Category Archive : Literários

Não se troca de Paixão…

           De fato… Não se troca.

            Tem um filme argentino que fala bem disso… “O Segredo de Seus Olhos”… Não se troca de paixão… Troca-se de tudo nessa vida… Tudo mesmo! Mas a paixão, essa não!

A minha paixão é o Brasil. Totalmente Brasil. A gente, a música, a vida, a alegria e o drama… Sabe do que mais gosto? De saber que o povo brasileiro, tão desrespeitado, tão maltratado, é tão trabalhador, honesto e digno. Coisa de quem não desiste nunca!

Mas, sinceramente? Eu preciso confessar uma coisinha… Sinto uma relação de amor e admiração — e uma certa inveja também, sim, pra que esconder? — pela nossa hermana Argentina.

A verdade é que essa admiração sempre existiu. Mas ela subiu de patamar há uns anos atrás… Acho que eu já contei isso, mas as memórias vêm e vão em ciclos, então nem me avexo de contar de novo…

Lembram que eu tinha saído do coma? Era a primeira consulta consciente com o neurologista. Ele olhou os exames, olhou para mim, e disse que eu só tinha sobrevivido porque a lesão no meu cérebro tinha sido, nas palavras dele, “uma cabeça de alfinete pro lado”.

Uma cabeça de alfinete…

Se tivesse sido um milímetro para o outro lado, não tava aqui escrevendo para vocês.

            Penso nisso sempre… “Por una Cabeza”! Um bandoneón e o lirismo de Gardel! Por una cabeza… Tudo é tango! Carlos Gardel. Astor Piazzolla. Polaco Goyeneche… Tango denso… “Balada para um loco”… Penso na noite de São Paulo. Penso na Ronda do Vanzolini… No fim, Hermanos!

Eu já era fã! Verdade seja dita: eu gostava do Dulce de leche! Depois daquela consulta então? Era o espírito argentino na minha alma. Saber sufrir e volver a vivir! Piazzolla escreveu minha ópera favorita: María de Buenos Aires — uma operita surreal embalada pelo bandoneón que chora e ri… Uma história tão paulistana… Hermana!

E tantas coisas da Argentina me atraem! Confesso que doce de leite, sempre (apesar de eu ainda preferir o mineiro… 😉). Mas também a literatura, o teatro, o cinema… Cultura! O argentino tem emoção com a palavra. Mastigam sílabas! Degustam adjetivos. Parrillas de letras e emoções! E o cinema, então? Falam do cotidiano caleidoscópico sem perder a ternura, jamás!

Mas no futebol… Ah, no futebol a coisa é outra. Lá é Brasil. Sempre foi Brasil. Não se troca de paixão! Nessa Copa, a Argentina não ganhou… Mas mesmo sem ganhar, eles ensinaram uma coisa pra todos nós: que até o último minuto a gente tem de optar por lutar. Com raça. Com força. Enquanto tem bambu, tem flecha!

O interessante é isso mesmo! Aprender com o melhor de uns e outros. Vou contar uma historinha… Vocês sabem que na Divina Comédia de Dante Alighieri, Dante é guiado por Virgílio nos círculos do inferno e do purgatório. Acontece que não basta a razão, a filosofia de Virgílio para chegar até o círculo mais alto, o círculo do Paraíso…

É aí que sua amada Beatriz vai de guia. É tão lindo isso! Que símbolo! Só o amor nos guia ao Paraíso! A gente só aprende pelo amor… Pelo sentimento! Em conjunto! Irmanados!

Vou dar um exemplo: quando a gente quer agradecer alguém, a gente fala “muito obrigado”. E “muito obrigado” significa que nós estamos doando o melhor de nós mesmos. Nós estamos assumindo uma obrigação para transformar o mundo num lugar melhor para todos nós. Nós não só agradecemos, nós nos comprometemos a construir algo.

Isso, de certa forma, é Amor! É possibilidade de chegarmos todos ao Paraíso! À Terra Prometida! A gente só continua porque acredita…

Eu adoro um conto do Kafka em que ele fala de um cavalheiro que monta no cavalo e vai galopando de uma vila até a outra. Ele começa a olhar para os lados e vai vendo a vida dele passando ao lado dele. Tudo! Sua aventuras, dramas, desventuras, batalhas, amores!

No fim a vida é isso! Tão vasta, tão rápida, tão tango! Sobram memórias… As saudades que nos motivam, que nos dão propósito… As memórias nos preparam para o futuro… Para a Terra Prometida!

Vamos?

Iachad!

