Dia: 15 de junho de 2026

Brasil 1 X Marrocos 1 — Sobram Estrelas, mas Falta-nos o Time

Trina o árbitro! Final da partida… Brasil 1, Marrocos 1. Empate amargo. O Brasil merecia mais. Os brasileiros queriam mais. A verdade é que duvido que exista hoje, no cenário global, uma seleção mais estrelada do que a nossa. Temos talentos brilhantes, nomes de destaque, que faturam cifras astronômicas nos maiores clubes do mundo, dotados de habilidades individuais inquestionáveis.

A verdade, entretanto, é que enquanto sobram estrelas, ainda não temos um time. Falta-nos o comprometimento moral que transforma um aglomerado de talentos em um escrete verdadeiro, uma esquadra coletiva.

Aprendi desde cedo com o meu pai a paixão pelos esportes, especialmente o futebol. Dentre todos, parece-me ser ele o jogo que mais se parece com a vida. E, hoje, o que assistimos nos gramados é o sintoma de uma doença que vem adoecendo o nosso tecido social.

Na nossa jornada cotidiana, assim como na cancha, temos múltiplas potencialidades. Todo ser humano carrega consigo pontos fortes, mas também, inevitavelmente, as suas vulnerabilidades. O grande drama contemporâneo é que fomos condicionados a esconder nossas limitações e a idolatrar a performance solitária, esquecendo-nos de uma premissa ética fundamental: ninguém vence sozinho. Onde sou fraco, a fortaleza do outro me complementa — e vice-versa.

No fundo, vivemos uma confusão conceitual entre individualidade e individualismo. A individualidade é a nossa essência, a nossa pluralidade irrepetível; é o que nos faz únicos e nos confere dignidade — aquilo que Hannah Arendt chamaria de unicidade, a condição de cada ser humano ser absolutamente insubstituível na trama do mundo.

O individualismo, por outro lado, é a degeneração dessa essência. É a crença ilusória e narcísica de que bastamos a nós mesmos, uma lógica excludente que nos lança em uma competição desenfreada e nos cega para a riqueza do outro. Emmanuel Levinas nos lembrava que é no rosto do outro — na sua alteridade radical — que nos tornamos verdadeiramente humanos. Sempre que o individualismo impera, essa humanidade é aniquilada: somos reduzidos a meros competidores em uma arena onde o outro é visto como obstáculo, e não como ponte.

Voltando ao nosso escrete, o que vemos? Vemos talentos individuais atuando de forma egoísta. Buscam seus próprios objetivos, o brilho solitário do gol ou do drible de efeito, esquecendo-se de um propósito superior. Eles não sabem passar a bola. Não sabem construir uma jogada coletiva, porque a lógica do “salvador da pátria” contaminou a forma de jogar da seleção canarinho.

As falhas da Seleção Brasileira são exatamente as nossas falhas enquanto sociedade. Nós também precisamos aprender a jogar juntos. O individualismo que cega o jogador rumo ao gol é a mesma miopia estrutural que, na vida cívica, permite que naturalizemos a miséria, o capacitismo e a exclusão sistemática de milhões de brasileiros, enquanto aguardamos uma espécie de messias pronto para solucionar nossa vida.

O Brasil tem o segundo maior índice de desigualdade de renda da América Latina, com coeficiente de Gini de 0,518 (IBGE, 2023) — um número que não é estatística fria, mas o retrato de uma sociedade que ainda não aprendeu a passar a bola.

Uma sociedade verdadeiramente inclusiva é um imperativo civilizatório, moral e jurídico que favorece a todos. A nossa preocupação diária deve ser desenvolver o outro, porque é na alteridade que nos realizamos. A economia, a política e as instituições só progridem de forma sustentável quando operam em comum, com um cuidando do outro e nutrindo suas potencialidades. O verdadeiro desenvolvimento exige que as estruturas de poder sejam redesenhadas para acolher a pluralidade humana, garantindo que a interdependência seja celebrada.

Precisamos estar unidos para superar nossos abismos históricos e, de uma vez por todas, tirar os nossos direitos do papel. A Constituição Cidadã não pode ser apenas um troféu retórico na estante da República — ela precisa entrar em campo. Transformar o texto legal em uma realidade palpável para todos — especialmente para as pessoas com deficiência, os mais vulneráveis e os historicamente invisibilizados — exige que abandonemos a arquibancada da omissão e entremos nos gramados da ação.

A vitória não será erguida por talentos isolados, mas por uma coletividade que compreende que a beleza da vida está em enxergar o outro. Só assim aprenderemos a ser um time — não apenas para trazer uma taça para o Brasil, mas para erguer um país onde a dignidade humana seja, finalmente, a nossa maior conquista.


André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Membro do Grupo de Trabalho – Pessoa Idosa e Pessoa com Deficiência.
www.andrenaves.com | @andrenaves.def