais e coletivas.

A Constituição de 1988 consagra o processo penal como garantia humanista e democrática. O art. 5º, LIV, assegura que ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal; o inciso LV garante aos litigantes e acusados o contraditório e a ampla defesa; o inciso XIV assegura a todos o acesso à informação; o inciso LXXVIII garante a razoável duração do processo e os meios que assegurem a celeridade de sua tramitação.

Fora do art. 5º, o art. 93, IX, exige que todos os julgamentos sejam públicos e que todas as decisões sejam fundamentadas, sob pena de nulidade; e o art. 37 impõe à atuação pública, em qualquer esfera, os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Esse arcabouço normativo forma um sistema cuja finalidade é uma só: garantir que o exercício do poder de investigar e julgar seja legítimo, imparcial e protetivo da dignidade humana. Ou seja, ele garante o indivíduo contra eventuais arbitrariedades estatais. A publicidade e a fundamentação permitem que a sociedade analise e controle. O contraditório e a ampla defesa permitem que as partes participem e se defendam. O acesso à informação é o direito do cidadão de saber o que se faz em seu nome.

E a razoável duração do processo é a dimensão temporal da promessa de justiça: a garantia de que ela chegará no tempo certo. A razoável duração do processo não significa pressa. O adjetivo “razoável” qualifica a duração, exigindo o tempo necessário — nem mais, nem menos. Um processo apressado é um processo injusto: não há tempo para o contraditório se exercer plenamente, para as provas serem produzidas e amadurecidas, para as decisões serem meditadas e fundamentadas. A pressa fabrica erros, e erros judiciais ferem de forma muitas vezes irreparável.

Por outro lado, um processo moroso também é injusto: o direito se esvai no tempo, a prova se perde, a vida não espera. A justiça tardia é, na prática, justiça negada. A razoável duração é o ponto de equilíbrio entre esses dois fracassos. É a garantia de que o processo dure exatamente o tempo que a justiça precisa.

Exatamente por isso, o tempo processual é uma garantia fundamental, essencial: não pode ser desviado. Quando a duração do processo é acelerada ou retardada não em função da justiça, mas da conveniência política, estamos diante de uma odiosa instrumentalização. Nesses casos, o tempo deixa de garantir a Justiça e passa a servir ao poder.

É exatamente essa a preocupação que os fatos noticiados despertam. Se confirmados os indícios de que a investigação vem sendo conduzida com direcionamento eleitoral — com quebras de sigilo e divulgações seletivas que atingem um lado da disputa enquanto protegem o outro —, estaríamos diante do que o direito administrativo chama de desvio de finalidade: o ato que persegue fim diverso daquele previsto em lei.

A investigação existe para apurar a verdade e proteger direitos; usada para favorecer um em detrimento de outro, trai sua finalidade. É para evitar esse tipo de prática que a Lei de Abuso de Autoridade (Lei 13.869/2019) tipifica, em seu art. 24, a conduta de conduzir investigação com o objetivo de beneficiar ou prejudicar alguém. E não por acaso a Constituição exige do magistrado a imparcialidade: o juiz natural (art. 5º, XXXVII) não é apenas aquele previsto em lei, mas aquele que julga sem interesse no resultado.

O problema está em como a investigação é conduzida. O que se denuncia é a aparência — e, se confirmada, a realidade — de que o processo esteja sendo usado não como instrumento de Justiça, mas como instrumento de proteção a um lado na disputa eleitoral. Não se pode apequenar, assim, o processo, sob pena de todos perderem.

A defesa do processo como instrumento de Justiça é a defesa da Democracia. É a defesa de que a lei não serve a ninguém em particular. Os fatos precisam ser apurados com transparência, com contraditório, com fundamentação — e no tempo razoável que a Justiça exige.

Não pode ser apressado pela conveniência de uma campanha, nem adiado pela conveniência de outra. A sociedade brasileira, que já aprendeu a reconhecer o valor de instituições que funcionam, saberá cobrar.

André Naves — Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP. Especialista em Inclusão Social, Direitos Humanos e Economia Política. Membro dos Grupos de Trabalho da DPU: Pessoas Idosas, Pessoas com Deficiência e Pessoas em Situação de Rua. Comendador Cultural. Escritor. Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

Soberania é Inclusão: o Brasil não cabe no quintal de ninguém

Soberania é essencial para a concretização dos Direitos Humanos!

Um país soberano é a única oportunidade de Inclusão das Pessoas com deficiência. Nenhuma nação é meio para os fins de outra — e nenhum indivíduo pode ser tratado como instrumento para os fins de nenhum poder, interno ou externo.

Read More

O Brasil não cabe no quintal de ninguém!

Na manhã de 22 de setembro de 2026, da tribuna da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o Presidente Lula se pronunciou ao mundo transmitindo uma mensagem de reafirmação da Democracia, da Soberania e de Direitos Humanos.

Pensa comigo…

Soberania é, em última análise, a forma externa da Dignidade. Ora, se fundarmos a Dignidade Humana na noção de que cada pessoa é um fim em si mesmo, é inadmissível pensarmos no Brasil como subordinado a qualquer potência estrangeira.

Somos um fim em nós mesmos, jamais um meio…

Read More

Um Ano Bom e Doce

Vamos conversar? Eu quero falar e escutar…. Aprender! O café tá quentinho e o bolo de fubá acabou de sair… Deixa eu aproveitar e perguntar uma coisa: será que o Judaísmo é só uma religião?

Juro que pergunto com todo o carinho e respeito de quem tá aqui na mesma mesa que vocês: será? Mesmo?

É que eu já ouvi uma vez que a palavra “hebreu” vem de Ivrit… “aquele que vai além do rio”. Não sei se é verdade ou lenda, mas eu adoro acreditar que lendas são mais verdadeiras que as verdades… Eu sou um poeta dos símbolos, né?

Pensa comigo. Que boniteza! Além do rio… Não é chegar na outra margem. Não é desembarcar num ponto já marcado no mapa. Não é um lugar determinado. Não! Aquele que vai além do rio é aquele que Enxerga!

Percebe com a alma, com o coração!

Vai além do óbvio e vê aquilo que tá pra lá do visível. Lembram do Pequeno Príncipe? O essencial é invisível aos olhos… Judaísmo é Enxergar o Invisível!

