SanFran, 20 anos depois… Ou seriam trinta?
De repente o calendário parece que vai se confundindo… Sabe fumaça? Imagina ele sendo enterrado pelas areias de uma ampulheta…
20? 30? Mais? Menos? Será que importa…
La Bohème
La bohème
On était jeunes
On était fous
E de repente o tempo sai da ampulheta… Ele tá nas mesas…
Ontem a gente tava lado a lado, aprendendo como andar, saindo da casca do ovo! Éramos Esperança! Planos! Futuro! Hoje a gente continua se encontrando todo mês… Pensa em beduínos que se reencontram depois da duna…
Os planos? Cada um deles, igual as fumaças do meu velho Gitanes, tomaram rumos inesperados. Possibilidades inimaginadas que se realizam! Quando a gente tinha certezas, do alto de nossa ignorância arrogante, D´us dava risadas! Os caminhos Dele nos levarão a oásis nunca imaginados!
Sim! E eu gosto de pensar assim: nós somos beduínos! A gente sabe que o oásis não é acaso, é travessia. Duna depois de duna, passo após passo, a Esperança no coração e o trabalho na mão.
Esperança sem esforço é miragem. Trabalho sem Esperança é sede.
ESPERANÇAR!
Chega o pastel… Quem compartilha é irmão. E o legal é que a verdade é uma pedra preciosa… Se a gente joga na cara do outro, machuca… Não o irmão! Claro que ele também sente a dor da verdade, mas ele sempre estará lá. O legal dos irmãos é isso… Eles sempre brigam, mas nunca brigam!
— E o Gitanes do Stevie? Ele se achava o Sartre da turma…
— Pior que o Sartre fumava Galoise… Nem isso fazia certo!
— Não importava… Aquela fumaça era minha promessa! Minha possibilidade! Eu enxergava beleza e possibilidade naquela dança cinzenta subindo devagar, tomando rumos imprevisíveis até sumir no ar do mundo.
POSSIBILIDADES!
— Eu nunca fui fumante! Fui da fumaça! Gostava do perfume, do desenho, da coreografia quase sensual daquele corpo leve que se erguia e, antes de desaparecer, nos ensinava o mistério: nem tudo o que existe precisa ser tocado para ser real. Há coisas que não se veem. Se sentem.
— Fumaça é liberdade! Liberdade pro imprevisível. Pra pergunta. Pro Futuro. Eu ainda sou o Sartre da turma.
Hahaha.
— Viver é escolher. E escolher é assumir o peso e a beleza do que ainda não aconteceu. É aguentar o tranco!
— O Acorde de Tristão…
— Não me venha com Wagner! Antissemita! Oportunista! Materialista!
— Não, não, não! A música, não. A música é maior que o homem que a escreveu. O acorde de Tristão abre um portal e, ao mesmo tempo, recusa o fechamento. Ele fica suspenso, interminado, como se dissesse: “Você ainda não terminou de ser”. “Você pode!”
Pensa nisso… Será que isso não é o que somos nós.
Ser humano é não estar pronto. É poder ser tudo: sorriso, lágrimas, trabalho, preguiça, disciplina, displicência, arco-íris, trovão.
É carregar possibilidades… É a fumaça… Memória! Lá vai fumaça…
— Enxergar o futuro… Enxergar não é ver com os olhos. É perceber com a Alma… Com o coração! Com a ação da coragem! É ter humildade pra ver o que ainda pode florescer.
— Pra isso, só tendo uma certeza! D’us conosco! Não é slogan vazio! É com presença! Com trabalho! Com dever! Com disciplina! Se engana quem só vê texto na Torá! Ela é pensamento! É ato. É reflexão. É escolha.
É COMPROMISSO!
— Com o quê?
— Com a responsabilidade. Com a dignidade. Com a escuta. Com a Justiça!
Sem escuta não tem Justiça.
Sem Justiça não tem Dignidade.
Tira a Dignidade… Tudo vira máquina, engrenagem! A vida não foi feita para ser mecanismo. Foi feita para ser encontro.
— A vida é a arte do encontro…
— O piano do Vinícius tinha perfume de whisky… Ele tocava bebendo… A música dele é um brilho embriagado de beleza. O piano perfumado era parte da inspiração.
— Igualzinho a fumaça do meu Gitanes… Ou a mesa da minha avó, um café coado, todo mundo falando ao mesmo tempo… Uma baderna boa!
— Memória é perfume! É fumaça! Fumaça é isso: possibilidade! O subir. O ir. O não se deixar prender…
SILÊNCIO…
— Passou um anjo!
— Quem sabe a vida todinha não é isso? Caminhar pelo deserto, pagando boletos, sorrindo e sabendo que a próxima duna pode ser a última antes do oásis… Por Esperança! Por amor ao que ainda não veio!
— Então, beduínos no deserto?
— Beduínos do Afeto. Beduínos da Palavra. Beduínos que sabem que o Oásis sempre chega!
— Ao Pão!
— Ao Encontro!
— À Memória.
— À Esperança.
— Ao Trabalho!
— Oásis sem caminho é fantasia. Mas caminho com Esperança é destino em construção…
CONSTRUÇÃO!
André Naves.:



















