Vamos conversar? Eu quero falar e escutar…. Aprender! O café tá quentinho e o bolo de fubá acabou de sair… Deixa eu aproveitar e perguntar uma coisa: será que o Judaísmo é só uma religião?
Juro que pergunto com todo o carinho e respeito de quem tá aqui na mesma mesa que vocês: será? Mesmo?
É que eu já ouvi uma vez que a palavra “hebreu” vem de Ivrit… “aquele que vai além do rio”. Não sei se é verdade ou lenda, mas eu adoro acreditar que lendas são mais verdadeiras que as verdades… Eu sou um poeta dos símbolos, né?
Pensa comigo. Que boniteza! Além do rio… Não é chegar na outra margem. Não é desembarcar num ponto já marcado no mapa. Não é um lugar determinado. Não! Aquele que vai além do rio é aquele que Enxerga!
Percebe com a alma, com o coração!
Vai além do óbvio e vê aquilo que tá pra lá do visível. Lembram do Pequeno Príncipe? O essencial é invisível aos olhos… Judaísmo é Enxergar o Invisível!
Tinha um desenho antigamente. Não lembro em que canal passava… Será que era na Xuxa? No Sérgio Mallandro? Na Mara Maravilha? Era os ThunderCats. Lembram? Eles tinham uma “visão além do alcance”… Só eles viam! Coisas do Olho de Thundera!
Símbolos… Desenhos…
Guimarães Rosa também falava disso… Sertão… SER TÃO! Mergulhar dentro de si… A terceira margem do rio… Só quem vai além do rio consegue chegar na terceira margem!
E eu fico matutando: será que seu Rosa não foi, lá no fundo, um tanto inspirado por essa cultura, por essa tradição, por essa coragem para aprender a Enxergar? Vai saber… É desconfiança de poeta…
Mas se a gente escarafunchar um pouquinho mais, será que Minas não parece um tiquinho com Israel? Eu, pra ser bem sincero, acho que sim. Acho que até já falei aqui… Yiddishe mame… Mãe mineira! Todo mundo em volta da mesa, falando junto, brigando, se entendendo…
Generosidade! Fartura! Acolhimento! Tradição, de geração em geração… Festa!
Acho que é esse tempero, esse sabor, do Judaísmo que mais me alumbra: não é só religião. É cultura! É tradição! Tem sabor! Tem música! Tem poesia! A gente tá encarando de algo muito mais bonito, mais musical, mais materno.
É uma mãe que abraça quem tem a coragem de buscar entender, compreender, Enxergar… No fim, para mim a Torá não é só texto. É pensamento. É ato. É reflexão. É escolha.
Pensa numa coisa mais fascinante! Mendelssohn compôs uma sinfonia “Mar calmo, Viagem próspera”. Um pouquinho de humor judaico. Mar calmo não faz viagem próspera! Pelo contrário!
Ou seja, a gente precisa das dificuldades, dos obstáculos. Você já agradeceu a D´us por eles hoje? Já pediu Coragem e Sabedoria para poder superá-los? Para produzir uma pérola a partir deles?
No fim, o que importa é a coragem, a chutzpah… O milho que não passa pelo fogo nunca chega a pipoca. O barro que não passa pelo forno nunca chega a porcelana. O ouro só é depurado pelo fogo.
Judaísmo é esse lirismo de enxergar a beleza na dificuldade. De saber que a pérola só surge a partir do incômodo — daquele grão de areia que penetra no âmago da ostra e, com o tempo, vira brilho.
É saber que tentarão nos matar… Não conseguirão! Então a gente vai comer! We will dance again!
Judaísmo é religiosidade? Sim. Cultura? Também! Tradição? Mais ainda! Mas, acima de tudo, é a chutzpah — a coragem — de enxergar a Beleza na Vida!
Então um Ano Bom e Doce é mais do que um voto de felicidade. É um chamado: que a gente tenha a visão além do alcance. Que a gente vá além do rio. Que a gente enxergue beleza até onde ela parece impossível.
Shaná Tová uMetuká! Um ano bom e doce para todos nós.
André Naves Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def
