Dia: 20 de julho de 2026

Não se troca de Paixão…

           De fato… Não se troca.

            Tem um filme argentino que fala bem disso… “O Segredo de Seus Olhos”… Não se troca de paixão… Troca-se de tudo nessa vida… Tudo mesmo! Mas a paixão, essa não!

A minha paixão é o Brasil. Totalmente Brasil. A gente, a música, a vida, a alegria e o drama… Sabe do que mais gosto? De saber que o povo brasileiro, tão desrespeitado, tão maltratado, é tão trabalhador, honesto e digno. Coisa de quem não desiste nunca!

Mas, sinceramente? Eu preciso confessar uma coisinha… Sinto uma relação de amor e admiração — e uma certa inveja também, sim, pra que esconder? — pela nossa hermana Argentina.

A verdade é que essa admiração sempre existiu. Mas ela subiu de patamar há uns anos atrás… Acho que eu já contei isso, mas as memórias vêm e vão em ciclos, então nem me avexo de contar de novo…

Lembram que eu tinha saído do coma? Era a primeira consulta consciente com o neurologista. Ele olhou os exames, olhou para mim, e disse que eu só tinha sobrevivido porque a lesão no meu cérebro tinha sido, nas palavras dele, “uma cabeça de alfinete pro lado”.

Uma cabeça de alfinete…

Se tivesse sido um milímetro para o outro lado, não tava aqui escrevendo para vocês.

            Penso nisso sempre… “Por una Cabeza”! Um bandoneón e o lirismo de Gardel! Por una cabeza… Tudo é tango! Carlos Gardel. Astor Piazzolla. Polaco Goyeneche… Tango denso… “Balada para um loco”… Penso na noite de São Paulo. Penso na Ronda do Vanzolini… No fim, Hermanos!

Eu já era fã! Verdade seja dita: eu gostava do Dulce de leche! Depois daquela consulta então? Era o espírito argentino na minha alma. Saber sufrir e volver a vivir! Piazzolla escreveu minha ópera favorita: María de Buenos Aires — uma operita surreal embalada pelo bandoneón que chora e ri… Uma história tão paulistana… Hermana!

E tantas coisas da Argentina me atraem! Confesso que doce de leite, sempre (apesar de eu ainda preferir o mineiro… 😉). Mas também a literatura, o teatro, o cinema… Cultura! O argentino tem emoção com a palavra. Mastigam sílabas! Degustam adjetivos. Parrillas de letras e emoções! E o cinema, então? Falam do cotidiano caleidoscópico sem perder a ternura, jamás!

Mas no futebol… Ah, no futebol a coisa é outra. Lá é Brasil. Sempre foi Brasil. Não se troca de paixão! Nessa Copa, a Argentina não ganhou… Mas mesmo sem ganhar, eles ensinaram uma coisa pra todos nós: que até o último minuto a gente tem de optar por lutar. Com raça. Com força. Enquanto tem bambu, tem flecha!

O interessante é isso mesmo! Aprender com o melhor de uns e outros. Vou contar uma historinha… Vocês sabem que na Divina Comédia de Dante Alighieri, Dante é guiado por Virgílio nos círculos do inferno e do purgatório. Acontece que não basta a razão, a filosofia de Virgílio para chegar até o círculo mais alto, o círculo do Paraíso…

É aí que sua amada Beatriz vai de guia. É tão lindo isso! Que símbolo! Só o amor nos guia ao Paraíso! A gente só aprende pelo amor… Pelo sentimento! Em conjunto! Irmanados!

Vou dar um exemplo: quando a gente quer agradecer alguém, a gente fala “muito obrigado”. E “muito obrigado” significa que nós estamos doando o melhor de nós mesmos. Nós estamos assumindo uma obrigação para transformar o mundo num lugar melhor para todos nós. Nós não só agradecemos, nós nos comprometemos a construir algo.

Isso, de certa forma, é Amor! É possibilidade de chegarmos todos ao Paraíso! À Terra Prometida! A gente só continua porque acredita…

Eu adoro um conto do Kafka em que ele fala de um cavalheiro que monta no cavalo e vai galopando de uma vila até a outra. Ele começa a olhar para os lados e vai vendo a vida dele passando ao lado dele. Tudo! Sua aventuras, dramas, desventuras, batalhas, amores!

No fim a vida é isso! Tão vasta, tão rápida, tão tango! Sobram memórias… As saudades que nos motivam, que nos dão propósito… As memórias nos preparam para o futuro… Para a Terra Prometida!

Vamos?

Iachad!

André Naves Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, Mestre em Economia Política, Comendador Cultural e autor dos livros “Caminho: A beleza é enxergar” e “Beethoven enxergou o Luar”. Presidente do “Chaverim” — www.chaverim.org.br

www.andrenaves.com — @andrenaves.def