Espírito do Tempo: Mudança, Autonomia e Afeto
13 de outubro de 1806. Em Jena, ocupada pelos exércitos bonapartistas, um professor de filosofia, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, viu passar o Imperador Napoleão Bonaparte. A posteridade condensaria a cena na célebre expressão “o espírito do tempo a cavalo”. Hegel não viu um homem. Viu o espírito do tempo — o Zeitgeist — passar diante de seus olhos.
Beethoven também soube enxergar o seu tempo. A Terceira Sinfonia, composta entre 1803 e 1804, nascera com o nome de Bonaparte. O compositor o admirava como encarnação do ideal republicano. Quando soube que Napoleão se havia proclamado imperador, decepcionou-se e gritou: “Então ele também não passará de um homem comum! Agora ele pisará os direitos do homem para satisfazer sua ambição; agora ele se colocará acima de todos e se tornará um tirano!”. E tirou o nome Bonaparte da sinfonia…
Duas maneiras de enxergar o mesmo espírito do tempo. Entre as duais está uma importante lição: o espírito do tempo é maior que qualquer pessoa. Ele não pode ser impedido, aprisionado: chega livre como o vento, como o galope de um cavalo, com um acorde harmônico… O Brasil está vendo chegar o espírito do tempo. Ele se apresenta como mudança na condução da política, mas sua raiz é o resgate de valores…
Valores de pertencimento — a família, a comunidade, os laços de afeto, o cuidado uns com os outros, o acolhimento. Valores de propósito — o planejamento de cada vida, a coligação do individual com o coletivo, a construção de algo maior a partir do que cada um tem de mais próprio. Valores de autonomia — o desejo, tão humano, de ser protagonista da própria existência, e não cativo de um Estado que determina todas as regras. E valores de tradição — as melhores conquistas transmitidas de geração em geração, que merecem ser resgatadas porque humanizam.
As pesquisas mais recentes capturam esse espírito. No levantamento global da Ipsos sobre felicidade, divulgado em 2026, entre os brasileiros que se declaram felizes 34% apontam como fonte sentir-se amados ou apreciados; 29% citam a família e os filhos; outros 29%, sentir-se no controle da própria vida; 27%, sentir que a vida tem sentido. Repare: afeto e autonomia! O afeto fortalece nossos vínculos para que possamos reconhecer a humanidade de quem está fora deles.
Ou seja, o espírito do tempo recusa o Estado tutelar, que trata adultos como incapazes, comunidades como menores e toda iniciativa como suspeita. Recusa a dependência da autorização permanente de quem governa. Recusa, também, o desamparo travestido de liberdade. A alternativa à tutela não pode ser o abandono. Uma pessoa sem escola, sem saúde, sem acessibilidade, sem condições materiais de participar da vida comum, não se torna autônoma.
É por isso que os direitos humanos são universais e horizontais; sua concretização, é sempre uma responsabilidade pessoal, comunitária e social. Eles se realizam na família que cuida, na comunidade que acolhe, na pessoa que planeja, sonha e constrói — e encontram no Estado um parceiro que cumpre seus deveres sem se tornar tutor das escolhas alheias. Cada pessoa é um fim em si mesma. É disso que fala o espírito do tempo que atravessa o Brasil: o espírito do afeto, da construção individual e comunitária dos direitos humanos, da autonomia.
Beethoven ensinou que é possível amar o espírito de uma época sem se ajoelhar diante de quem diz encarná-lo. Ou seja, fica a tarefa democrática do nosso tempo: reconhecer a mudança quando ela chega e sermos protagonistas da mudança!
O espírito do tempo floresce em nós — em cada pessoa que decide ser protagonista da própria vida.
André Naves — Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP. Especialista em Inclusão Social, Direitos Humanos e Economia Política. Membro dos Grupos de Trabalho da DPU: Pessoas Idosas, Pessoas com Deficiência e Pessoas em Situação de Rua. Comendador Cultural. Escritor. Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def