Tinha um desenho antigamente. Não lembro em que canal passava… Será que era na Xuxa? No Sérgio Mallandro? Na Mara Maravilha? Era os ThunderCats. Lembram? Eles tinham uma “visão além do alcance”… Só eles viam! Coisas do Olho de Thundera!

Símbolos… Desenhos…

Guimarães Rosa também falava disso… Sertão… SER TÃO! Mergulhar dentro de si… A terceira margem do rio… Só quem vai além do rio consegue chegar na terceira margem!

E eu fico matutando: será que seu Rosa não foi, lá no fundo, um tanto inspirado por essa cultura, por essa tradição, por essa coragem para aprender a Enxergar? Vai saber… É desconfiança de poeta…

Mas se a gente escarafunchar um pouquinho mais, será que Minas não parece um tiquinho com Israel? Eu, pra ser bem sincero, acho que sim. Acho que até já falei aqui… Yiddishe mame… Mãe mineira! Todo mundo em volta da mesa, falando junto, brigando, se entendendo…

Generosidade! Fartura! Acolhimento! Tradição, de geração em geração… Festa!

Acho que é esse tempero, esse sabor, do Judaísmo que mais me alumbra: não é só religião. É cultura! É tradição! Tem sabor! Tem música! Tem poesia! A gente tá encarando de algo muito mais bonito, mais musical, mais materno.

É uma mãe que abraça quem tem a coragem de buscar entender, compreender, Enxergar… No fim, para mim a Torá não é só texto. É pensamento. É ato. É reflexão. É escolha.

Pensa numa coisa mais fascinante! Mendelssohn compôs uma sinfonia “Mar calmo, Viagem próspera”. Um pouquinho de humor judaico. Mar calmo não faz viagem próspera! Pelo contrário!

Ou seja, a gente precisa das dificuldades, dos obstáculos. Você já agradeceu a D´us por eles hoje? Já pediu Coragem e Sabedoria para poder superá-los? Para produzir uma pérola a partir deles?

No fim, o que importa é a coragem, a chutzpah… O milho que não passa pelo fogo nunca chega a pipoca. O barro que não passa pelo forno nunca chega a porcelana. O ouro só é depurado pelo fogo.

Judaísmo é esse lirismo de enxergar a beleza na dificuldade. De saber que a pérola só surge a partir do incômodo — daquele grão de areia que penetra no âmago da ostra e, com o tempo, vira brilho.

É saber que tentarão nos matar… Não conseguirão! Então a gente vai comer! We will dance again!

Judaísmo é religiosidade? Sim. Cultura? Também! Tradição? Mais ainda! Mas, acima de tudo, é a chutzpah — a coragem — de enxergar a Beleza na Vida!

Então um Ano Bom e Doce é mais do que um voto de felicidade. É um chamado: que a gente tenha a visão além do alcance. Que a gente vá além do rio. Que a gente enxergue beleza até onde ela parece impossível.

Shaná Tová uMetuká! Um ano bom e doce para todos nós.

André Naves Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

A Crise que Abala a República!

Desde que nasci, já sobrevivi a diversas crises. No entanto, a que hoje atravessa o Supremo Tribunal Federal, apresenta ingredientes de ineditismo. É importante frisar que nenhum poder está acima da lei, acima da Constituição Democrática brasileira, e que toda crítica aos ministros do STF não se confunde com críticas ao STF, instância democrática, de fundamental importância.

Em 8 de setembro de 2026, o Ministro André Mendonça determinou o afastamento preventivo do Diretor-Geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e do Diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.

A decisão decorreu de pedido formulado pelo Partido Novo em 2 de setembro, no sentido de que fossem adotadas providências para preservar a independência, a integridade e a efetividade das investigações em curso, inclusive com a avaliação do afastamento cautelar do Diretor-Geral.

O ministro André Mendonça registrou que foi submetido a monitoramento sistemático pela inteligência da Polícia Federal, materializado em ao menos seis relatórios de inteligência produzidos entre 3 e 31 de agosto de 2026 e encaminhados, segundo a imprensa, ao Ministro Alexandre de Moraes no âmbito do Inquérito das Fake News.

Se confirmados, estamos diante da máquina de inteligência do Estado posta a serviço da perseguição, não da investigação, para proteger alvos de denúncias de corrupção. A “arapongagem institucional” que Mendonça denunciou, se verdadeira, é incompatível com o Estado Democrático de Direito, ainda mais pelo motivo de buscar deslegitimar uma investigação prévia. O que estamos vivendo é grave e, lamentavelmente, tem a potencialidade de deslegitimar o órgão maior do Poder Judiciário.

Entretanto, a nomeação e a exoneração do diretor-geral da PF são competência privativa do Presidente da República. Ao afastar a autoridade, o Judiciário praticou, na substância, um ato de gestão executiva. E Mendonça era o alvo do monitoramento. Ninguém deveria julgar a própria causa. A decisão de juiz-vítima não pode ser admitida.

Não é possível, em resumo, aplaudir essa arbitrariedade formal, mesmo que usando como justificativas as mensagens de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Vamos lembrar?  “Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei?”, perguntou o banqueiro ao ministro Alexandre de Moraes, em diálogos que revelam tentativas de interferência junto ao procurador-geral e ao diretor da PF. Um investigado tentando manobrar a PGR e a Polícia Federal.

Ou seja, não há mocinho nessa história. Há um sistema em que o poder econômico, o tribunal e a cúpula policial se tornaram instrumentos autoritários e antidemocráticos. Exatamente por isso, a carta dos treze ex-ministros e ex-presidentes do STF — de Eros Grau a Rosa Weber, passando por Celso de Melo — é uma das manifestações mais importantes sobre esta crise. Eles não pedem defesa de ninguém. Pedem o que a República precisa: “imediata e rigorosa apuração, sob o devido processo legal, dos gravíssimos fatos” que mergulharam a Corte na “mais aguda crise de sua história”, em sessão pública do Pleno.

A crise não se resolve escolhendo um lado para condenar, nem outro para absolver. Resolve-se de acordo com o devido processo constitucional e legal.

André Naves — Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

Do Coma à Causa

Sabe?

A vida capota, né mesmo? A mãe do Forrest Gump falava que era uma caixa de chocolates… Eu adoro essa visão cheia de sabor! Tudo parece que sempre volta, mas diferente… Diferente… Mas volta… Ah… Volta!

