No início dos anos 2000, um grave acidente de carro me atirou em uma ribanceira, mergulhando-me em um longo coma. O processo de recuperação, feito de terapias e tratamentos, estende-se até hoje. Desse leito de hospital, porém, extraí a maior de todas as lições: a superação nunca é um ato solitário. Percebi, na própria pele, que qualquer construção humana só ganha contornos reais no coletivo.
Essa constatação íntima reflete a essência do nosso projeto civilizatório: a Democracia. Após os anos sombrios da ditadura, o Brasil engajou-se em um esforço imenso de concertação social. O cartunista Henfil capturou isso genialmente ao desenhar pessoas de todas as cores, idades e formas repigmentando juntas a nossa bandeira. Instituímos ali o Estado Democrático de Direito.
É preciso lembrar sempre: democracia não é a ditadura da maioria, mas a vontade da maioria que respeita a Dignidade dos grupos minorizados, visando a concretização e o aprofundamento dos Direitos Humanos.
Direitos Humanos, diferentemente do propalado pelo senso comum, não constituem o mínimo para sobreviver. Como cantaram os Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Eles representam a vida em plenitude, a liberdade com responsabilidade, a simetria de oportunidades e a segurança (alimentar, sanitária, educacional…) necessária à autonomia individual e coletiva.
Para que esses deveres e direitos saiam do papel é preciso mobilização social, construção coletiva de políticas públicas. O Brasil deu um passo histórico ao internalizar como parte integrante da Constituição Democrática, a Convenção de Nova York sobre a Inclusão. No mesmo sentido, criou a Lei Brasileira de Inclusão.
O paradigma mudou. A pessoa com deficiência não é aquela que “tem” uma falha, mas a que esbarra diariamente nas barreiras de uma sociedade excludente. Todos nós possuímos características ímpares. A deficiência só nasce quando essas individualidades colidem com um ambiente hostil. E a pior dessas barreiras não é o degrau sem rampa, mas o preconceito atitudinal que invisibiliza o outro.
A literatura e a cultura pop ilustram isso com clareza. Em O Corcunda de Notre Dame, a exclusão mais cruel não recaía sobre Quasímodo, mas sobre Esmeralda, marginalizada por ser cigana. Em A Bela e a Fera, Bela era rechaçada por querer ler e ser protagonista, recusando o papel de coadjuvante bela, recatada e do lar. A princesa Fiona, de Shrek, precisou assumir a forma de ogra no pântano para encontrar a liberdade de ser a guerreira que desejava.
Até o elefante Dumbo só consegue voar quando é acolhido pelos corvos — que, na obra original, representavam a população negra do sul dos EUA, outro grupo historicamente excluído. Dumbo voa porque encontra apoio naqueles que também conheciam a dor da exclusão. Ele supera a barreira através da coletividade.
No extremo oposto está Narciso, retratado com maestria por Caravaggio. Na pintura, as sombras engolem o entorno, e apenas o reflexo do jovem na água é iluminado. Narciso não vê se está à beira de um abismo; ele só enxerga a si mesmo. Ao transformar sua individualidade em individualismo e recusar-se a dar as mãos ao coletivo, ele encontra apenas a solidão e a morte.
Vivemos uma era de revolução tecnológica sem precedentes. Como alertou Carlos Drummond de Andrade em O Homem e as Viagens, o ser humano vai à Lua, domina a engenharia, mas ainda tem imensa dificuldade de conviver com o seu irmão. Passamos séculos tentando nos robotizar; a urgência de hoje é nos humanizarmos.
Precisamos, como dizia o cronista Rubem Alves, de cursos de “escutatória”. Enxergar e escutar o outro não são atos físicos, são atos da alma. Exigem a “visão além do alcance” dos Thundercats. Enxergar: ver com a alma, com o coração, com a sensibilidade.
Gosto de acreditar na lenda de que Beethoven, já mergulhado na surdez e conhecido por seu temperamento casmurro, tinha uma terna amizade com uma jovem vizinha cega. Quando ela pediu que ele compusesse algo para que pudesse “enxergar o luar”, ele escreveu a Sonata ao Luar com os olhos do coração. E foi sonhando com as musas, naquela noite, que ele encontrou a inspiração para a Nona Sinfonia — o hino definitivo da humanidade unida, de mãos dadas.
A verdadeira inovação e a prosperidade sustentável nascem da diversidade. Eliminar barreiras não é um ato de caridade, é uma construção civilizatória de sobrevivência democrática.
O sábio Hillel já questionava na antiguidade: “Se eu não for por mim, quem o será? Mas se eu for só por mim, o que serei eu? E se não agora, quando?”. A construção de um Brasil inclusivo e justo é responsabilidade de todos nós. O momento de estender a mão e voar juntos é agora.
André Naves é Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, Mestre em Economia Política, Comendador Cultural e autor dos livros “Caminho: A beleza é enxergar” e “Beethoven enxergou o Luar”. www.andrenaves.com @andrenaves.def