André Naves Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, Mestre em Economia Política, Comendador Cultural e autor dos livros “Caminho: A beleza é enxergar” e “Beethoven enxergou o Luar”. Presidente do “Chaverim” — www.chaverim.org.br

www.andrenaves.com — @andrenaves.def

Imagina na Copa…

Tô aqui de volta! Que honra. Escrever é a minha alegria. Sabe um drible? Um gol? É minha obra. Ouço bem, tintim por tintim, tudo o que é falado nos nossos encontros. Estudo bastante. Reflito mais ainda. Quando vejo, zaz! Ela tá lá: minha crônica, minhas palavras… Meus pensamentos no “papel”! Sou feliz com isso… Contente!

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Chaverim e a Revolução pela Amizade e pela Convivência

Imagine um chaveiro…

Sabe? Daqueles que a gente carrega e às vezes perde?

Cada chave com um desenho diferente, cada uma abrindo uma porta do mundo e, às vezes, do coração…

O Chaverim, para mim, sempre foi isso… De certa forma, um chaveiro de gente. Um chaveiro da gente! Gente que abre… Que destranca… Gente que constrói pertencimento!

Quando eu tomei conhecimento dele, ali, naquela primeira vez… Eu achava que ia ser só uma palestra… Mais uma! Era só mais um convite… Bem… Essa “palestra” em que eu mais escuto que falo, já dura mais de década!

Cheguei lá meio à toa. Ganhei uma família. Várias! Eu tava lá, assistindo a um laboratório de amizade, acolhimento e humanidade.

É uma revolução pela convivência. Pela amizade!

Sim… Em hebraico, “Chaverim” significa “amigos”. Mas O Chaverim significa muito mais… É o canto pela união daquilo que o mundo insiste em separar!

É curioso como, para enfrentar o antissemitismo, muita gente pensa que basta ensinar história, denunciar o ódio, explicar contextos. Sempre tive minhas dúvidas… Não me entenda mal, por favor! Claro que isso é necessário! É que não basta…

O antissemitismo — como todo preconceito — se dissolve é na convivência. Odiar de longe é sempre mais fácil; é no encontro que o erro se desmancha.

E é isso que o Chaverim faz, há mais de trinta anos… 30 anos! Não são 30 dias. Não é uma iniciativa de agora. Quando o mundo nem sonhava com pertencer, acolher e conviver, ele já tava lá…

Criando encontros. Laços. Vínculos tão verdadeiros que nenhuma desinformação consegue romper!

Sabe o mais legal? É muito divertido perceber como essa caminhada — tão judaica e tão brasileira — acaba por ressaltar uma obviedade: a gente é muito igual!

Quem tem mãe ou avó mineira sabe do que eu tô falando… Ela sempre manda levar um casaquinho, uma matulinha… Toda vez! Ela fala que a gente precisa comer mais… Sabe uma Yiddish Momme?

Quem já viu mesa grande em Minas, Goiás ou no sertão paulista reconhece de longe aquelas conversas paralelas, aquele falatório… Tá todo mundo em uma estação diferente, mas ninguém perde o fio da meada. E nas reuniões?

E os temperos? A abundância asquenazi convivendo, sem conflito, com o calor dos sabores sefaradis — tudo isso fala ao Brasil profundo.

Até o trânsito…

Acho que por isso o Chaverim seja tão importante no combate ao antissemitismo. Ele aproxima. Ele mostra a Humanidade… Ele destrói a lógica do “outro” e inaugura a lógica do “nós”.

Janusz Korczak dizia que educar é acordar almas adormecidas. E, por muito tempo, nossa sociedade — estruturada num capacitismo quase inconsciente — tentou manter muitas almas dormindo.

O Chaverim é o som do shofar que desperta. Acorda talentos, acorda habilidades, acorda autoestima. E acorda também a sociedade para uma obviedade: a inclusão não é favor; é ética e inovadora!

A gente nunca tenta “consertar” ninguém… Ia ser o cúmulo da arrogância, né? Quem sou eu na fila do pão pra achar que sei consertar alguém (seja lá o que isso signifique…). A gente luta pra remover barreiras.

Ali se constrói pertencimento. Ali se dá as mãos — e quando a gente se dá as mãos, as limitações de uns são sempre complementadas pelas forças de outros.

É por isso que eu digo que o Chaverim é um chaveiro… De pérolas!

Cada pessoa que chega ali é uma chave. E cada chave abre uma pérola escondida, que tá lá dentro da nossa alma, quietinha, só esperando um ambiente de sorriso e acolhimento pra brilhar.

Sabe o som do shofar que desperta as almas?

Esse é o pulo do gato! Pra mim, o Chaverim deveria ser conhecido por toda a sociedade. Deveria ser abraçado por escolas públicas, universidades, empresas, órgãos privados e públicos… Em tempos de ódio, o Chaverim também é um antídoto!

Uma revolução da Amizade!