E se ela for um caleidoscópio, cheio de cores, mas totalmente imprevisível? A gente nunca sabe o que vem pela frente! Chocolates, caleidoscópio, carrossel… Não sei… Parece tudo isso junto. Tudo junto e misturado!

Mas tem um detalhe que é mais importante! Ela também é ciranda: todo mundo, de mãos dadas, girando, cantando… Lá a gente mesmo canta… O que a gente quiser!

Mas… tem horas em que a vida parece que perde o alumbramento! Tudo parece tédio! Escuridão! Prisão! Uma masmorra modorrenta, soturna, mofada… Cadê o tempo? Tudo perde o sentido…

Quero te contar… Eu já tive lá. Fui aprisionado nas profundezas de um coma! E foi exatamente lá que eu comecei a escutar o que o barulho do dia a dia nos esconde. ESCUTAR! ENXERGAR!

Sabe um rio barrento? Um barranco todo enlameado? Chuva… Cinza… Esperança? Desesperança? Nesses momentos, eu ouvia… Sussurros. Um idioma novo! Carinhoso! Curativo! Era eu! Identidade! Existir… Resistir!

Beep! Beep! Beep!

Os sons ritmados e constantes dos monitores hospitalares tornaram-se o relógio da minha sobrevivência. Tatuaram-se em brasa na minha personalidade. Cicatrizes sonoras que ainda ecoam na minha mente.

UTI… Eu lutava numa encruzilhada definitiva. Ou soltar as amarras e me deixar levar pelo repouso e pela calma, ou continuar lutando.

CONTINUAR LUTANDO!

E não é que tudo começou a clarear? Bem aos poucos… Dia após dia… E os dias viraram semanas… E depois… Por una Cabeza, o entendimento veio!

Por uma Cabeza…

Eu sabia que podia… Mas escolhi! Escolhi o serviço. Escolhi a Humanidade. Porque a Vida é Trabalho. Vida é Serviço. Vida é Liberdade.

A vida tinha parado naquela quinta-feira de Carnaval. O desgoverno de um caminhão arremessou o nosso carro numa ribanceira. Asfalto que rasgou a minha juventude. Que levou dois dos meus melhores amigos… Um para o túmulo, o outro para a inconsciência…

Minha primeira lembrança? Dia 22 de abril — o aniversário do nosso Brasil. Dia do Descobrimento! Uma festa do povo! Do Brasil! Renasci, paralisado, reaprendendo a respirar, a comer, a viver! Reaprender a EXISTIR!

Por uma Cabeza…

Um tempão depois, ainda em frangalhos e meio que me arrastando, trupicando, centro caótico de São Paulo, eu era a presa perfeita. Na lógica do Datena, eu deveria ter sido engolido pela violência ou, na melhor das hipóteses, passado batido pela indiferença da multidão.

É aí que a vida parece mesmo uma caixa de chocolates! Um caleidoscópio, colorido e imprevisível!

Invés do abuso, da violência, da bandidagem, só achei a alma decente, honesta e trabalhadora do povo brasileiro. Todos os dias tinham mãos estendidas de pessoas anônimas que, mesmo lutando suas próprias batalhas diárias para sobreviver, pararam para me dar um ombro amigo! Nunca pediram absolutamente nada!

Só compartilharam a sua Humanidade. A nossa Humanidade!

HUMANIDADE!

E não é que o trauma é um professor? Severo e implacável. Sabe o que ele me ensinou? Uma lição surpreendente, mas completamente óbvia: toda superação é coletiva. Nesse mundo ninguém se salva sozinho!

Claro que o esforço individual é importantíssimo, fundamental, mas ele depende de tanta gente, de tanta coisa…

Foi essa caminhada que me fez… Eu parei de “ver” o mundo com os olhos e passei a “enxergar” com a alma.

ENXERGAR!

No fim, minha sobrevivência deu luz a uma dívida impagável de gratidão. Nada de uma dívida chata, dessas que a gente se sacrifica pra pagar. Pelo contrário! É um prazer enorme! Quando a gente fala “muito obrigado” tá reconhecendo uma obrigação de trabalhar, de construir, um mundo estruturalmente mais inclusivo, digno e justo!

Eu escolhi dizer “Muito obrigado” para o Povo brasileiro!

Para o Povo!

Para todos… Juntos…

Iachad!

André Naves

Quem tirou o Brasil do Mapa da Fome?

Em julho de 2025, a FAO anunciou que o Brasil saíra do Mapa da Fome — triênio 2022-2024. O Brasil não saiu do mapa da fome por decreto ou panaceia político-burocrática. Saiu porque o produtor rural, com disciplina e luta cotidianas, transformou o país em celeiro do mundo e barateou os alimentos no prato de cada brasileiro.

Em 1960, segundo o DIEESE, uma cesta básica custava um terço do salário-mínimo — o trabalhador comprava cerca de três cestas. Era um país agrícola, mas de baixuíssima produtividade: menos de 2% das propriedades possuíam máquinas, a soja era uma curiosidade sem expressão comercial. O Brasil não produzia o suficiente para alimentar sua própria população.

É nesse contexto que entra um homem que deveria ser tão enaltecido quanto Santos Dumont ou Ayrton Senna. Alysson Paolinelli, engenheiro agrônomo, ex-ministro da Agricultura (1974-1979), é o pai da revolução agrícola tropical. Idealizou e conduziu a criação da Embrapa e articulou a infraestrutura que tornou possível cultivar no Cerrado — aquele solo ácido que todos diziam imprestável (“Cerrado? Nem dado, nem herdado!”). Em 2021, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, com mais de cem cartas de apoio de 28 países. Em 2006, recebeu o World Food Prize.

Os números falam por si. Entre 1975 e 2017, a produção de grãos saltou de 38 milhões para 236 milhões de toneladas — mais de seis vezes —, enquanto a área plantada apenas dobrou. O rendimento do trigo cresceu 346%; o do arroz, 317%; o do milho, 270%. A produtividade total dos fatores de produção rural cresceu 3,4% ao ano por quatro décadas. Nos Estados Unidos, essa mesma produtividade cresceu apenas 1,46% ao ano entre 1948 e 2021, segundo o USDA: menos da metade da taxa brasileira. Hoje, a soja brasileira rende 3.697 kg/ha (CONAB, 2026), e o Brasil é o maior produtor mundial.

