O V.I.T.R.I.O.L. e a Escada de Jacó: O Sacrifício do Ego como Fundamento dos Direitos Humanos

O V.I.T.R.I.O.L. e a Escada de Jacó: O Sacrifício do Ego como Fundamento dos Direitos Humanos

I. A Câmara de Reflexões e o Convite do V.I.T.R.I.O.L.

Todo maçom iniciado segundo os ditames do Rito Escocês Antigo e Aceito recorda-se vividamente de seus primeiros momentos, quando, ainda no mundo profano, foi conduzido a um lugar austero e despojado de vaidades: a Câmara de Reflexões.

Ali, na presença do crânio, que nos lembra da transitoriedade da vida; do pão e da água, que simbolizam a simplicidade do necessário; e do sal e do enxofre, ecos da tradição alquímica, somos confrontados com a inscrição que define o início da verdadeira senda iniciática: V.I.T.R.I.O.L.

Este acrônimo, do latim “Visita Interiora Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem” — “Visita o Interior da Terra e, Retificando, Encontrarás a Pedra Oculta” —, é muito mais do que uma fórmula alquímica para a transmutação de metais. É o primeiro e mais fundamental mandamento da jornada maçônica.

  • Visita o Interior da Terra: Este é um chamado à introspecção radical. A “terra” é o nosso próprio ser, nosso corpo, nosso inconsciente, nosso repositório de medos, paixões descontroladas, preconceitos e traumas. A descida não é opcional, nem agradável. É um mergulho corajoso na escuridão de nossa própria alma, um confronto direto com o que a psicologia moderna chamaria de “sombra”. É o reconhecimento honesto de que, antes de buscarmos a Luz externa, precisamos conhecer as trevas que habitam em nós. Como está escrito no Salmo 139:15: “Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito e entretecido nas profundezas da terra.”
  • Retificando: A visita, por si só, não basta. A mera contemplação de nossas falhas pode levar à paralisia ou à autocomiseração. “Retificar” é a ação que se segue ao conhecimento. É o trabalho incessante de corrigir, ajustar, alinhar nossos pensamentos, palavras e atos com um ideal superior de virtude. É o desbastar contínuo da Pedra Bruta, usando o Maço da força de vontade e o Cinzel da inteligência e do discernimento. É o ato de separar o ouro da escória, o essencial do supérfluo, a virtude do vício.
  • Encontrarás a Pedra Oculta: A “Pedra Oculta” ou Lapis Philosophorum é a recompensa deste árduo processo. Não se trata de uma pedra física, mas do nosso verdadeiro Eu, da nossa essência divina, da centelha do Grande Arquiteto do Universo que reside em cada um de nós. É a personalidade retificada, o caráter polido, a alma que alcançou a autoconsciência e o autodomínio. Encontrar a Pedra Oculta é, em última análise, realizar o potencial humano em sua plenitude.

Este processo é a primeira e mais crucial forma de sacrifício. Não um sacrifício de sangue ou de bens, mas o doloroso sacrifício do ego, da vaidade, da ignorância e do orgulho que nos definem no estado de Pedra Bruta.

E é precisamente este tipo de sacrifício que encontramos simbolizado de forma magistral na história de Jacó.

II. A Luta no Vau de Jaboque: O Sacrifício Humano como Metamorfose

A tradição judaico-cristã, tão fundamental para a simbologia do Rito Escocês Antigo e Aceito, nos oferece no Livro do Gênesis uma das mais profundas alegorias sobre a transformação humana.

Jacó, cujo nome significa “aquele que suplanta” ou “o enganador”, representa o homem inteligente, astuto, mas ainda dominado por suas paixões e por seu egoísmo. Ele enganou seu irmão Esaú e seu pai Isaque para obter a primogenitura e a bênção (Gênesis 27). Passou anos no exílio, construiu riqueza e família, mas permaneceu um homem em fuga, assombrado por seu passado.