A comunidade judaica não só está no Brasil. Ela é parte do Brasil! E o Chaverim é a prova disso: judaico, brasileiro e universal, comunitário e acolhedor, identitário e aberto!

No fim das contas, o antissemitismo — assim como qualquer preconceito — não resiste ao encontro. E o Chaverim é encontro puro. Encontro como método. Encontro como superação!

Ali, cada chave abre um peito. Cada peito revela uma pérola. E cada pérola reacende nossa fé na humanidade.

Eu disse uma vez, e repito agora: hoje, sou um pouco o Chaverim.
E o Chaverim é um pouco da minha essência. É impossível passar por lá e sair o mesmo…

Muito obrigado, Chaverim…

Realmente… Pra iluminar o mundo, basta despertar uma alma…

Só uma…

De cada vez!

André Naves, vice presidente do Chaverim.

Almoço no Oásis

            SanFran, 20 anos depois… Ou seriam trinta?

            De repente o calendário parece que vai se confundindo… Sabe fumaça? Imagina ele sendo enterrado pelas areias de uma ampulheta…

            20? 30? Mais? Menos? Será que importa…

La Bohème
La bohème
On était jeunes
On était fous

            E de repente o tempo sai da ampulheta… Ele tá nas mesas…

Ontem a gente tava lado a lado, aprendendo como andar, saindo da casca do ovo! Éramos Esperança! Planos! Futuro! Hoje a gente continua se encontrando todo mês… Pensa em beduínos que se reencontram depois da duna…

Os planos? Cada um deles, igual as fumaças do meu velho Gitanes, tomaram rumos inesperados. Possibilidades inimaginadas que se realizam! Quando a gente tinha certezas, do alto de nossa ignorância arrogante, D´us dava risadas! Os caminhos Dele nos levarão a oásis nunca imaginados!

Sim! E eu gosto de pensar assim: nós somos beduínos! A gente sabe que o oásis não é acaso, é travessia. Duna depois de duna, passo após passo, a Esperança no coração e o trabalho na mão.

Esperança sem esforço é miragem. Trabalho sem Esperança é sede.

ESPERANÇAR!

Chega o pastel… Quem compartilha é irmão. E o legal é que a verdade é uma pedra preciosa… Se a gente joga na cara do outro, machuca… Não o irmão! Claro que ele também sente a dor da verdade, mas ele sempre estará lá. O legal dos irmãos é isso… Eles sempre brigam, mas nunca brigam!

— E o Gitanes do Stevie? Ele se achava o Sartre da turma…

— Pior que o Sartre fumava Galoise… Nem isso fazia certo!

— Não importava… Aquela fumaça era minha promessa! Minha possibilidade! Eu enxergava beleza e possibilidade naquela dança cinzenta subindo devagar, tomando rumos imprevisíveis até sumir no ar do mundo.

POSSIBILIDADES!

— Eu nunca fui fumante! Fui da fumaça! Gostava do perfume, do desenho, da coreografia quase sensual daquele corpo leve que se erguia e, antes de desaparecer, nos ensinava o mistério: nem tudo o que existe precisa ser tocado para ser real. Há coisas que não se veem. Se sentem.

— Fumaça é liberdade! Liberdade pro imprevisível. Pra pergunta. Pro Futuro. Eu ainda sou o Sartre da turma.

Hahaha.

— Viver é escolher. E escolher é assumir o peso e a beleza do que ainda não aconteceu. É aguentar o tranco!

— O Acorde de Tristão…

— Não me venha com Wagner! Antissemita! Oportunista! Materialista!

— Não, não, não! A música, não. A música é maior que o homem que a escreveu. O acorde de Tristão abre um portal e, ao mesmo tempo, recusa o fechamento. Ele fica suspenso, interminado, como se dissesse: “Você ainda não terminou de ser”. “Você pode!”

Pensa nisso… Será que isso não é o que somos nós.
Ser humano é não estar pronto. É poder ser tudo: sorriso, lágrimas, trabalho, preguiça, disciplina, displicência, arco-íris, trovão.

É carregar possibilidades… É a fumaça… Memória! Lá vai fumaça…

— Enxergar o futuro… Enxergar não é ver com os olhos. É perceber com a Alma… Com o coração! Com a ação da coragem! É ter humildade pra ver o que ainda pode florescer.

— Pra isso, só tendo uma certeza! D’us conosco! Não é slogan vazio! É com presença! Com trabalho! Com dever! Com disciplina! Se engana quem só vê texto na Torá! Ela é pensamento! É ato. É reflexão. É escolha.

É COMPROMISSO!

— Com o quê?

— Com a responsabilidade. Com a dignidade. Com a escuta. Com a Justiça!

Sem escuta não tem Justiça.

Sem Justiça não tem Dignidade.