Foi esse aumento vigoroso de produtividade que produziu o barateamento relativo dos alimentos. A Embrapa atesta que “o preço da cesta básica reduziu-se consideravelmente”. Estudo de 2025 confirma que, entre 2000 e 2014, os preços dos alimentos caíram de 14,2% para 8,4% no orçamento das famílias. Não foi obra de governo: foi o alimento que barateou porque a ciência e o trabalho duro multiplicaram a produtividade no campo.

E a prosperidade não se restringe ao campo. Municípios vinculados ao Agro apresentam IDH sistematicamente superior às médias estaduais. Sorriso (MT) viu seu IDH saltar de 0,517 em 1991 para 0,744 em 2010 — avanço de 44%. Sapezal saltou 115%, de 0,340 para 0,730. Nas áreas produtoras de soja, o IDH saltou de 0,446 para 0,729 entre 1970 e 2010. O Agro, além de alimentos, produz desenvolvimento humano.

E o Agro não se resume à lavoura: é agroindústria, energia, tecnologia. O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, com 26,6 bilhões de litros de etanol — energia limpa que tende a dobrar até 2032. O agronegócio respondeu por 25,13% do PIB em 2025 (CEPEA/CNA), empregando 19 milhões de trabalhadores e alcançando fibras, bioenergia e bioinsumos.

Apesar disso, certos setores políticos persistem numa argumentação falaciosa contra o agronegócio, como se prosperidade rural fosse pecado e tecnologia no campo fosse agressão à natureza. Ignoram que o Brasil produz mais em cada hectare — preservando recursos naturais — e que foi o aumento de produtividade do agro que permitiu alimentar 215 milhões de brasileiros e centenas de milhões no exterior.

O Agro precisa de desburocratização urgente. Está sufocado por uma burocracia institucional imensa, por taxas de juros extorsivas alimentadas por uma dívida pública estratosférica e por um regime tributário asfixiante. O produtor rural que tirou o Brasil da fome merece paz para continuar seu heroico trabalho. É necessário afrouxar o cinto asfixiante que o Estado, e o preconceito, lhe impõem.

Segundo a FAO, o Brasil possui o menor custo de dieta saudável da América Latina e Caribe — US$ 4,89 por pessoa ao dia (PPP). Isso foi construído hectare por hectare, pesquisa por pesquisa, safra por safra, por mãos calejadas que o Brasil ainda não aprendeu a aplaudir.

Produtor rural brasileiro: o herói sem capa nem estátua!

André Naves — Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

Do Coma à Causa

Os Limites da Tolerância

Muito se fala, especialmente durante nossas Lojas, mas pouco se esclarece acerca do que possa ser entendido por tolerância. Entre as virtudes maçônicas, talvez seja uma das mais enfatizadas, mais repetidas, mais invocadas. Vale lembrar do conceito maçônico de Virtude, vale dizer, a disposição para se fazer o bem, limitada pelo equilíbrio da justa medida, que evita o exagero viciante.

Read More

Melado…

Eu ainda me lembro… Acho… Memórias… Saudades e Sonhos…

Tem gosto, sabor! E ele muda!  Curte. Ganha corpo. É queijo minas, aquele bem fresco, delicado, insosso. Com o tempo amarela! Ganha cor, sabor! Firma o perfume, escurece a casca, ganha força e beleza!

É o tempo… Quanto mais caminha, mais a saudade apura. Mais melada…

Tempo… O ingrediente de Ouro! D´Ouro!

Read More

A Dívida que Exclui

Como o endividamento público brasileiro sufoca crescimento, alimenta violência e limita inclusão

É uma cena, lamentavelmente, comum na realidade brasileira: uma mãe solitária que precisa levar o filho a uma fila de posto de saúde às quatro da manhã. Quando finalmente consegue a consulta, o medicamento prescrito não está disponível. Ela volta para casa, cansada, com a criança ainda doente. Essa cena — banal, cotidiana, brasileira — é o extremo de uma cadeia que começa em uma planilha do Tesouro Nacional, e termina na vida concreta de quem depende do Estado para sobreviver.

A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) atingiu 81,1% do PIB em maio de 2026, o equivalente a R$ 10,6 trilhões, segundo o Banco Central. Em julho, subiu para 81,9% — o maior patamar em mais de cinco anos. O FMI projeta 97,8% do PIB para 2026 e 106,5% em cinco anos. Para dar dimensão relativa: a Alemanha encerra 2025 com dívida de cerca de 64% do PIB; o México, 51%; o Chile, 41,5%. Entre grandes economias emergentes, o Brasil é anomalia.

É verdade que nem toda dívida pública é patológica. Países soberanos em moeda própria podem, em tese, expandir endividamento para financiar investimento contracíclico, infraestrutura com retorno futuro ou amortecer recessões. O economista André Lara Resende, nos lembra com elegância e erudição que a dívida pública tem dois lados: é passivo do Estado, mas ativo do setor privado. Reduzir a dívida, nesse raciocínio, é também reduzir riqueza privada. Lara Resende revisita Keynes para sustentar que sociedades muito poupadoras precisam de déficit público permanente para manter a economia em pleno emprego.

O argumento é intelectualmente sedutor, mas a realidade brasileira mostra coisa diversa. A questão não é apenas o tamanho da dívida — é o que ela custa e o que ela gera. Em 2025, o governo desembolsou pela primeira vez na história R$ 1,5 trilhão em juros. A Selic permaneceu em 15% ao ano, nível mais alto em quase duas décadas. Cada ponto percentual de elevação da taxa básica acrescenta R$ 55 bilhões ao custo anual da dívida, segundo o próprio Banco Central. Não se trata apenas de uma variável entre outras: a trajetória da dívida é um dos principais fatores — embora não o único, pois inflação, expectativas e contexto externo também pesam — que pressiona os juros para cima. E juros dessa magnitude têm consequências materiais.

A primeira consequência é a ilusão de inesgotabilidade. Quando o Estado captura volumes crescentes de recursos via endividamento, instala-se a percepção de que dinheiro não tem restrição material. A sensação de que “dinheiro nasce em árvore” é um efeito estrutural do financiamento por dívida. Quando não há percepção clara de limite, gasta-se mal.

O desperdício assume duas formas, como classifica a literatura especializada: ativo — a corrupção, que desvia recursos deliberadamente — e passivo — a ineficiência administrativa, que perde recursos por incompetência gestora, burocracia paralisante ou má alocação.

Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), publicado em 2019 e ainda referência central no debate, estima que ineficiências nos gastos públicos brasileiros cheguem a 3,9% do PIB — ou até US$ 68 bilhões por ano.

São escolas sem professores, hospitais sem insumos, estradas sem conservação. Não são falhas pontuais: são sintomas de uma estrutura que não cobra qualidade do gasto porque não percebe o custo de oportunidade de cada real desperdiçado.

A segunda consequência é a degradação dos serviços públicos. Quando o gasto é ineficiente, o serviço é deficitário. Quando o serviço é deficitário, ele é excludente por insuficiência material. As barreiras estruturais se elevam. Grupos minorizados, populações vulnerabilizadas, pessoas com deficiência — são sempre os primeiros a sentir o peso de um serviço público que não funciona. Os que mais dependem do Estado sejam os que mais sofrem quando o Estado desperdiça.

Dessa maneira, ainda que a relação entre dívida pública e violência não seja direta nem estatisticamente demonstrável de forma imediata, ela é uma inferência analítica, mediada por múltiplas variáveis: serviços públicos deficitários, segmentação social aprofundada, exclusão estrutural.

Ou seja, em 2024, o Brasil registrou 44.127 mortes violentas intencionais, com taxa de 20,8 por 100 mil habitantes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O Atlas da Violência do IPEA demonstra que essa violência é desigual — afeta sobretudo jovens negros, mulheres vulneráveis e populações periféricas. É assim que a dívida pública “aumenta” a criminalidade: ao concorrer para a degradação dos serviços públicos e aprofundar a exclusão estrutural, a trajetória insustentável do endividamento alimenta indiretamente o ciclo de brutalização social. A desigualdade potencializa a violência. A exclusão majora a violência. E a dívida, ao sufocar a qualidade do gasto, concorre para ambas.

A terceira consequência é a sucção da renda privada. A taxa de juros elevada — pressionada, entre outros fatores, pela trajetória da dívida — transfere renda do setor produtivo para o pagamento dos juros.

As famílias brasileiras atingiram recorde histórico de endividamento: 82% declararam possuir dívidas em agosto de 2026, segundo a CNC. Entre famílias de baixa renda, o índice chega a 84,9%. Esse endividamento tem causas múltiplas — estagnação da renda real, cultura de consumo, crédito informal, inflação de itens específicos —, mas a Selic em patamares estratosféricos. é, sem dúvida, um fator agravante. Juros altos encarecem o crédito, esmagam a propensão ao consumo e reprimem o investimento.

O resultado é um círculo perverso: dívida pública elevada pressiona juros para cima, juros altos sugam a renda de famílias já endividadas, o consumo trava, o investimento regride, o crescimento se limita. E é precisamente o crescimento econômico o vetor mais potente de inclusão social.

 A inclusão não se faz por decreto — ela se constrói pelo dinamismo do mercado, pela simplificação burocrática, pela facilitação do empreendedorismo, pelo incentivo à atividade econômica que tira pessoas da marginalidade e lhes devolve protagonismo.

Segundo o Índice de Capital Humano do Banco Mundial, uma criança nascida no Brasil hoje alcançará apenas 55% do potencial produtivo que teria com educação completa e saúde plena. Cada real desperdiçado em ineficiência é um real que deixa de ir para uma escola que funciona, um posto de saúde que atende, um programa de qualificação que emprega.

A observação de Lara Resende merece ser levada a sério, mas também confrontada com a realidade brasileira específica. Sim, a dívida é ativo do setor privado. A dívida pública brasileira, ao invés de financiar desenvolvimento, estimula a corrupção e o desperdício. Dinheiro que poderia estar em escolas, hospitais e infraestrutura.

Há quem sustente que soberania monetária anula a restrição orçamentária e que o Estado pode gastar sem limite. A inflação e os juros reais brasileiros desmentem isso. Não se pode gastar infinitamente sem custos. A questão é material.

O caminho não é a austeridade seletiva que penaliza pobres enquanto preserva privilégios. O caminho é a responsabilidade fiscal articulada com justiça social. Cada real economizado em corrupção e ineficiência é um real que pode ir para uma escola que funciona, um hospital que atende, um programa de inclusão que efetivamente inclui.

Responsabilidade fiscal e justiça social não são inimigas. São complementos indispensáveis. Quando o Estado gasta bem, gasta menos e inclui mais. Quando o Estado gasta mal, gasta muito e exclui ainda mais. A dívida pública, em sua trajetória atual, é uma questão de dignidade humana. Cada real desperdiçado é uma vida que fica à margem. Cada ponto de juro que sobe é uma família que não consegue fechar a conta no fim do mês.

É matemática. E, sobretudo, é ética.


André Naves é Defensor Público Federal, escritor, doutor em Economia pela Princeton University, mestre em Economia Política pela PUC/SP e bacharel em Direito pela USP.

Oi Pai…

            Oi Pai…,

            Já faz tempo, não é?

            Na verdade, o tempo é como um cavalo no jóquei: a gente nunca sabe se ele é rápido ou demorado… Só depois da corrida que a gente tem uma vaga noção. Nesse instante, as névoas da confusão parecem clarear…

Read More

O Orçamento Deve Ser Lido à Luz da Constituição Federal

Foi naturalizada uma violenta ideia torta: a de que o orçamento fiscal é o parâmetro supremo e a Constituição Federal, um entrave ajustado conforme a disponibilidade de caixa. É o inverso de tudo. A Constituição não existe à luz do orçamento. É o orçamento que deve ser lido à luz da Constituição.

Direitos Constitucionais não são concessões que o Estado pode retrair sob os desmandos da austeridade. São compromissos estruturantes de um Estado Democrático de Direito — o próprio artigo 1º da Constituição Federal é claro: a República Federativa do Brasil constituiu-se em Estado Democrático de Direito. Democracia sem Direitos Sociais não é democracia.

Quando medidas de responsabilidade fiscal restringem direitos garantidos pela Carta Magna, está-se subvertendo a hierarquia normativa. Está-se dizendo, em prática, que o equilíbrio das contas públicas pesa mais que a dignidade humana. E isso — precisamos ter coragem de dizer — faz mal para o direito, faz mal para o sistema jurídico como um todo, e faz mal para a própria sociedade, especialmente para os grupos vulnerabilizados e minorizados que dependem desses direitos para existir como sujeitos plenos de Cidadania.