O ponto de virada ocorre em Gênesis 32:22-32. Retornando à sua terra e prestes a reencontrar o irmão que enganara, Jacó se encontra sozinho, à noite, no vau de Jaboque. Ali, um “homem” misterioso luta com ele até o romper da aurora.

Esta luta é a representação física da jornada do V.I.T.R.I.O.L.

  1. A Solidão e a Noite: Jacó está só, no escuro. É a Câmara de Reflexões, a descida ao “interior da terra” de sua própria consciência. Ele não pode mais fugir. O confronto é inevitável.
  2. A Luta com o “Homem”: A identidade do oponente é ambígua. A tradição o interpreta como um anjo, ou mesmo como uma manifestação do próprio Deus. Simbolicamente, Jacó está lutando consigo mesmo, com sua consciência, com o peso de seus atos, com a persona do “enganador” que ele foi por toda a vida. Ele está lutando com a sua própria natureza, com o seu “Eu” bruto. É uma batalha para retificar sua existência.
  3. O “Sacrifício” Humano: Durante a luta, o anjo desloca a articulação da coxa de Jacó. Este ferimento é crucial. A transformação não ocorre sem dor, sem perda, sem um sacrifício real. Jacó sacrifica sua integridade física, sua força anterior, sua capacidade de “caminhar” como antes. Ele está sacrificando o homem velho, o “Jacó” que confiava em sua própria astúcia e força para suplantar os outros. O que é o sacrifício humano senão a entrega voluntária daquilo que nos é mais precioso? Para Jacó, naquele momento, o precioso era seu ego, sua identidade de “vencedor” a qualquer custo. Ao se agarrar ao anjo e dizer “Não te deixarei ir, se não me abençoares” (Gênesis 32:26), ele não está mais buscando uma vantagem material, mas uma transformação espiritual. Ele se recusa a continuar sendo quem era.
  4. A Mudança de Nome: A bênção que ele recebe é uma nova identidade. O anjo pergunta: “Qual é o teu nome?”. Ao responder “Jacó”, ele confessa quem ele é, admite sua natureza falha. A resposta do anjo é a culminação do processo de retificação: “Não te chamarás mais Jacó, mas sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste.” (Gênesis 32:28). Israel, que pode ser traduzido como “aquele que luta com Deus”, é a Pedra Oculta encontrada. Ele não é mais o suplantador. É um homem que enfrentou a si mesmo (simbolizado na luta com Deus), que sacrificou seu ego e emergiu, ferido, mas transformado. Ele prevaleceu não por vencer a Deus, mas por perseverar na luta até ser transformado por ela.

III. A Escada de Jacó e a Ascensão de Israel

É impossível dissociar a luta no Jaboque da visão anterior de Jacó, a famosa Escada (Gênesis 28:10-17). Quando Jacó, o enganador, fugia de seu irmão, ele adormeceu e sonhou com uma escada que ligava a Terra ao Céu, com anjos subindo e descendo. Naquele momento, a escada era uma promessa, uma visão de um potencial de comunicação entre o humano e o divino.

Contudo, simbolicamente, o Jacó “suplantador” não podia subir aquela escada. Ele podia apenas vê-la. A escada, em nossa simbologia maçônica, representa a ascensão gradual através dos graus de conhecimento e virtude, um caminho que liga o plano material ao plano espiritual. Cada degrau exige um “aumento de salário”, que não é um prêmio, mas o resultado de trabalho árduo e autodomínio.

Somente após a noite em Jaboque, após o sacrifício do ego, após se tornar “Israel”, é que o homem está apto a iniciar a verdadeira ascensão. A luta e a transformação são os pré-requisitos para subir a escada.

Cada degrau que subimos em Loja é um eco da perseverança de Israel, um lembrete de que a ascensão espiritual exige o sacrifício contínuo das nossas imperfeições. Não se sobe a escada com o peso do ego não resolvido, com a bagagem das paixões não dominadas. Sobe-se a escada manco, como Israel, marcado pela luta, mas liberto do peso de ser “Jacó”.