Tira a Dignidade… Tudo vira máquina, engrenagem! A vida não foi feita para ser mecanismo. Foi feita para ser encontro.

— A vida é a arte do encontro…

— O piano do Vinícius tinha perfume de whisky… Ele tocava bebendo… A música dele é um brilho embriagado de beleza. O piano perfumado era parte da inspiração.

— Igualzinho a fumaça do meu Gitanes… Ou a mesa da minha avó, um café coado, todo mundo falando ao mesmo tempo… Uma baderna boa!

— Memória é perfume! É fumaça! Fumaça é isso: possibilidade! O subir. O ir. O não se deixar prender…

SILÊNCIO…

— Passou um anjo!

— Quem sabe a vida todinha não é isso? Caminhar pelo deserto, pagando boletos, sorrindo e sabendo que a próxima duna pode ser a última antes do oásis… Por Esperança! Por amor ao que ainda não veio!

— Então, beduínos no deserto?

— Beduínos do Afeto. Beduínos da Palavra. Beduínos que sabem que o Oásis sempre chega!

— Ao Pão!

— Ao Encontro!

— À Memória.

— À Esperança.

— Ao Trabalho!

— Oásis sem caminho é fantasia. Mas caminho com Esperança é destino em construção…

CONSTRUÇÃO!

André Naves.:

Aulas do Professor “Perder”!

Talvez tenha sido melhor ter perdido…

A palmatória não existe mais faz tempo mas todo mundo tem meio que um medo ancestral mesmo que ela habite o desconhecido…

Derrota: a tia palmatória!

A derrota é uma professora… Sabe aquela tia, que a gente sempre tem medo quando criança, mas que depois, olhando pra trás, a gente lembra com saudades? É ela!

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Fé!

            Oi Pessoal! Como vocês estão? Tudo bem?

            Aqui é a Ana Rosa. Hoje deixei o André descansando um pouco… Descansando? Talvez eu não esteja sendo clara. Estamos voltando de Jacareí, na Ayrton Senna. Céu bonito. Sol forte. Ele aqui do meu lado… Vocês sabem que ele não dirige? Adora falar que só anda de “UberAna”…

            Ele e eu… A estrada… O Sol… Essa é a felicidade! Ontem mesmo ele pegou um livro enorme do Flávio Josefo e ficou lendo. Adora estudar essas questões meio aleatórias e desconexas… Da novela vai pra Filosofia, do Mesa Redonda vai pra Religião…

            Mas deixa eu contar essa! Terminou a novela (na verdade, eu nem lembro qual… Fico mais dormindo que assistido!). Ele pegou o livro do Flávio e leu algumas coisas. Vocês conhecem Antígona, do Sófocles? De repente ele parou com o Flávio, deixou lá aberto, e correu pra Antígona.

            Passou uns minutinhos, eu tava no sofá, “mais pra lá do que pra cá”, e ele veio me acordar. Ele adora fazer isso! Tava no Jornal Nacional. Eles mostravam o sepultamento do Ran Gvili. Ele sentou, assistiu e começou a falar…

            Disse da Moral Absoluta que emana do Altíssimo, e falou também da necessidade universal do sepultamento. É que, segundo ele, todos somos parte de um único corpo social e, a partir dele desenvolvemos nossas individualidades.

            Ou seja, pro André, no sofá, depois da novela, a sociedade não é a junção dos indivíduos. É o contrário, os indivíduos são “pedacinhos” sociais especializados. Não sei se concordo… Nem sei se entendi direito…

            Na verdade, essa dúvida que vai me motivar a perseguir o entendimento. Vou meditar, pensar, refletir e acabar formando minha Fé. Mas não aquela que representa o descanso mental! Não, pelo contrário! A Fé que representa o esforço de ir, pedra por pedra, construindo meu templo.

            Fé é esforço, pessoal!

            É o esforço da Liberdade! Sabe, aquele comichão que faz a gente se mexer, buscar, trabalhar? Essa é a Fé!

            Fé não é aquela acomodação boba. Não é ficar deitado em berço esplêndido. Fé é Liberdade, é Disciplina!

            E agora a gente tá aqui na estrada… Sol… Johny Cash tocando… Essa é a Felicidade!

            Essa é a Fé!

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

Roda Viva

            “Shabat Shalom”!

Hora do descanso!

Desligo o computador. Vejo meu próprio rosto refletido na tela escura… É hora…

Vou feliz até a sala. Ligo o som. “Marcïa Baila”, dos “Les Rita Matsuoko”. Ana Rosa sorri e dança. O jantarzinho especial já perfuma o ar. Vamos acender as velas? A Luz dança…  Fé demais não cheira bem… Nem de menos… Ela tem sua medida… Não é um incêndio! É uma prática de constância.