A decisão recente do Supremo Tribunal Federal ilustra isso com nitidez.

No dia 4 de agosto de 2026, o plenário do STF, por unanimidade, julgou parcialmente inconstitucional a Lei Complementar 214/2025, que regulamentou a Emenda Constitucional 132/2023 — a Reforma Tributária. A EC 132 zerou as alíquotas do IBS e da CBS na compra de veículos por pessoas com deficiência e por pessoas com transtorno do espectro autista (TEA).

A Constituição, ao conceder o benefício, não estabeleceu nenhuma gradação. Não falou em deficiência leve, moderada ou grave. Não distinguia entre autismo nível 1, 2 ou 3 de suporte. Disse, simplesmente: pessoas com deficiência e pessoas com TEA. A LC 214/2025, porém — de iniciativa do governo federal e aprovada no Congresso Nacional —, fez o que a Constituição não fez: criou graus. Restringiu o benefício fiscal a pessoas com “deficiência mental severa ou profunda” e a autistas “de nível moderado ou grave”. Excluiu automaticamente, de forma abstrata, pessoas com deficiência mental leve e pessoas com autismo nível 1 de suporte. Em outras palavras: a lei complementar restringiu aquilo que a Constituição ampliou.

O relator, ministro Alexandre de Moraes, foi muito didático: “A Constituição não estabeleceu diferença entre pessoas com deficiência leve, grave ou média”. À lei complementar caberia definir os critérios e requisitos para a concessão do benefício — mas não restringir previamente o grupo alcançado pela norma constitucional. O STF declarou nulas as expressões “severa ou profunda”, “de nível moderado ou grave” e “grau moderado ou grave”, retirando da lei complementar aquilo que ela não tinha autoridade para impor.

Não foi uma “canetada do Xandão”, como muitos têm espalhado. Foi uma restituição. Foi o Supremo dizendo que a lei não pode criar distinções que o texto constitucional não faz. Os níveis de suporte do autismo — 1, 2 e 3 — existem para fins de classificação clínica, para orientar tratamentos e intervenções. Não existem para conceder ou negar direitos. Não foram desenhados para funcionar como catraca de Cidadania.

Moraes ainda ressaltou algo que a grande imprensa preferiu ignorar: pessoas enquadradas no nível 1 do espectro autista podem enfrentar prejuízos relevantes de comunicação e interação social. E que mesmo que todos os beneficiários solicitassem a isenção, seriam cerca de 4 mil compras de veículos por ano. O impacto fiscal é irrisório. A decisão, disse o ministro, não causaria “nenhum transtorno fiscal” à União. Ou seja: a restrição não era necessária nem do ponto de vista arrecadatório. Era, pura e simplesmente, uma escolha política de exclusão.

Aqui entra um princípio que merece ser explicado: o princípio da vedação ao retrocesso social. Trata-se de uma garantia enraizada no constitucionalismo social brasileiro, segundo a qual direitos sociais já conquistados não podem ser suprimidos ou reduzidos pelo Poder Público sem que se garanta um nível mínimo de prestação que preserve o núcleo essencial do direito.

Trata-se de impedir que cada novo ciclo orçamentário se torne uma oportunidade de retroceder. O ministro Gilmar Mendes, no mesmo julgamento, chegou a chamar o princípio de “cláusula espiritual” — sugerindo que, embora seu contorno normativo exija precisão, ele é o que dá alma à ordem social constitucional. Sem ele, cada governo pode revogar o que o anterior conquistou, e os direitos viram mera estratégia político-partidária.

É esse princípio que a decisão do STF invoca. A Constituição de 1988 garantiu isenção tributária para PCD na compra de veículos. A EC 132/2023 manteve esse direito no novo sistema tributário. A LC 214/2025 tentou estreitar o alcance. O STF restabeleceu o que a Constituição sempre disse. Não retrocesso. Restituição.

Agora, o que é realmente revoltante é o comportamento da imprensa hegemônica brasileira diante dessa decisão.

Vários órgãos de comunicação que nunca dedicaram uma linha à violência contra pessoas com deficiência, que nunca mencionaram o capacitismo estrutural que opera diariamente na exclusão de PCD do mercado de trabalho, da escola, da saúde, da cultura, que nunca noticiaram a ausência dessas pessoas nos espaços de poder, que nunca deram bola para o fato de que mais da metade das empresas brasileiras não cumprem a Lei de Cotas — Lei 8.213/1991, que reserva de 2% a 5% das vagas em empresas com mais de 100 funcionários para pessoas com deficiência. Esses mesmos órgãos, de repente, descobriram o tema. E descobriram para dizer o quê? Que a decisão do STF é um “privilégio”. Que é “benefício excessivo”. Que “destrói” a indústria automobilística. Passaram informações erradas sobre o alcance da decisão, sobre quem tem direito, sobre o impacto fiscal. Alguns chegaram a fazer piada.

Fazer piada com coisa séria não é jornalismo. É sintoma de uma estrutura midiática que só enxerga as pessoas com deficiência quando elas ameaçam — ainda que minimamente — os privilégios de quem nunca precisou pedir acessibilidade para entrar num prédio, pegar um ônibus, ser ouvido numa entrevista de emprego.

Onde estavam esses órgãos quando o IBGE revelou, em maio de 2025, que o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência — 7,3% da população — e 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro autista, 1,2% da população? Onde estavam quando a Organização Mundial da Saúde há anos diz que 15% da população mundial — mais de um bilhão de pessoas — vive com alguma deficiência? Onde estavam quando o CDC dos Estados Unidos apontou prevalência de 1 em cada 31 crianças no espectro autista?

Silêncio… Sempre silêncio.

A imprensa que agora transforma direito em “privilégio” é a mesma que nunca fez do capacitismo uma pauta cotidiana. Que nunca questionou por que pessoas com deficiência continuam sendo as grandes invisíveis do mercado de trabalho formal. Que nunca dedicou editorias à inclusão. Quando a pauta é cortar, restringir, austerizar — aí sim as PCD, além de outros grupos minorizados, merecem manchete.

A pergunta que se faz é simples: desde quando restituir um direito constitucional é “dar privilégio”? Privilégio é o que a estrutura concede, diariamente, a quem não precisa de rampa, de lei de cotas, de adaptação, de isenção. Privilégio é o que opera na invisibilidade, sem ser nomeado. Direito é o que aparece, é contestado, é resistido — e, mesmo assim, precisa ser reconquistado diariamente!

