Os Limites da Tolerância

Os Limites da Tolerância

Muito se fala, especialmente durante nossas Lojas, mas pouco se esclarece acerca do que possa ser entendido por tolerância. Entre as virtudes maçônicas, talvez seja uma das mais enfatizadas, mais repetidas, mais invocadas. Vale lembrar do conceito maçônico de Virtude, vale dizer, a disposição para se fazer o bem, limitada pelo equilíbrio da justa medida, que evita o exagero viciante.

Tolerar, nesse sentido, é admitir modos de pensar, ser, agir e sentir que diferem entre as pessoas e que, justamente por diferirem, nos fazem indivíduos únicos e irrepetíveis. A tolerância, em sua essência, é um ato de respeito à Alteridade. Mas há uma enorme diferença entre tolerar e compactuar. O Grande Arquiteto do Universo é tolerante com o pecador, mas não com o pecado.

Karl Popper, em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), formulou o que se tornaria conhecido como o paradoxo da tolerância: “A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles.”

Popper, judeu, forçado ao exílio pelo nazismo, escrevia das cinzas da Europa arrasada. Sua advertência nasce da experiência histórica mais amarga do século XX. A Maçonaria, de seu lado, antecipou-se a Popper em formulação filosófica. O maçom é condicionado, na prática, a combater a tolerância absoluta, porque sabe que uma tolerância universal seria a tolerância do atroz.

Uma tolerância sem limites perpetuaria o martírio das vítimas em casos intoleráveis de violência e abuso. Existe um ponto em que a tolerância deixa de ser virtude e se transforma em vício. Tolerar o sofrimento alheio, a injustiça de que outros são vítimas, já não é tolerância: é cumplicidade travestida de virtude.

A questão fundamental, portanto, é: até onde tolerar?

As lições do Livro da Lei devem, assim, ser entendidas como um Oriente Moral. Sobre o Altar, junto ao Esquadro e ao Compasso, as Três Grandes Luzes da Maçonaria orientam o caminho. O Livro da Lei é o símbolo do princípio moral e ético que transcende as particularidades de cada credo.

Ele representa a Lei Moral na qual todos os homens de bem podem se reconhecer. É o horizonte ético que o maçom consulta quando precisa saber se aquilo que tolera ancora-se em valor essencial ou se flutua ao sabor do comodismo.

Ao lado do Livro da Lei, os Landmarks, que são os antigos limites que delimitam o que é Maçonaria do que não é, são os marcos fundamentais que preservam a identidade da Ordem através dos séculos. Ou seja, devem ser lidos, interpretados e vividos à luz do Livro da Lei, pois é ele que lhes confere significado moral.

Quando o maçom se depara diante de uma situação que demanda tolerância, deve perguntar-se: aquilo que me pedem que tolere viola algum landmark? Fere os princípios fundamentais da fraternidade, da liberdade de pensamento, da igualdade, da crença no Grande Arquiteto do Universo? Se a resposta for afirmativa, a tolerância deixa de ser virtude.

Tolerar a tirania, o fanatismo, a brutalidade e a ignorância não é ser maçom… É ser perjuro! Um maçom que tolera tudo não é um maçom virtuoso; é um maçom que perdeu sua bússola moral. A tolerância só vale dentro de certos limites, sob pena de se degenerar em vício.

O compromisso não é com a tolerância ilimitada, mas com a tolerância lúcida. Se o maçom enveredasse por uma tolerância absoluta e não defendesse a sociedade tolerante contra os atos dos intolerantes, os tolerantes seriam aniquilados, e com eles acabaria também a própria tolerância.

A tolerância, portanto, é virtude disciplinada. O Livro da Lei é seu referencial. Os landmarks são seus limites. Quando ambos convergem, o maçom encontra não apenas a medida da tolerância, mas a medida de si mesmo.


Fontes consultadas:

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