Estamos à beira do abismo?
Diferentemente do terrorismo retórico que tem sido feito por setores menos informados da sociedade, inflamados por parcelas má intencionadas, o prognóstico econômico-social é muito bom.
É que o povo brasileiro se organizou e trabalhou com disciplina, a ponto de mudar os rumos da eleição. Não foi um algoritmo, não foi uma pesquisa, não foi um bilionário. Foi o povo! Foram 64,2 milhões de votos — 51,79% contra 48,21% —, construídos numa virada inédita de segundo turno, com as ruas tomadas de vermelho e uma disciplina de trabalho que fez renascer a Esperança em quem já tratava as trevas extrema-direita como ganhadoras.
Na segunda-feira, o mercado acordou com ressaca. O Ibovespa caiu 13,88%, fechando aos 176.608 pontos, com circuit breaker acionado logo na abertura. O dólar subiu 8,2%, a R$ 5,40, maior alta diária em 23 anos. O risco-Brasil disparou 19,15%. O Banco Central injetou US$ 3,75 bilhões no câmbio futuro e o Tesouro recomprou R$ 7 bilhões em títulos. Some-se a esse terrorismo irrefletido a enorme quantidade de casos de assédio eleitoral.
O mercado havia precificado a vitória do senador Flávio Bolsonaro. Investidores estrangeiros compraram US$ 7,4 bilhões em dólares contra o real num único dia — o maior movimento desde pelo menos 2013 —, elevando a posição líquida comprada em dólar a US$ 64,8 bilhões. Isso é especulação pura, ou seja, derivativo, alavancagem. Não se trata de investimento produtivo. De fábrica. De emprego. Não se pode chamar isso de investimento.
Mas o povo tinha outros planos. Planos de Esperança e Democracia. Planos para que os golpistas continuem punidos, e para que não haja mais impunidade. Planos para mostrar que o Brasil é um país de Instituições fortes e segurança jurídica. O TSE proclamou o resultado. O PL, partido do candidato derrotado, reconheceu-o em nota do seu presidente nacional. Ives Gandra da Silva Martins, jurista que declarou voto em Flávio, foi categórico: “Lula foi eleito pelo voto e Flávio errou ao se autodeclarar presidente”.
O mundo também entendeu assim. Cumprimentaram Lula, entre outros, presidentes de direita — Paraguai, Bolívia, Panamá, Chile, Peru —, o uruguaio Yamandu Orsi (“Viva a democracia, ganhou o povo do Brasil”), Cláudia Sheinbaum, Ursula von der Leyen, que em nome da União Europeia tratou o resultado como vitória da democracia brasileira e reafirmou a agenda de livre-comércio e clima.
Isso significa que enquanto o dólar futuro saltava, o investimento estrangeiro direto — aquele que compra fábrica, planta, data center, linha de transmissão — batia recorde: US$ 86,6 bilhões no acumulado de doze meses até agosto de 2026, alta de 9,2%, terceiro maior destino do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China. Em 2025 foram US$ 77,6 bilhões, contra US$ 63 bilhões em 2024, e a UNCTAD colocou o Brasil entre os cinco maiores receptores globais, num planeta que atraiu US$ 1,6 trilhão. Enquanto o dinheiro especulativo saiu gritando pela porta na segunda; o dinheiro produtivo já estava dentro e continua entrando.
Além disso, atualmente o mundo se reorganiza em torno de alguns pilares: proximidade, energia limpa, alimentos e paz.
Nearshoring: somos um vizinho próximo dos maiores mercados do Ocidente, com acordos abertos com todos os blocos. Greenshoring: 86,8% da nossa eletricidade e 49,4% da nossa matriz energética são renováveis, contra cerca de 30% da matriz elétrica mundial; a EPE projeta 88,8% em 2036. E 44% do valor dos novos projetos de investimento do planeta em 2025 já se concentram em transição energética, minerais críticos, semicondutores e inteligência artificial, contra 16% em 2020. Foodshoring: US$ 169,2 bilhões exportados pelo agronegócio em 2025, 48,5% de tudo o que o país vendeu ao exterior, e US$ 133,6 bilhões apenas entre janeiro e setembro de 2026, recorde para o período. Friendlyshoring: somos um país pacífico, que mantém boas relações com todo o mundo, além de possuirmos Instituições fortes e democráticas.
Mais do que isso. Possuímos solidez e dinamicidade social e econômica: desemprego de 5,4% no segundo trimestre de 2026, um dos menores patamares da série histórica; inflação de 4,58% em doze meses; crescimento de 1,9%. Um país que entrega emprego, alimento, energia limpa e instituições seguras não é um país beirando o abismo.
Em outras palavras, assim como o povo brasileiro se organizou e, disciplinadamente, venceu a extrema-direita, ele precisa continuar mobilizado para converter a maior manifestação popular de sua história recente em instituições mais sólidas e em desenvolvimento que alcance a mesa de todos.
A parte mais difícil nós já provamos conseguir: sustentamos a Democracia, as Instituições, o Direito e a Justiça.
André Naves é Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, mestre em Economia Política pela PUC/SP, doutor em Economia pela Princeton University e Comendador Cultural. www.andrenaves.com | @andrenaves.def