Sentamos. Vamos pro sofá. Eu confesso, sem a menor culpa intelectual, que sou noveleiro. Ligo no Plin-Plin. “Coração Acelerado”. Acompanho os desencontros de Agrado Garcia e João Raul. Me divirto, torço, julgo.

Fico pensando no “Vale a Pena Ver de Novo”. Por que reprisamos histórias cujos finais já conhecemos? Talvez porque a vida exige a repetição para que a alma finalmente enxergue o que os olhos apenas viram.

Na primeira vez que tomamos conhecimento de qualquer coisa, nosso coração ainda é duro. É pedra bruta, gritando de imediato, sem nem pensar, quem é o vilão e quem é o herói. Somos juízes implacáveis das circunstâncias alheias. Mas o tempo… ah, o tempo é o grande alquimista.

Daqui a alguns anos, ao rever a mesma cena, o vilão de hoje poderá me parecer um herói debochado… Talvez uma alma ferida. O erro imperdoável da Odete Roitman talvez seja só uma gracinha fora de hora. A repetição tira nossa armadura, sabe aquela arrogância?

A Natureza também é sábia pra quem quer enxergar: o Sol nasce todo dia, as estações giram em círculos… Se engana quem pensa que seja falta de criatividade do Criador. É paciência com a criatura!

D’us repete a lição até que a aprendamos.

Às vezes, a gente se assusta com novidade… Sabe como é, né? No escuro, todos os gatos são pardos… Daí, a gente que não entende vai lá e reclama! A vida é assim… Parece uma prosa concreta. Pedra da realidade. Mundão áspero, injusto. Mas só depois, quando a gente cai em si, olha para trás no retrovisor dourado da memória, é que a gente se reconcilia.

É nessa hora que a festança começa!

É aí que a gente CONCORDA!

Vamos pensar, juntos, na palavra CONCORDAR?

É cum (com) + cordis (coração). Concordar é colocar os corações juntos. É alinhar o compasso do meu peito com o ritmo da existência. É ser harmonia na realidade.

Quando a nossa juventude é uma tempestade impetuosa, a gente só quer que a realidade concorde conosco. Depois que o mundo gira e o outono d´alma vem, aprendemos a concordar com a vida. Enxergamos Unidos. Fazemos uma sociedade com D’us, aceitando que Ele é o Roteirista e nós, atores que, aos poucos, compreendem a complexidade da trama.

O Tempo, dizem, gasta as coisas… Tem caboclo que até fala na traça do tempo… Na poeira da memória! Coisa de mané incauto! Eu prefiro dizer que o tempo amarela, doura! É o amarelo que transforma tudo em ouro! Tempo é o Midas que deu certo!

Ele vai lá e arredonda as quinas cortantes das nossas certezas. Ele derrete a cera dos nossos ouvidos e abranda a dureza do nosso coração, transformando a pedra da lei na carne da compaixão.

Aqui, vendo a novela abraçadinho com a Ana, posso afirmar: a repetição é polimento. A gente “revive” a mesma cena, “ressente” a mesma dor, “rerri” da mesma piada, até que um dia, num estalinho, a gente não apenas vê a circunstância…. A gente enxerga…

E concorda!

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
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A Locomotiva da Criatividade!

Sempre que a rotina me leva a descer as rampas da estação Santa Cecília, ali na Linha Vermelha, sou convidado a uma pausa involuntária. Antes de ser engolido na corrida subterrânea, meus olhos sempre descansam nos versos de Cassiano Ricardo estampados na parede.

É a poesia “Café Expresso”.

É ali que o poeta, joseense como eu, enxergou, com a sensibilidade da alma caipira, a essência sanguínea de São Paulo. Ele fala dessa injeção de ânimo, desse ouro negro que é a alma da nossa cidade e nos faz, dia após dia, trabalhadores corajosos e disciplinados.

Cassiano mostra como aqui, nesse território de concreto e garoa, construiu-se uma ética popular: a disciplina do trabalho e da diversão.

Nas mesmas rampas, a gente ainda pode ver “O Violeiro” de Almeida Júnior e “Operários” da Tarsila do Amaral. Homogeneidade de uma massa operária? Pelo contrário! É um milagre sociológico só possível na diversidade de São Paulo!

Já pensou em quem tá naquele corre? Quem passa por ali? O executivo da Avenida Paulista, a estudante da periferia, o migrante nordestino, o imigrante boliviano, o refugiado sírio, o judeu, o herdeiro de quatrocentões, o filho de operários…

Origens sociais, regionais, étnicas e raciais que, em qualquer outro lugar do mundo, significariam segregação, mas que aqui se unem num propósito comum: a disposição para o fazer.

