Autor: Andre Naves

Inclusão: Não precisamos de um novo Código, mas de um novo Caminho

No coração do Brasil, onde a diversidade deveria ser nossa maior riqueza, trava-se um debate silencioso, mas de imensa importância: a proposta de um novo “Código Brasileiro de Inclusão”. Para quem observa de longe, pode parecer um avanço. Contudo, para quem vive a luta diária pelos direitos das pessoas com deficiência, o som é de alarme. E com razão. Como diz a sabedoria do povo, “gato escaldado tem medo de água fria”.

Essa desconfiança não nasce do nada. Ela é filha de uma longa história de promessas quebradas e direitos conquistados a duras penas, que muitas vezes permanecem como letra morta no papel. A comunidade de pessoas com deficiência, um dos grupos mais sistematicamente marginalizados em nossa nação, sabe bem o que é ter um direito reconhecido na lei e negado na porta da repartição, na rampa inexistente, na vaga de emprego que nunca chega.

A Lei Brasileira de Inclusão (LBI), a Lei nº 13.146/2015, não é uma lei qualquer. Ela foi uma colheita, fruto de décadas de semeadura, de luta e de suor. É um estatuto moderno, alinhado com os mais elevados tratados internacionais de Direitos Humanos, como a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. A LBI não é o problema. O problema é a distância abissal entre o Brasil que ela descreve e o Brasil que encontramos todos os dias.

A verdadeira urgência não está em reescrever um mapa, mas em ter a coragem de seguir o que já temos. A LBI é essa bússola moral que nos aponta o Norte. Discutir um novo “Código” agora gera o risco de nos desviar do essencial, de gastar uma energia preciosa em debates legislativos infindáveis, enquanto a vida real clama por ações concretas. É como discutir a planta de uma nova casa enquanto a nossa família está ao relento, precisando que o telhado atual seja consertado.

O que precisamos, de fato, é fazer a LBI acontecer. E isso exige mais do que tinta e papel. Exige o compromisso do Estado em fiscalizar, em alocar orçamento e em educar a sociedade. Exige que a semente da lei encontre terra fértil na consciência de cada cidadão, de cada gestor público, de cada empresário.

A inclusão não é uma concessão. É o alicerce de uma sociedade que se pretende justa. Ela se constrói no acesso à educação e à saúde de qualidade, que despertam as potencialidades que dormem em cada um de nós. Ela se firma no trabalho e no empreendedorismo, que são as chaves para a autonomia e para a dignidade que a alma humana tanto anseia.

A Lei Brasileira de Inclusão é o nosso arado. Agora, é tempo de fincá-lo fundo na terra da indiferença. É tempo de regar, com persistência e esperança, o sonho de um Brasil onde a dignidade não seja uma exceção, mas a regra. Um Brasil onde todos caibam, e onde ninguém, absolutamente ninguém, fique para trás no caminho.

André Naves

Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.

Conselheiro do Chaverim. Embaixador do Instituto FEFIG. Amigo da Turma do Jiló.

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O Tarifaço de Trump e a Chance de Resgatar a Nossa Bandeira

Como uma nuvem carregada que assombra o horizonte em dia de colheita, a ameaça de novas tarifas do presidente americano, Donald Trump, paira sobre o Brasil. A primeira reação, quase instintiva, é buscar abrigo nos manuais de comércio exterior, nas planilhas de exportação e importação, tentando encontrar uma lógica econômica para a tempestade que se anuncia.

Contudo, quem olha apenas para os números perde o essencial. A razão, aqui, não está no pasto, mas no pastor.

Se a questão fosse puramente comercial, a ameaça não se sustentaria. O Brasil, ao contrário do que o senso comum poderia sugerir, mantém uma balança comercial deficitária com os Estados Unidos. Nós compramos mais deles do que eles de nós. Além disso, inúmeras cadeias produtivas americanas dependem de insumos brasileiros, do minério ao suco de laranja. A imposição de tarifas, nesse cenário, seria como dar um tiro no próprio pé para curar uma dor de cabeça.

É preciso, então, pensar além do óbvio, olhar para além da porteira. As tarifas de Trump são menos sobre contabilidade e mais sobre ideologia. São um instrumento de pressão geopolítica, um recado duro enviado não à economia brasileira, mas ao alinhamento político que se espera de nós. Parece ser um chamado à negociação, uma demonstração de força para nos colocar num cabresto conhecido, aquele dos termos e da cartilha de Washington.

Ainda que muitos acreditem que a ameaça não se concretizará em sua totalidade, a incerteza que ela lança sobre nosso parque produtivo já causa estragos reais e silenciosos. A incerteza é como geada fora de tempo: queima os brotos da confiança, congela investimentos, adia contratações e deixa um rastro de apreensão no coração de quem produz e de quem trabalha. E esse prejuízo, essa angústia, não escolhe cor partidária nem candidato de preferência.

