Agroindústria e Soberania Verde
Uma enorme oportunidade ronda o Brasil! Em meio à tensão geopolítica, à crise climática e à reorganização das cadeias globais de energia e alimentos, temos uma oportunidade rara: mostrar que produção e preservação não são inimigas, mas podem caminhar juntas quando ciência, campo e indústria trabalham em convergência.
Os bioinsumos, os biocombustíveis, a irrigação eficiente e a agroindustrialização são, mais do que nunca, um projeto de país. O Brasil já não é apenas uma potência agrícola; pode — e deve — ser também uma potência em soluções biológicas, energéticas e industriais de baixo carbono.
O Ministério da Agricultura e Pecuária define os bioinsumos como produtos de origem biológica voltados ao uso agrícola, pecuário, aquícola e florestal. A Lei nº 15.070/2024, sancionada em dezembro de 2024, criou um marco legal para a produção, importação, exportação, registro, comercialização, uso e fiscalização desses produtos.
É o reconhecimento de que a agricultura do futuro não dependerá apenas de moléculas sintéticas, mas de inteligência biológica aplicada ao chão da produção. E o Brasil já ocupa uma posição de liderança nesse processo.
Levantamentos de mercado divulgados pela CropLife Brasil indicaram crescimento de 13% no uso de bioinsumos na safra 2024/2025, com média anual de expansão de 22% nos três anos anteriores — ritmo muito acima da média global. Ao mesmo tempo, o próprio Ministério da Agricultura informou, no balanço de 2025, o registro de 162 novos bioinsumos.
Vale lembrar que a produção e o desenvolvimento de bioinsumos segue a lógica da eficiência. Ele permite reduzir dependência externa, ampliar resiliência produtiva, diminuir impactos ambientais e, em muitos casos, recuperar o solo em vez de exauri-lo. Em um país continental, tropical e biodiverso como o Brasil, isso é uma enorme vantagem competitiva.
Mas a força do agro brasileiro não está apenas no campo. Ela se expande quando o grão, a cana, a biomassa e a matéria-prima ganham transformação industrial. Aqui entra a agroindústria — e com ela, um conceito que o professor Marcos Fava Neves costuma tratar com precisão: a carnificação. Em termos simples, é a transformação de grãos e proteínas vegetais em proteína animal, especialmente carne, agregando valor, ampliando cadeias, gerando empregos e ativando conhecimento logístico, tecnológico e nutricional. Trata-se de um processo de intensa verticalização econômica.
Esse movimento é decisivo porque mostra que o agronegócio não termina na porteira. Ele se prolonga em frigoríficos, esmagadoras, fábricas de ração, usinas, plantas químicas, laboratórios, transportadoras, centros de distribuição e redes exportadoras.
Quanto mais o Brasil avança na industrialização de sua produção agropecuária, mais se fortalece uma economia de maior valor agregado, mais qualificada a ocupação e mais robusta a base tecnológica nacional.
Os números confirmam essa direção. Segundo a ANP, o Brasil produziu volumes recordes de biocombustíveis em 2023, com etanol e biodiesel somando quase 43 bilhões de litros. A EPE, em sua análise de conjuntura dos biocombustíveis referente ao ano-base 2024, registra novo avanço do setor, com destaque para a expansão do etanol de milho e para a consolidação do combustível renovável como pilar da matriz energética brasileira.
O país já é referência mundial em etanol de cana e continua consolidando o etanol de milho, o biodiesel e as bases para novos combustíveis de menor pegada de carbono.
Num cenário global de descarbonização e disputa por segurança energética, o Brasil pode oferecer ao mundo não apenas comida, mas também energia renovável de origem agrícola. Etanol, biodiesel, bioquerosene de aviação e outros combustíveis sustentáveis são parte de uma estratégia mais ampla: transformar biomassa em soberania energética.
Defender o biocombustível é o mesmo que defender uma transição energética possível, ancorada em ciência, sustentabilidade e complexidade produtiva.
A irrigação também integra essa equação. Em um país de contrastes hídricos, ampliar o uso de tecnologias de irrigação inteligente é uma política de produtividade e de justiça econômica. A água bem utilizada protege safras, estabiliza oferta, melhora previsibilidade e reduz vulnerabilidades climáticas.
Quando combinada com bioinsumos, genética adaptada e manejo de precisão, a irrigação ajuda a produzir mais com menos desperdício. É exatamente esse tipo de eficiência que deve orientar a agroindústria do século XXI.
É importantíssimo ter em mente que essa articulação entre campo, indústria e ciência, que fortalece o agronegócio, não beneficia apenas grandes exportadores. Ele irradia efeitos sobre toda a economia regional.
Municípios com forte base agroindustrial tendem a apresentar melhor dinamismo econômico, mais oportunidades formais e maior circulação de renda. Essa melhoria, inclusive, é mensurada também pelo IDH Municipal. É que desenvolvimento não se mede apenas por produção física; mede-se por saúde, educação e renda.
Onde há atividade econômica consistente, há mais chance de financiar escolas, hospitais, mobilidade, qualificação profissional e vida urbana mais digna.
No Brasil real, o agro e a agroindústria podem ser motores de inclusão social quando deixam de ser vistos como ilhas e passam a ser ecossistemas. Cooperativas, pequenas indústrias, assistência técnica, armazenamento, crédito e inovação podem reduzir desigualdades históricas entre campo e cidade.
O contrário também é verdadeiro: quando o setor é desorganizado ou tratado como inimigo ideológico, o resultado é mais importação de tecnologia, mais dependência externa e menos oportunidade para brasileiros que vivem da terra e em torno dela.
Por isso, o debate sério não é se o Brasil deve apoiar o agronegócio. O debate sério é como fazê-lo com mais ciência, mais valor agregado e mais compromisso social. Bioinsumos, biofertilizantes, irrigação eficiente e biocombustíveis são instrumentos concretos de uma economia mais soberana, mais limpa e mais Justa.
Se quisermos cuidar do meio ambiente, devemos produzir melhor. E produzir melhor, no caso brasileiro, significa fortalecer um agro capaz de gerar alimento, energia, indústria, emprego e inclusão.
O futuro sustentável do Brasil não nascerá da negação de sua vocação produtiva, mas da adaptação dessa vocação às necessidades do nosso tempo.
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
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