Prendeu, Matou: uma proposta irresponsável!

Prendeu, Matou: uma proposta irresponsável!

O atual debate presidencial brasileiro nos apresenta propostas das mais absurdas. Entre elas, desponta um discurso que se sintetiza numa expressão cruel e simplista: “prendeu, matou”. A ideia de que a segurança pública se resolve pelo encarceramento em massa e pela eliminação sumária de suspeitos, além de  jurídica e eticamente equivocada, é socialmente irresponsável.

Há pouco mais de meio século, em 13 de dezembro de 1968, o Brasil mergulhava na noite do AI-5. Na sala onde o ato foi assinado, um homem recusou-se a compactuar. Pedro Aleixo, civil, vice-presidente do marechal Costa e Silva, foi o único a votar contra. Perguntado se duvidava do presidente, respondeu: “Das mãos honradas do presidente Costa e Silva, jamais. Desconfio é do guarda da esquina.”

Pedro Aleixo sabia que quando o arbítrio e o autoritarismo se instalam no topo da cadeia, eles descem em cascata até o guarda da esquina. Não se deve temer só homem engravatado que espuma o discurso: deve-se temer aquele abuso legitimado por ele no asfalto, na favela, na esquina.

Um discurso de “prendeu, matou”, ainda que apresentado com todas as justificativas, estimula abusos de autoridade e estigmatiza populações historicamente marginalizadas. Refiro-me a pessoas negras, pessoas em situação de rua, moradoras de comunidades. Não é necessário ir longe para encontrar os exemplos. Eles estão aqui, diante de nós.

Em setembro de 2018, no Chapéu Mangueira, Rio de Janeiro, Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, garçom de 26 anos, caminhava com um guarda-chuva. Policiais da UPP confundiram o guarda-chuva com um fuzil. Três tiros. Um no peito. Rodrigo morreu.

Em janeiro de 2023, na Cidade de Deus, Dierson Gomes da Silva, catador de recicláveis de 50 anos, portador de deficiência intelectual, caminhava com um pedaço de madeira no quintal da própria casa. Policiais confundiram a madeira com um fuzil. Dierson morreu.

Em abril de 2019, na Estrada do Camboatá, Evaldo dos Santos Rosa, músico negro de 51 anos, levava a família para um chá de bebê. Soldados do Exército dispararam mais de 80 tiros contra o carro. Evaldo morreu. Luciano Macedo, catador de materiais recicláveis, também morreu. Oitenta tiros contra uma família que ia celebrar a chegada de uma nova vida.

Em setembro daquele mesmo ano, no Complexo do Alemão, Ágatha Félix, de 8 anos, voltava para casa na Kombi com a mãe quando foi atingida nas costas por um disparo durante operação policial. Ágatha morreu.

Em 2021, no Complexo do Lins, Kathlen Romeu, de 24 anos, grávida de 13 semanas, foi baleada durante operação policial. Kathlen morreu. Seu bebê morreu.

Em 2017, na Pavuna, Maria Eduarda, adolescente, estava no pátio da escola — um Ciep — quando uma bala perdida, fruto de troca de tiros entre policiais e traficantes, a atingiu. Maria Eduarda morreu.

Guarda-chuva confundido com fuzil. Pedaço de madeira confundido com fuzil. Carro de família confundido com criminosos. Kombi de escola presa em campo de batalha. Escola pública transformada em zona de guerra. Gravidez interrompida por bala de polícia. Não foram exceções. Foram consequências de uma lógica que transforma comunidades em teatros de operações e moradores em alvos potenciais — sempre os mesmos: negros, pobres, moradores de periferia.

Os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em julho de 2026, são ainda mais trágicos. Em 2025, a polícia matou 6.602 pessoas no Brasil — 18 por dia. É o maior patamar de letalidade policial em 14 anos. A letalidade policial já representa 16,2% de todas as mortes violentas intencionais do país. Oitenta e dois por cento dos mortos pela polícia são negros. A taxa de morte por intervenção policial é de 3,5 por 100 mil entre pessoas negras, contra 1,0 entre pessoas não negras. Não é acaso. É desenho estrutural.

No Rio de Janeiro, 26 crianças foram baleadas em 2024 — recorde. Quatro morreram. Nos primeiros 75 dias de 2025, 41 pessoas haviam sido vítimas de bala perdida no estado, alta de 58% em relação ao mesmo período do ano anterior. Criança baleada a caminho da escola é a própria guerra devorando a população historicamente excluída.

Aliás, há uma dimensão que o discurso “prendeu, matou”  cinicamente invisibiliza: a dos próprios policiais. Eles também são vítimas desse abjeto discurso. O Anuário registra que o suicídio segue como a principal causa de morte entre profissionais de segurança pública. Desde 2017, os casos de suicídio entre policiais cresceram cerca de 38%. Estudos acadêmicos apontam altas prevalências de depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático nessas categorias.

O policial enviado para a guerra urbana sem preparo emocional, sem apoio psicológico, sem estrutura institucional que o proteja, é também vítima de uma lógica que o descarta como instrumento descartável de violência. Quando a sociedade lhe entrega licença para matar, também lhe entrega o peso de carregar essas mortes. O policial que mata por ordem, por pânico ou por formação precária não sai ileso. Ele carrega sozinho o trauma da violência…

Quando a sociedade normaliza discursos tão cruéis e vazios, torna-se mais violenta como um todo. E as populações mais vulnerabilizadas pela própria estrutura social — pessoas idosas, mulheres, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua… — sofrem proporcionalmente mais com essa normalização. Um discurso de guerra não escolhe vítimas: endurece corações e brutaliza o cotidiano. Espalha-se como perfume venenoso.

A pesquisa do Instituto Sou da Paz, divulgada em maio de 2026, revelou que apenas 20% dos brasileiros concordam com a ideia de que “bandido bom é bandido morto”. Setenta e três por cento reconhecem que mais armas em circulação significam mais violência. A sociedade brasileira, em sua sabedoria, rejeita o atalho da violência. Quer polícia melhor preparada, aplicação correta das leis, tecnologia, inteligência.

Dignidade não se preserva através da guerra. Um discurso “prendeu, matou” é uma proposta extremamente irresponsável porque visa gerar um sentimento de violência e guerra por toda a sociedade. Troca a complexidade da segurança pública — que exige investigação, tecnologia, formação profissional, justiça e respeito à vida — pelo simplismo do tiro. Não protege a população. Não protege o policial. Não protege a Democracia. Protege apenas o discurso que se alimenta de medo e de mortes alheias.

Pedro Aleixo temeu o guarda da esquina porque compreendeu que os abusos descem em cascata. Hoje, precisamos temer não apenas o guarda da esquina, mas também o candidato que, do palanque, exalta licença para matar…

Irresponsabilidade não é segurança!

André Naves — Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Membro dos Grupos de Trabalho de Pessoas em Situação de Rua, Pessoas Idosas e Pessoas com Deficiência. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

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