Política com P Maiúsculo e a Ação Política da Maçonaria

Política com P Maiúsculo e a Ação Política da Maçonaria

A Maçonaria sempre despertou interesse justamente porque, ao mesmo tempo em que se apresenta como uma ordem voltada à elevação moral e intelectual do indivíduo, mantém uma relação extremamente delicada com o assunto da Política.

À primeira vista, isso pode parecer uma contradição: como uma instituição que reúne homens livres e de bons costumes poderia se manter distante da política, se a vida coletiva é inevitavelmente atravessada por decisões públicas? A resposta está em uma distinção fundamental.

Nas Lojas maçônicas, a discussão de política partidária é vedada, justamente para preservar a Harmonia entre Irmãos e impedir que disputas eleitorais ou ideológicas dividam um espaço que deve ser de fraternidade, reflexão e aperfeiçoamento moral.

Essa proibição decorre da própria natureza da política partidária. Partidos, candidaturas, programas de governo e disputas de poder operam, por definição, em um terreno marcado por antagonismos, alianças circunstanciais e exclusões. O universo partidário tende a separar, escolher lados e produzir vencedores e derrotados.

Em uma Loja, onde a convivência deve superar barreiras sociais, econômicas, confessionais e ideológicas, esse tipo de divisão seria corrosivo. A Maçonaria, por isso, não se organiza como arena de disputa política; ela se protege dessa lógica para que a Fraternidade não seja capturada por interesses contingentes.

Isso não significa, porém, que a Maçonaria seja apolítica no sentido amplo. Ao contrário: ela cultiva aquilo que se pode chamar de “Política com P maiúsculo”. Trata-se de uma concepção elevada da vida pública, voltada não ao embate partidário, mas ao bem comum, à melhoria da sociedade e à promoção da coletividade.

Nesse sentido, a política maçônica não é a arte de vencer adversários, mas a disposição de construir uma ordem social mais justa, mais livre e mais humana. É uma política orientada pela inclusão, pela responsabilidade cívica e pela consciência de que toda ação humana produz consequências sobre o outro e sobre a comunidade.

Por isso, não se confunde com a política partidária, que muitas vezes é regida por interesses eleitorais, cálculos de poder ou mesmo por dinâmicas econômicas que podem gerar exclusão.

Os temas que compõem o horizonte da Política são, em geral, aqueles que dizem respeito à formação moral do cidadão e à saúde da vida social.

A ética ocupa lugar central, porque sem ela a liberdade degrada-se em arbitrariedade e a autoridade em abuso. A moral, por sua vez, fornece o critério interior que orienta a conduta, lembrando que não basta obedecer à lei: é preciso agir com retidão. O patriotismo, na tradição maçônica, não é culto cego ao Estado ou às suas lideranças, mas compromisso com a Pátria como espaço de responsabilidade histórica, dever cívico e serviço ao bem comum. E os direitos humanos aparecem como expressão concreta dessa visão, sempre compreendidos à luz de responsabilidade, dever e consequências dos atos, e não como abstrações desligadas da vida real.

Entre esses direitos, destacam-se o direito à vida, a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade. O direito à vida é o fundamento de todos os demais, pois sem ele nenhum projeto humano pode florescer. A liberdade é condição da dignidade, mas deve ser exercida com responsabilidade, porque liberdade sem dever degenera em egoísmo. A igualdade, na perspectiva maçônica, não significa nivelamento artificial, mas igualdade de oportunidades, isto é, a possibilidade real de que cada indivíduo possa desenvolver suas capacidades sem sofrer obstáculos injustos. A segurança é necessária para que a vida social seja estável e para que o cidadão possa existir sem medo. E a propriedade, por fim, é reconhecida como expressão do trabalho e da autonomia pessoal, sempre vinculada à função ética que lhe cabe na vida coletiva.

Ao insistir na formação de homens melhores, a Maçonaria afirma, em última instância, que não há sociedade justa sem indivíduos moralmente comprometidos com o bem. O aperfeiçoamento da ordem social não nasce apenas de leis ou instituições; ele começa na consciência, na disciplina interior, na retidão do caráter e na disposição de servir.

Por isso, a obra maçônica é antes de tudo pedagógica: ela busca lapidar o homem para que ele possa agir melhor no mundo. E, nesse movimento, o aprimoramento individual se converte em aprimoramento coletivo.

Homens mais éticos constroem laços sociais mais sólidos; cidadãos mais responsáveis edificam instituições mais justas; irmãos mais fraternos ajudam a erguer uma sociedade mais digna. É nesse ponto que a Maçonaria encontra sua vocação política mais alta: a construção persistente de um mundo melhor.

André Naves, M.: I.: ARLS Sergio Bogomoltz, 7016 – GOSP

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