Bnei Anussim!

Bnei Anussim!

Saudades…

Saudades…

Saudades…

Pra última flor do Lácio, pro português quadradinho das gramáticas, saudade é um ente abstrato. Não existe o plural de saudade!

Que loucura isso! Não existe plural…

Justo as saudades! Quer coisa mais coletiva, mais ancestral, que isso? Nossas saudades…

Mas aqui é minha crônica! Linguagem do conforto, da fogueira, do café, do bolo de fubá…

Aqui as saudades são ancestrais. Vêm de antepassados e vão sendo construídas passo a passo, fagulha a fagulha… De geração em geração!

Acho que até fiquei um tiquinho confuso…

Claro que eu sou um indivíduo. Tenho minhas características únicas, cores e sons, luzes e trevas. Sou gente! Nada do que é humano me é estranho, dizem…

Mas foi o caminho de minha história que me trouxe até aqui.

Até aqui…

Eu sou fruto da união de algumas famílias. Quem não é, não é?

Os Naves, que vieram da Espanha. Aliás, bem pertinho de Oviedo ainda tem o vilarejo Naves. Interessante isso, né?

Porque os Naves… bem, eu não sei qual é o nome original, mas eram armadores. Originalmente, armadores. Construtores de caravelas. Desbravadores. Mas caíram nas tramas da inveja, da intriga! Massacrados! Aniquilados! Fogueiras da Inquisição. Fogueiras da destruição! Convertidos à força! Forçados… Expropriados… Degradados!

De descobridores a refugiados…

Essa fogueira começou numa tragédia, num massacre, mas terminou aqui, nessas reticências…

E tem o outro lado também… A outra turma! Meu outro eu! Os Logaldi Bartholomeu! Arberesh! Albaneses expulsos quando o Império Otomano dominou. Desembarcaram na Itália. Séculos se passaram… De repente, Brasil!

Do refúgio às reticências…

Minhas raízes! O italiano sempre foi o idioma de dominadores, de invasores! Nada como o doce som do Arberesch falado na Calábria!  Não tinha o sabor ancestral do raki… Era só um vinho importado, um modismo autoritário, sem tradição, sem vida, sem alma nem história!

Refugiados no Brasil!

Silva e Logaldi Bartholomeu. Brasil e Europa. Tudo se cruzou, se emaranhou, se amalgamou… Eis-me aqui! Das tragédias abrem-se as cortinas para o Futuro!

Promessa!

É uma enormidade de fatos e coincidências, desastres e delícias, de histórias que nos embalaram até essa letra! Esse “A”!

Já pensou se de repente um ancestral meu tivesse resolvido tomar outro caminho, outra escolha? E se ele tivesse morrido de morte matada? Ou de morte morrida? Ou se tivesse ganhado fortuna?

A história faz parte de quem eu sou. Faz parte dessas palavras que vocês estão lendo. De tudo o que falo, de tudo o que sei, de tudo o que sou…

Taí a beleza da vida! Esse é o milagre! O MILAGRE!

No fim, a gente é muito mais do que somente coletivo. A gente é histórico. É ancestral. A gente foi sendo construído, transmitido, aos poucos… Passo a passo… Tradição a tradição… De geração em geração!

Bnei Anussim… Filhos dos Forçados… Filhos da Força!

No fim, a gente é História, mas isso não é uma condenação. É uma promessa, uma possibilidade! Se somos frutos da nossa história, temos a possibilidade de quebrar ciclos. De começar do zero uma nova linhagem geracional. Mais limpa. Mais iluminada. Mais potente.

Um momento, uma tomada de decisão! Única! E, de repente, a gente tá com o timão da vida… Vontade, desejo e paixão! Crescer, caminhar, estar ao lado dos outros, perceber a comunidade. É isso que faz o que nós somos!

Responsabilidade…

É por isso que é melhor a gente não fugir das tragédias. Elas acontecem… Fazem parte desse mundo. E, acreditem, elas nos tornam pessoas melhores — comunidades melhores, pessoas históricas e coletivas, ancestrais e coletivas, melhores.

Pensa no paradoxo… Talvez a maior de todas as tragédias seja nunca ser purificado por uma tragédia. A ostra só produz pérolas quando incomodada pelo grão de areia…

Armadores ibéricos que construíam caravelas foram queimados nas fogueiras, enquanto os que restaram foram jogados no mar, para as Américas. Albaneses perseguidos por impérios atravessaram mares e montanhas e acabaram no Brasil. Nessas reticências…

A gente sente na pele o eco de fogueiras que nunca viu, mas que queimaram algo dentro de nós… Traumas históricos. Saudades ancestrais…

Mas olha… Eu acho que todos nós somos, de alguma forma, não importa se nossos ancestrais foram judeus ibéricos e albaneses, otomanos, africanos escravizados, indígenas massacrados, migrantes famintos… Todos nós somos filhos dos que foram forçados — pela história, pela tragédia, pela crueldade dos impérios e das inquisições de cada tempo.

E estamos aqui e agora, todos nós, portadores do mesmo tesouro, pescadores das mesmas pérolas, proprietários da mesma oportunidade: quebrar o ciclo. Começar de novo. Sob Aquela Luz que sempre continua brilhando. Silenciosa. Discreta.

Como a saudade que não tem plural no dicionário, mas que em nós se faz multidão, o todo é muito maior do que a soma das partes, juntos pelo amálgama do Amor.

Juntos por Amor!

Naves. Logaldi. Bartholomeu. Silva. Fogueiras. Caravelas. Oceanos. Pérolas. Brasil!

Tudo isso sou eu. Tudo isso somos nós.

Bnei Anussim.

Filhos dos Forçados…

Filhos da Força!

André Naves Defensor Público Federal. Escritor. Presidente do Chaverim (www.chaverim.org.br) www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def

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