Melado…

Melado…

Eu ainda me lembro… Acho… Memórias… Saudades e Sonhos…

Tem gosto, sabor! E ele muda!  Curte. Ganha corpo. É queijo minas, aquele bem fresco, delicado, insosso. Com o tempo amarela! Ganha cor, sabor! Firma o perfume, escurece a casca, ganha força e beleza!

É o tempo… Quanto mais caminha, mais a saudade apura. Mais melada…

Tempo… O ingrediente de Ouro! D´Ouro!

Já viu os jardins de Monet? A gente sabe da boniteza, mas não entende a razão… A gente sempre para na frente. Embasbaca. Olha. E de novo. Passo pra trás. Passo pra frente. E aquela forma vai mudando, vai brilhando, vai vivendo! É uma outra imagem… Mais deliciosa. Mais verdadeira.

Pensa na memória… Ela é assim. Desse jeitinho! Quanto mais a gente caminha no tempo, mais a saudade vai curando… Perfume de mel, de queijo e melado!

É aí que ela ganha… Fica mais nítida, mais precisa… Não nos fatos, mas no sentir.

Fecho os olhos… É minha avó! Cadeira de balanço… Como eu gostava de brincar! E ela lia. Lia para mim. A coleção do Mico Maneco. Eu adorava aquelas historinhas. Ele adorava melado. Melado no pão. Melado no queijo. Melado no queixo. Queijo e melado.

Eu não sabia… Eu só ouvia… Depois, comecei a escutar! É o tempo que abre o coração. O queijo minas ganha perfume com o tempo… Aquelas brincadeirinhas viraram valores! Princípios! Humanidade!

Virei gente ali… Ouvindo histórias de mico, melado e queijo! Melado escorrendo pelo queixo… Pinga valor! Era a minha avó! No tom de quem vive. De geração em geração. Da minha avó para mim. Dos ancestrais dela para ela. Uma corrente invisível, perfumada, colorida. Semente!

De semente para gente… De palavra para valor… A gente planta e confia.

Tinha uma lenda. Será que inventei? Sonhei? Vó? Foi você que eu escutei? Ela é minha agora. Então ela é nossa! É de quem quiser, de quem vier…

Era uma menininha. Lembra do jardim de Monet? Ela não tava lá… Ela andava perdida. Era um deserto. Chorava… Guerra. Miséria. Fome. Desesperança. Mundo cinza, fedorento, sujo…

E ela? Pequena. Insignificantemente pequena. Não era ninguém. Nada. O que ela podia fazer?

Ela plantava flores. Pintava o caminho. Escrevia poesia…

Colorir o caminho… Diminuir os efeitos nefastos de tudo. Não resolver a guerra… Plantar. Pintar. Perfumar. A moça plantava poesia… Era só o que podia, mas tudo o que precisava fazer.

E do deserto nasceram flores, nasceram cores! É o tempo… O mesmo do queijo, do queixo, da palavra e do valor! É o tempo que perfuma o bolor… Que faz da dor, o crescimento! A pérola nasce da ostra dolorida! O grão de areia irrita. A dor pressiona. Com o tempo, nasce a pérola.

A pérola da convivência. Do encontro. Do queijo que cura…

A pérola nasce do atrito. Do conflito. Do outro que chega. Do outro que incomoda… Que gera beleza. Era isso! A moça não tava só enfeitando o caminho… Ela tava convidando!

Cor, perfume, beleza… Convite… Desde quando flor cresce sozinha? Precisa de sol, de chuva, de insetos, de mãos. De encontros! De convivência!

É assim, desse jeitinho, sentindo isso, que a gente tenta entender o Altíssimo. Não é cabeça. Não é cálculo. É coração. É enxergar. Perceber com a alma e com o coração. Aquela Luz que não se vê, mas que se enxerga. Aquela Voz que não se ouve, mas que se escuta. A moça que plantava cores não sabia de teologia. Seu coração já era o caminho…

E a lenda termina com ela grávida! A menininha que plantava cores, perfumes e flores… Um dia estava grávida! Uma vida!

Ela esperava! Beleza! Esperança! Pérola!

Esperança! Não é só o esperar do ventre. É o esperar daquele que plantou, regou, confiou — e agora vê a semente virar flor, a flor virar fruto, o fruto virar vida.

O tempo curou as saudades e a dor e transformou tudo em pérola.

E, de repente, estou de volta com minha avó. Melado. Queijo. Queixo. Mico Maneco. No fim, tudo é plantio. Sem que ninguém desconfiasse… De geração em geração. Até aqui. Até além.

As memórias, as saudades e os sonhos são a mesma pintura. O mesmo jardim de Monet. Elas são o queijo minas que curou e perfumou.Queijo e melado. Dor e pérola. Memória e esperança.

Tudo isso sou eu. Tudo isso somos nós.

Até aqui… E além!

André Naves. Vice-Presidente do Chaverim (www.chaverim.org.br). Autor de “Caminho – a Beleza é Enxergar” e “Beethoven Enxergou o Luar”. www.andrenaves.com – @andrenaves.def

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