Mas a gente não pode pensar só no trabalho! Claro que ele é importante! Mas o que faz desta cidade uma potência de Inovação não é o suor, é a mistura.

Adoro pensar na etimologia das palavras… É com ela que a gente enxerga a alma das letras. Sabia que tem uma raiz que une “Diversidade” e “Diversão”? As duas carregam essa ideia de “viração”, de mudar de direção, de encontrar novos caminhos.

A “viração” é aquele jeito tão brasileiro — e tão paulistano — de se adaptar, de sobreviver, de inventar saídas onde só parecia haver muros.

Essa é a verdadeira riqueza de São Paulo!

A Criatividade — tão valiosa para o empreendedorismo e para a inovação social — não nasce da uniformidade. Ela brota do atrito, do encontro, da multiplicidade. É na pluralidade de ideias, no choque entre a sabedoria caipira e a tecnologia de ponta, entre o rap da quebrada e a orquestra sinfônica, que a Inovação acontece.

Mas para criar, não basta ser diverso; é preciso também “di-verter”. É preciso o tempo da pausa, o tempo do café não como estimulante para produzir mais, mas como momento de reflexão.

É a diversão — o desvio da rota obrigatória — que permite à mente respirar e conectar pontos distantes. Sem esse “tempo de viração”, sem essa ludicidade, seríamos apenas engrenagens. Com ela, somos criadores.

Portanto, neste 25 de janeiro, gostaria de parabenizar São Paulo com a síntese das rampas de Santa Cecília!

Que continuemos sendo a terra da Disciplina e do Trabalho, sim, pois isso forjou nosso caráter pioneiro, pujante e resiliente. Mas que sejamos, acima de tudo, a Terra da Diversidade e da Diversão. Porque somente onde o trabalho encontra a pausa e onde o diferente encontra o semelhante, que floresce a verdadeira vocação desta cidade: a Criatividade.

Parabéns, São Paulo!

Que sua beleza continue sendo a capacidade de enxergar no caos a semente do novo!

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
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Andínia, 1815

Soprava aquele vento gelado dos Andes. Dentro do Salão dos Espelhos do Palácio Imperial, o mundo era outro. Centenas de velas em candelabros de cristal, pelo teto e móveis. Comendador olhou para aquilo e pensou no perigo ardente…

As chamas, lágrimas de luz caótica e dançante, multiplicavam-se nas paredes espelhadas, criando um universo novo, ideal, belo e sem fronteiras. O sussurro de sedas e brocados, toaletes e fardões, os brindes, taças, sorrisos e a orquestra: valsa animada, meio samba, meio salsa, majestosa, um convite à ordem e à harmonia.

“Gente que festeja, não irrita…”, pensou com seus botões o Comendador…

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Meu Faraó e Eu

            Dia quente aqui. Um calor abafado, um Sol ardido… Sábado de manhã. 08:00. Difícil caminhar… Vou descendo a Caraíbas… Parece até um deserto. Eu ia usar de um clichê super comum e falar em “deserto escaldante”, mas gato escaldado tem medo de água fria…

            Meu objetivo é claro e conhecido: quero dar uma olhadela no Palmeiras. A Ana Rosa sempre comigo, me dando as mãos para todo tropicão que dou… Sol forte… Atrapalha a vista… Atrapalha as ideias… De repente, trupico em mim mesmo…

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O Passeio

O Passeio

            Sexta-feira. Calor de dezembro. O Sol já buscava abrigo para deixar a Lua e as estrelas reinarem. Moyse pediu licença para seus amigos e começou a se aprontar. Era um passeio que tinha sido meticulosamente planejado.

Lembrou do que sua avó sempre falava: “Quando o Homem faz planos, D´us ri!”.

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Dalila e Sansão

            Sentado. Cadeira numerada. Lima. É… Dalila ficou lá… Eu aqui! O show do início ia terminando. A barba coçava. O cabelo incomodava.

Ele pensou na promessa…

Só mais um sacrificiozinho até o Fla ser Tetra! E Dalila, como será que tava? Como ela pôde cometer tanta traição? Jogar fora meu manto da sorte? A camisa com que o maestro Júnior regeu aquela vitória…

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Aos Olhos Meus…

            Dizem que em Portugal, o filme “Psicose” se chama “O Filho que era a Mãe”. Piada de mal gosto, tá na cara. Lá ele se chama “Psico”. Aliás, falando em Hitchcock, o “Festim Diabólico” é uma tradução brasileira muito mais carnavalesca que a portuguesa “Corda”… No original, o filme se chama “Rope”…

            Diriam os italianos, “traduttore, traditore”…

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A Insegurança Aprisiona a Pessoa com Deficiência

Para milhões de brasileiros, a liberdade é uma ilusão! Um sempre festejado Direito Humano que se esvai diante da realidade brutal da insegurança. Mas para um segmento da nossa sociedade – as pessoas com deficiência –, essa privação é ainda mais severa. Para elas, a verdadeira prisão é a do medo. É o pavor de sair de casa, de ser abordado, de ser vítima da violência!