O ponto central é este: o orçamento é instrumento. A Constituição é fundamento. Inverter essa relação é tratar direitos sociais como variável de ajuste fiscal, o que é, em essência, subordinar a dignidade humana à planilha. E quando a planilha se sobrepõe à Constituição, os primeiros a pagar a conta são sempre os mesmos: os que já estão na margem. Pessoas com deficiência. Pessoas autistas. Os historicamente invisibilizados.

A lógica da austeridade que restringe direitos constitucionais não é técnica. É política. E política no sentido mais profundo: é uma escolha sobre quem importa e quem pode ser descartado. A resposta constitucional brasileira é clara: ninguém pode ser descartado. Os níveis de suporte do autismo, os graus de deficiência, os critérios clínicos — tudo isso serve para cuidar, para tratar, para acolher. Nunca para dividir entre quem merece direito e quem não merece.

Não com discursos. Com estrutura. Não com exceções. Com direito.

Com Justiça!


André Naves Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Membro dos Grupos de Trabalho – Pessoas com Deficiência, Pessoas Idosas e Pessoas em Situação de Rua. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

Prendeu, Matou: uma proposta irresponsável!

O atual debate presidencial brasileiro nos apresenta propostas das mais absurdas. Entre elas, desponta um discurso que se sintetiza numa expressão cruel e simplista: “prendeu, matou”. A ideia de que a segurança pública se resolve pelo encarceramento em massa e pela eliminação sumária de suspeitos, além de  jurídica e eticamente equivocada, é socialmente irresponsável.

Read More

Bnei Anussim!

Saudades…

Saudades…

Saudades…

Pra última flor do Lácio, pro português quadradinho das gramáticas, saudade é um ente abstrato. Não existe o plural de saudade!

Que loucura isso! Não existe plural…

Justo as saudades! Quer coisa mais coletiva, mais ancestral, que isso? Nossas saudades…

Mas aqui é minha crônica! Linguagem do conforto, da fogueira, do café, do bolo de fubá…

Aqui as saudades são ancestrais. Vêm de antepassados e vão sendo construídas passo a passo, fagulha a fagulha… De geração em geração!

Acho que até fiquei um tiquinho confuso…

Claro que eu sou um indivíduo. Tenho minhas características únicas, cores e sons, luzes e trevas. Sou gente! Nada do que é humano me é estranho, dizem…

Mas foi o caminho de minha história que me trouxe até aqui.

Até aqui…

Eu sou fruto da união de algumas famílias. Quem não é, não é?

Os Naves, que vieram da Espanha. Aliás, bem pertinho de Oviedo ainda tem o vilarejo Naves. Interessante isso, né?

Porque os Naves… bem, eu não sei qual é o nome original, mas eram armadores. Originalmente, armadores. Construtores de caravelas. Desbravadores. Mas caíram nas tramas da inveja, da intriga! Massacrados! Aniquilados! Fogueiras da Inquisição. Fogueiras da destruição! Convertidos à força! Forçados… Expropriados… Degradados!

De descobridores a refugiados…

Essa fogueira começou numa tragédia, num massacre, mas terminou aqui, nessas reticências…

E tem o outro lado também… A outra turma! Meu outro eu! Os Logaldi Bartholomeu! Arberesh! Albaneses expulsos quando o Império Otomano dominou. Desembarcaram na Itália. Séculos se passaram… De repente, Brasil!

Do refúgio às reticências…

Minhas raízes! O italiano sempre foi o idioma de dominadores, de invasores! Nada como o doce som do Arberesch falado na Calábria!  Não tinha o sabor ancestral do raki… Era só um vinho importado, um modismo autoritário, sem tradição, sem vida, sem alma nem história!

Refugiados no Brasil!

Silva e Logaldi Bartholomeu. Brasil e Europa. Tudo se cruzou, se emaranhou, se amalgamou… Eis-me aqui! Das tragédias abrem-se as cortinas para o Futuro!

Promessa!

É uma enormidade de fatos e coincidências, desastres e delícias, de histórias que nos embalaram até essa letra! Esse “A”!

Já pensou se de repente um ancestral meu tivesse resolvido tomar outro caminho, outra escolha? E se ele tivesse morrido de morte matada? Ou de morte morrida? Ou se tivesse ganhado fortuna?

A história faz parte de quem eu sou. Faz parte dessas palavras que vocês estão lendo. De tudo o que falo, de tudo o que sei, de tudo o que sou…

Taí a beleza da vida! Esse é o milagre! O MILAGRE!

No fim, a gente é muito mais do que somente coletivo. A gente é histórico. É ancestral. A gente foi sendo construído, transmitido, aos poucos… Passo a passo… Tradição a tradição… De geração em geração!

Bnei Anussim… Filhos dos Forçados… Filhos da Força!

No fim, a gente é História, mas isso não é uma condenação. É uma promessa, uma possibilidade! Se somos frutos da nossa história, temos a possibilidade de quebrar ciclos. De começar do zero uma nova linhagem geracional. Mais limpa. Mais iluminada. Mais potente.

Um momento, uma tomada de decisão! Única! E, de repente, a gente tá com o timão da vida… Vontade, desejo e paixão! Crescer, caminhar, estar ao lado dos outros, perceber a comunidade. É isso que faz o que nós somos!

Responsabilidade…

É por isso que é melhor a gente não fugir das tragédias. Elas acontecem… Fazem parte desse mundo. E, acreditem, elas nos tornam pessoas melhores — comunidades melhores, pessoas históricas e coletivas, ancestrais e coletivas, melhores.

Pensa no paradoxo… Talvez a maior de todas as tragédias seja nunca ser purificado por uma tragédia. A ostra só produz pérolas quando incomodada pelo grão de areia…

Armadores ibéricos que construíam caravelas foram queimados nas fogueiras, enquanto os que restaram foram jogados no mar, para as Américas. Albaneses perseguidos por impérios atravessaram mares e montanhas e acabaram no Brasil. Nessas reticências…

A gente sente na pele o eco de fogueiras que nunca viu, mas que queimaram algo dentro de nós… Traumas históricos. Saudades ancestrais…

Mas olha… Eu acho que todos nós somos, de alguma forma, não importa se nossos ancestrais foram judeus ibéricos e albaneses, otomanos, africanos escravizados, indígenas massacrados, migrantes famintos… Todos nós somos filhos dos que foram forçados — pela história, pela tragédia, pela crueldade dos impérios e das inquisições de cada tempo.

