Dia: 1 de setembro de 2026

Do Coma à Causa

Sabe?

A vida capota, né mesmo? A mãe do Forrest Gump falava que era uma caixa de chocolates… Eu adoro essa visão cheia de sabor! Tudo parece que sempre volta, mas diferente… Diferente… Mas volta… Ah… Volta!

E se ela for um caleidoscópio, cheio de cores, mas totalmente imprevisível? A gente nunca sabe o que vem pela frente! Chocolates, caleidoscópio, carrossel… Não sei… Parece tudo isso junto. Tudo junto e misturado!

Mas tem um detalhe que é mais importante! Ela também é ciranda: todo mundo, de mãos dadas, girando, cantando… Lá a gente mesmo canta… O que a gente quiser!

Mas… tem horas em que a vida parece que perde o alumbramento! Tudo parece tédio! Escuridão! Prisão! Uma masmorra modorrenta, soturna, mofada… Cadê o tempo? Tudo perde o sentido…

Quero te contar… Eu já tive lá. Fui aprisionado nas profundezas de um coma! E foi exatamente lá que eu comecei a escutar o que o barulho do dia a dia nos esconde. ESCUTAR! ENXERGAR!

Sabe um rio barrento? Um barranco todo enlameado? Chuva… Cinza… Esperança? Desesperança? Nesses momentos, eu ouvia… Sussurros. Um idioma novo! Carinhoso! Curativo! Era eu! Identidade! Existir… Resistir!

Beep! Beep! Beep!

Os sons ritmados e constantes dos monitores hospitalares tornaram-se o relógio da minha sobrevivência. Tatuaram-se em brasa na minha personalidade. Cicatrizes sonoras que ainda ecoam na minha mente.

UTI… Eu lutava numa encruzilhada definitiva. Ou soltar as amarras e me deixar levar pelo repouso e pela calma, ou continuar lutando.

CONTINUAR LUTANDO!

E não é que tudo começou a clarear? Bem aos poucos… Dia após dia… E os dias viraram semanas… E depois… Por una Cabeza, o entendimento veio!

Por uma Cabeza…

Eu sabia que podia… Mas escolhi! Escolhi o serviço. Escolhi a Humanidade. Porque a Vida é Trabalho. Vida é Serviço. Vida é Liberdade.

A vida tinha parado naquela quinta-feira de Carnaval. O desgoverno de um caminhão arremessou o nosso carro numa ribanceira. Asfalto que rasgou a minha juventude. Que levou dois dos meus melhores amigos… Um para o túmulo, o outro para a inconsciência…

Minha primeira lembrança? Dia 22 de abril — o aniversário do nosso Brasil. Dia do Descobrimento! Uma festa do povo! Do Brasil! Renasci, paralisado, reaprendendo a respirar, a comer, a viver! Reaprender a EXISTIR!

Por uma Cabeza…

Um tempão depois, ainda em frangalhos e meio que me arrastando, trupicando, centro caótico de São Paulo, eu era a presa perfeita. Na lógica do Datena, eu deveria ter sido engolido pela violência ou, na melhor das hipóteses, passado batido pela indiferença da multidão.

É aí que a vida parece mesmo uma caixa de chocolates! Um caleidoscópio, colorido e imprevisível!

Invés do abuso, da violência, da bandidagem, só achei a alma decente, honesta e trabalhadora do povo brasileiro. Todos os dias tinham mãos estendidas de pessoas anônimas que, mesmo lutando suas próprias batalhas diárias para sobreviver, pararam para me dar um ombro amigo! Nunca pediram absolutamente nada!

Só compartilharam a sua Humanidade. A nossa Humanidade!

HUMANIDADE!

E não é que o trauma é um professor? Severo e implacável. Sabe o que ele me ensinou? Uma lição surpreendente, mas completamente óbvia: toda superação é coletiva. Nesse mundo ninguém se salva sozinho!

Claro que o esforço individual é importantíssimo, fundamental, mas ele depende de tanta gente, de tanta coisa…

Foi essa caminhada que me fez… Eu parei de “ver” o mundo com os olhos e passei a “enxergar” com a alma.

ENXERGAR!

No fim, minha sobrevivência deu luz a uma dívida impagável de gratidão. Nada de uma dívida chata, dessas que a gente se sacrifica pra pagar. Pelo contrário! É um prazer enorme! Quando a gente fala “muito obrigado” tá reconhecendo uma obrigação de trabalhar, de construir, um mundo estruturalmente mais inclusivo, digno e justo!

Eu escolhi dizer “Muito obrigado” para o Povo brasileiro!

Para o Povo!

Para todos… Juntos…

Iachad!

André Naves