Isso acaba que as condena a um cárcere domiciliar, privando-as de tratamentos essenciais, da convivência comunitária e, em última instância, da própria vida. Essa realidade não é apenas uma violência individual; é uma chaga purulenta de uma doença social mais profunda, que desnuda os alicerces corroídos da nossa Civilidade e da nossa Humanidade.

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É preciso Sonhar!

Minha vida é tipo um relógio. Sabe desses, de ponteiro, já precisando de corda? Devagar… Quase parando… Contam que lá em Konigsberg a turma acertava o relógio pela rotina do Kant. Se algum incauto quiser acertar os ponteiros de acordo com a minha rotina vai dar com os burros n´água, né?

Não que eu não goste dela. Pelo contrário! Aprecio muito a segurança, a previsibilidade e o conforto de um dia-a-dia certo. Eu até faço agenda. Marco tudo certinho nela. Faço planos. Mas é como dizem, né? Quando fazemos planos, D´us ri!

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Anjos! Anjos!

Dia desses eu tava no metrô. Linha verde. Indo pra Defensoria. Eu adoro andar de metrô: prefiro me deslocar nele que em carros. Vou vendo o povo. É ali, entre as pessoas, que a vida acontece de verdade. Sem filtros. Sem roteiros. Só gente sendo gente.

É lá que minha forma de enxergar a gente brasileira mudou. Já faz mais de 20 anos… Quase 30… Meu acidente tinha pouco mais de 1 ano. Estação da Sé lotada. 18:00. Lata de sardinha. Eu mal conseguia me mexer. De repente, uma mão desconhecida… “Vem comigo!” Ela me colocou sentadinho dentro do vagão e sumiu.

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O Mistério de Loew

Loew…

Mistério…

Lembram de quando eu contei dos domingos lá na vó Tereza? Aquele perfume de molho de tomate misturado com frango, junto com uma sinfonia de sons dispersos e misturados, que iam do tema da vitória do Senna, passando pelo lá-lá-lá do Sílvio, até a voz do Lombardi na Semana do Presidente?

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Meu Amigo Golem

Hoje acordei… Dia chuvoso, sabe? É o cinza que desperta o ouro das saudades… Uma lembrança, será que não seria fantástica? Nunca saberemos…

Eu, brincando no meu quartinho da bagunça, lá em Jacareí, encontrei um tipo de bilhete, numa linguagem que eu não entendia. Parecia carcomido pelas traças, cheio de poeira, teia de aranha. Acho que foi isso que me pegou.

É que eu tinha acabado de ver o filme do Simbad! Lá pelas tantas dele, tinha se encontrado com um alquimista, feiticeiro. Era minha brincadeira favorita: alquimista!

Sabe, me imaginar de túnica escura, chapéu pontudo, com tubos de ensaio cheios de líquidos coloridos e fumegantes, fazendo as mais diferentes experiências… Aquilo era quase doce de leite com paçoca!

Um pergaminho da antiguidade todo indecifrável! Embaixo das letras indecifráveis, um desenho: um gigante com cara de poucos amigos e um alquimista sábio – ele tinha roupão escuro de feiticeiro, mas o chapéu era diferente… Devia ser de uma outra ordem de magia…

Logo embaixo 3 palavras enigmáticas – GOLEM – PRAGA – LOEW. Talvez é a cura pr´uma doença, pensei… Será que a doença é Golem? E Lowel? O médico? O feiticeiro? O sábio? O que seria? Não pensei duas vezes… Tomei o tesouro na mão, e meio que em pose de quem vai lançar feitiço falei umas palavras aleatórias: ABRACADABRA!

 De repente, igualzinho rodamoinho de Saci, tudo começou a rodar, a ventar… E eu ali. Sem varinha, sem chapéu, sem nada… E a calma reinou. E quando tudo assentou era o gigante ali. Ele e o alquimista. Bravo. Ralhou comigo. Eu não entendia uma palavra, mas a reclamação não se perde na tradução… Queria voltar pro desenho, parece…

Sorri pro gigante. Ele nem se deu conta. Acho que é tímido, feito eu…

Mostrei meus brinquedos pr´eles. Pros dois. O sábio olhou tudo, examinou direitinho. Parecia estar buscando uma pista, uma saída, um amuleto. Um entendimento!  O gigante, nada. Parecia que nem era com ele. Daí olhei bem pros dois. Quem não tem palavra, tem olhar… E sorri.