A jornada completa é, portanto: V.I.T.R.I.O.L. (a decisão de descer e confrontar) -> A Luta (o processo de retificação e sacrifício do ego) -> A Transformação (a descoberta da Pedra Oculta, tornar-se Israel) -> A Ascensão (a subida pela Escada, a jornada contínua de aperfeiçoamento).

IV. Do Sacrifício Individual à Responsabilidade Universal: O Alicerce Maçônico dos Direitos Humanos

Como essa jornada profundamente individual e simbólica se conecta com a estrutura social e ética dos Direitos Humanos? A conexão reside na consequência final da transformação de Jacó em Israel: a criação de um indivíduo responsável.

A palavra “responsabilidade” vem de “responder”. Um ser responsável é aquele que pode “responder por” seus atos, palavras e pensamentos. O Jacó pré-transformação era irresponsável; ele agia por impulso e astúcia, fugindo das consequências. O Israel pós-transformação é um homem que enfrentou as consequências, que assumiu sua identidade e que agora vive sob um novo pacto de integridade.

A filosofia maçônica ensina que a Liberdade não é a licença para fazer o que se quer, mas a capacidade, conquistada com muito esforço, de escolher fazer o que é certo. Esta capacidade chama-se Disciplina. E a disciplina, por sua vez, só pode nascer do autoconhecimento e do autodomínio — simbolicamente, o fruto da luta com Deus no vau de Jaboque.

O indivíduo só é verdadeiramente livre quando é senhor de si mesmo.

É aqui que o edifício dos Direitos Humanos encontra seu fundamento mais sólido. De forma errônea, os direitos são frequentemente vistos como concessões do Estado. Na verdade, os Direitos Humanos são a consequência lógica de uma sociedade composta por indivíduos que compreenderam primeiro os seus Deveres.

  • O meu direito à vida depende do seu dever de não me matar.
  • O meu direito à liberdade de expressão depende do seu dever de tolerar minhas opiniões.
  • O meu direito à propriedade depende do seu dever de não roubar.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, embora um documento secular, pulsa com este princípio. O Artigo 1º afirma que todos os seres humanos “nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

A Maçonaria não cria a razão ou a consciência, mas oferece um método — a jornada do V.I.T.R.I.O.L., o sacrifício do ego, a ascensão pela escada — para despertá-las e fortalecê-las.

O “espírito de fraternidade” não é um sentimento vago, mas a prática ativa do dever de responsabilidade para com o próximo, nascida da compreensão de que todos nós, em nossa essência, somos Pedras Ocultas em potencial, filhos do mesmo Grande Arquiteto.

Conclusão: A Obra do Maçom no Mundo

O caminho que se inicia na escuridão da Câmara de Reflexões é, portanto, o mesmo caminho que, milênios antes, foi percorrido por Jacó na solidão de Jaboque. É o caminho do sacrifício voluntário, não de uma vida, mas de uma casca — a casca do ego, do orgulho e da ignorância.

Ao nos submetermos a essa luta interna, a essa “retificação”, nos transformamos de “Jacós” em “Israéis”, de homens definidos por suas paixões em homens definidos por sua capacidade de lutar por um ideal.

É este homem transformado, este Israel que sobe a escada da virtude, que se torna a célula fundamental de uma sociedade justa e livre. Ele não exige seus direitos antes de assumir seus deveres. Ele compreende que sua liberdade está intrinsecamente ligada à sua disciplina e à sua responsabilidade para com todos.

Assim, o trabalho do maçom em seu Templo interior — o desbastar da Pedra Bruta, a visita ao interior da terra, o sacrifício diário de suas imperfeições — não é um ato de isolamento. É, em verdade, o mais fundamental de todos os trabalhos sociais.

É a forja do caráter sobre o qual o magnífico edifício dos Direitos Humanos pode, de fato e de direito, ser erguido e sustentado, para a Glória do Grande Arquiteto do Universo.

André Naves.:

Mestre Instalado.
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

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