E estamos aqui e agora, todos nós, portadores do mesmo tesouro, pescadores das mesmas pérolas, proprietários da mesma oportunidade: quebrar o ciclo. Começar de novo. Sob Aquela Luz que sempre continua brilhando. Silenciosa. Discreta.

Como a saudade que não tem plural no dicionário, mas que em nós se faz multidão, o todo é muito maior do que a soma das partes, juntos pelo amálgama do Amor.

Juntos por Amor!

Naves. Logaldi. Bartholomeu. Silva. Fogueiras. Caravelas. Oceanos. Pérolas. Brasil!

Tudo isso sou eu. Tudo isso somos nós.

Bnei Anussim.

Filhos dos Forçados…

Filhos da Força!

André Naves Defensor Público Federal. Escritor. Presidente do Chaverim (www.chaverim.org.br) www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def

Milei e os ataques à Dignidade

Uma cena se repete nas ruas de Buenos Aires. Filas quilométricas diante das sedes da ANDIS — a agência nacional de deficiência da Argentina. Pessoas com deficiência, familiares, cuidadores, esperam horas para reivindicar o que lhes foi tirado: o benefício mensal que, para muitos, era a única fonte de renda para comer, morar, comprar medicamentos, pagar transporte adaptado. O benefício valia cerca de duzentos dólares. Mais de cem mil pessoas o perderam. Por decreto.

Read More

Não se troca de Paixão…

           De fato… Não se troca.

            Tem um filme argentino que fala bem disso… “O Segredo de Seus Olhos”… Não se troca de paixão… Troca-se de tudo nessa vida… Tudo mesmo! Mas a paixão, essa não!

A minha paixão é o Brasil. Totalmente Brasil. A gente, a música, a vida, a alegria e o drama… Sabe do que mais gosto? De saber que o povo brasileiro, tão desrespeitado, tão maltratado, é tão trabalhador, honesto e digno. Coisa de quem não desiste nunca!

Mas, sinceramente? Eu preciso confessar uma coisinha… Sinto uma relação de amor e admiração — e uma certa inveja também, sim, pra que esconder? — pela nossa hermana Argentina.

A verdade é que essa admiração sempre existiu. Mas ela subiu de patamar há uns anos atrás… Acho que eu já contei isso, mas as memórias vêm e vão em ciclos, então nem me avexo de contar de novo…

Lembram que eu tinha saído do coma? Era a primeira consulta consciente com o neurologista. Ele olhou os exames, olhou para mim, e disse que eu só tinha sobrevivido porque a lesão no meu cérebro tinha sido, nas palavras dele, “uma cabeça de alfinete pro lado”.

Uma cabeça de alfinete…

Se tivesse sido um milímetro para o outro lado, não tava aqui escrevendo para vocês.

            Penso nisso sempre… “Por una Cabeza”! Um bandoneón e o lirismo de Gardel! Por una cabeza… Tudo é tango! Carlos Gardel. Astor Piazzolla. Polaco Goyeneche… Tango denso… “Balada para um loco”… Penso na noite de São Paulo. Penso na Ronda do Vanzolini… No fim, Hermanos!

Eu já era fã! Verdade seja dita: eu gostava do Dulce de leche! Depois daquela consulta então? Era o espírito argentino na minha alma. Saber sufrir e volver a vivir! Piazzolla escreveu minha ópera favorita: María de Buenos Aires — uma operita surreal embalada pelo bandoneón que chora e ri… Uma história tão paulistana… Hermana!

E tantas coisas da Argentina me atraem! Confesso que doce de leite, sempre (apesar de eu ainda preferir o mineiro… 😉). Mas também a literatura, o teatro, o cinema… Cultura! O argentino tem emoção com a palavra. Mastigam sílabas! Degustam adjetivos. Parrillas de letras e emoções! E o cinema, então? Falam do cotidiano caleidoscópico sem perder a ternura, jamás!

Mas no futebol… Ah, no futebol a coisa é outra. Lá é Brasil. Sempre foi Brasil. Não se troca de paixão! Nessa Copa, a Argentina não ganhou… Mas mesmo sem ganhar, eles ensinaram uma coisa pra todos nós: que até o último minuto a gente tem de optar por lutar. Com raça. Com força. Enquanto tem bambu, tem flecha!

O interessante é isso mesmo! Aprender com o melhor de uns e outros. Vou contar uma historinha… Vocês sabem que na Divina Comédia de Dante Alighieri, Dante é guiado por Virgílio nos círculos do inferno e do purgatório. Acontece que não basta a razão, a filosofia de Virgílio para chegar até o círculo mais alto, o círculo do Paraíso…

É aí que sua amada Beatriz vai de guia. É tão lindo isso! Que símbolo! Só o amor nos guia ao Paraíso! A gente só aprende pelo amor… Pelo sentimento! Em conjunto! Irmanados!

Vou dar um exemplo: quando a gente quer agradecer alguém, a gente fala “muito obrigado”. E “muito obrigado” significa que nós estamos doando o melhor de nós mesmos. Nós estamos assumindo uma obrigação para transformar o mundo num lugar melhor para todos nós. Nós não só agradecemos, nós nos comprometemos a construir algo.

Isso, de certa forma, é Amor! É possibilidade de chegarmos todos ao Paraíso! À Terra Prometida! A gente só continua porque acredita…

Eu adoro um conto do Kafka em que ele fala de um cavalheiro que monta no cavalo e vai galopando de uma vila até a outra. Ele começa a olhar para os lados e vai vendo a vida dele passando ao lado dele. Tudo! Sua aventuras, dramas, desventuras, batalhas, amores!

No fim a vida é isso! Tão vasta, tão rápida, tão tango! Sobram memórias… As saudades que nos motivam, que nos dão propósito… As memórias nos preparam para o futuro… Para a Terra Prometida!

Vamos?

Iachad!

André Naves Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, Mestre em Economia Política, Comendador Cultural e autor dos livros “Caminho: A beleza é enxergar” e “Beethoven enxergou o Luar”. Presidente do “Chaverim” — www.chaverim.org.br

www.andrenaves.com — @andrenaves.def