Sentei. Meio desconfiado, o mágico sentou. Ele resmungou e o gigante também. Daí pedi pra ver aquele chapéu. Ele sorriu e deu um tapa na minha mão. Devia ser coisa séria. Pela primeira vez o gigante me notou.

Sabe o mais legal? Vocês não vão acreditar! A gente pegou uns brinquedos, uns bonequinhos GI Joe que eu tinha, e começou a brincar. Cada um do seu jeito. Eu, com minhas palavras. O sábio, com as dele. O gigante, sem nenhuma… Foi brincadeira pra mais de metro que a gente fez junto.

Depois, outra ventania… Acho que o saci também queria brincar, mas quando tudo se acalmou eles não tavam mais lá…

Só sei que, pra mim, ficou um amigo feito de silêncio e barro, um sábio curioso, e um quarto que, por um momento, virou passagem.

E “Loew”? O que será “Loew”? Nem sei pronunciar isso… Talvez, quem dá vida ao barro. Talvez quem acende o que estava apagado. Ou só um segredo que o chapéu guardou e que o gigante preferiu não contar.

O que será Loew? … 😉

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def

Danado

Imaginar sempre foi minha brincadeira preferida. Fechava os olhos e via mundos. Agora, abro os olhos e invento futuros. “Nem a pau, Juvenal!”, digo quando a saudade do retrovisor tenta contar história antiga. Hoje, não.

Hoje é IMAGINAÇÃO! FUTURO!

Acordo, água no rosto, tênis. Descendo a Caraíbas. Tranquilo e calmo. Que tempo é esse? Dois anos? dez? quinze? Camiseta, shorts… Igual minhas crônicas: sem terno, sem gravata, mas com aquele nó entre as linhas.

A vitrine da livraria me chama. Ali, meu livro. Não tenho nem roupa pra isso… Mas, do nada, tô. Estufo o peito, dou um sorriso, fico um pouco ali namorando as gostosuras literárias, o cheiro de papel que faz brotar o sorriso.

Quando a alma desacelera, vem o puxão. É a guia.

Lembro: nesse meu amanhã, tenho um cachorro. O Danado. Golden Retriever. Fanfarrão, cara de quem ri, noção zero. Desastrado, afobado, meio bobão. Abana o rabo e faz vento de alegria. Toda vez quebra os vasos da Ana Rosa — água, flor, caco, tudo pro alto. O tapete? Tiramos. E ele nem nota, porque, no fundo, não é levado: é só livre. E liberdade, quando passa, levanta confete de festa.

Teve um dia, na casa da minha mãe — reparou? até no meu futuro tem passado —, que ele viu um gramado pela primeira vez. Foi direto pra lama como quem encontra a própria infância. Depois entrou na sala de TV, a família na Dança dos Famosos. Começou a se chacoalhar. Sabe, jeito de cachorro mesmo?

A sala virou um quadro borrado… Um Miró desastrado… O sorvete do meu sobrinho ficou com cobertura de brigadeiro de barro. Alguém ficou bravo? Acho que não. Talvez eu tenha ralhado um tiquinho, da boca pra fora, só pra manter a pose. Mas, quando tem Amor, o Perdão vem de fábrica.

Eu e Ana Rosa limpamos tudo. Fomos pro quintal. Mangueira aberta. A água cantando, lavando a lama, lavando tudo… Levando qualquer chateação. Água purifica. A gente também. E ali, ensopados e rindo, a gente enxergou: errar junto, rir junto, recomeçar junto. Nem precisa falar! É presença que grita!

Os anos passam. Outra manhã na Caraíbas. Outro livro na vitrine. Roupa diferente. Ana Rosa do lado. E o Danado… ah, o Danado agora apronta nas nuvens. Juro que vejo o rabo dele abanando lá, um vaso de luz se espatifando num éter desconhecido, um latido de quem ri escondido npôr do Sol…

O céu guarda umas delicadezas.

Meu olho enche d’água, mas é de alegria… Meio nostálgica, mas alegre! Eu encaro o fundo d’alma da minha Rosa e encontro nossa casa inteira ali, parede por parede, infância por infância, promessa por promessa. Sorrio. No colo dela, o Caramelo cochila. Ciclos. Sempre a vida. Sempre a gente. Sempre JUNTOS.

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
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Solilóquio do Esperançar!

E não é que a flor desabrochou e trouxe Luz para onde antes as trevas pareciam dominar? Aquela flor, sublime, suave e muito frágil… Uma flor de Esperança! Com o klezmer, esse nosso lamento vira dança!

É a vida que insiste, é a Beleza sempre triunfa! Uma flor semeada por quem menos se esperava… Quem, em sã consciência, poderia imaginar? Eu, jamais! Mas rio, danço e celebro!

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