E é justamente aqui, na dor indiscriminada desta ameaça, que reside uma oportunidade preciosa, quase sagrada. Por tempo demais, nossos símbolos nacionais, a começar pela nossa bandeira, foram sequestrados por ideologias sectárias. O verde, o amarelo, o azul e o branco, que deveriam representar a união de um povo em sua diversidade, tornaram-se uniformes de trincheiras políticas, erguidos mais para dividir do que para abraçar.

O tarifaço, em sua brutalidade indiscriminada, nos lembra de uma verdade fundamental: somos um só Povo! A ameaça à nossa produção, ao nosso emprego e à nossa soberania atinge a todos, sem pedir licença ou perguntar em quem votamos. Ela nos força a enxergar o que nos une: a condição de sermos brasileiros.

É hora, portanto, de um resgate. Em nome da Soberania Nacional, que é o bem maior que compartilhamos, é tempo de estender a mão ao nosso vizinho, independentemente de suas convicções, e reafirmar que o pavilhão estrelado pertence a cada um de nós.

Finalmente, sinto que posso voltar a sonhar em ostentar a nossa Bandeira na janela, no peito, na alma, sem o medo de ser carimbado com rótulos que não me servem. Ela deixou de ser um cartaz de comício para voltar a ser o que nunca deveria ter deixado de ser: o símbolo sagrado do Brasil.

E o Brasil, meus amigos, somos todos nós.

André Naves

Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.

Conselheiro do Chaverim. Embaixador do Instituto FEFIG. Amigo da Turma do Jiló.

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Respostas do Vento

Dia desses eu entrei ali pelo Parque da Água Branca. Estava na feirinha de orgânicos. Céu de Brigadeiro, aquela paz no meio do Arraiá do Chico Bento.

De repente, bateu um vento mais forte, meio de lado, meio redemoinho, e levantou as folhas secas do chão. Foi uma coisa de segundos, aquele redemoinho marrom e silencioso.

Na hora, a cabeça viajou longe.

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Para Além das Rampas: A Revolução Silenciosa da Lei que nos Convocou a Enxergar

Há quase uma década, tive a honra de me sentar à mesa com mentes e corações brilhantes para tecer os fios de uma das mais transformadoras legislações do nosso tempo: a Lei Brasileira de Inclusão (LBI). Aquela jornada não foi apenas técnica; foi um exercício profundo de Alteridade, uma semeadura de futuro. Hoje, ao olharmos para o caminho percorrido, vemos os frutos, mas também a longa estrada que ainda se desdobra à nossa frente.

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“Beethoven Enxergou o Luar” marca nova fase do Defensor Público André Naves como escritor de crônicas do cotidiano

Após emocionar os leitores com sua autobiografia inspiradora, Caminho: a beleza é enxergar, o Defensor Público Federal André Naves lança sua nova obra: Beethoven Enxergou o Luar – Meditações Para Viver Bem!. O livro chega ao público pelo Selo Contra o Vento da Fonte Editorial e está disponível na Amazon e, também, nas livrarias de todo o país.

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O Congresso Nacional Ainda Pertence ao Povo? O aumento de deputados e a urgência do Voto Distrital

Na calada dos gabinetes, longe dos olhos e do sentir da nação, o Congresso Nacional acaba de cravar mais uma adaga no coração já combalido da nossa democracia representativa. A aprovação do aumento do número de deputados federais de 513 para 531 não é um mero ajuste técnico; é a crônica de um distanciamento anunciado, um passo deliberado para afastar o poder ainda mais de seu titular de direito: o povo.

Esta medida, que aprofunda uma ferida antiga, nasce como uma reação insidiosa a uma decisão do Supremo Tribunal Federal que, pela primeira vez, ousou aplicar o preceito constitucional da proporcionalidade. O que deveria ser um ato de justiça — ajustar o número de deputados à população de cada estado — foi torcido e transformado em seu oposto. O resultado? O que já era ruim, ficou tragicamente pior.

A raiz dessa distorção é amarga e remonta a um tempo de sombras. O entulho autoritário do Pacote de Abril de 1977, criado para manipular a representação popular durante a ditadura, nunca foi devidamente removido. Seus alicerces tortos foram, infelizmente, cimentados na Constituição de 1988. A matemática da injustiça é clara e ofende a inteligência do cidadão: o estado de São Paulo, por exemplo, que abriga cerca de 22% dos brasileiros, tinha direito a apenas 13,6% das cadeiras na Câmara. Com a nova “solução”, esse número cairá para 13,1%. Em outras palavras, o voto de um cidadão em um estado continua, por lei, a valer menos que o de outro.

Essa desconexão numérica gera uma desconexão humana. Quando um parlamentar não deve satisfação direta a um eleitorado definido, quando seu nome se perde em uma lista infindável e sua campanha vagueia por um estado inteiro, para quem ele realmente governa? O grito das periferias, a necessidade do pequeno agricultor, a luta da pessoa com deficiência por acessibilidade e dignidade… tudo isso se torna um ruído distante, facilmente abafado pelo barulho dos interesses poderosos que financiam mandatos sem rosto e sem compromisso local.

É preciso ter a coragem de dizer o óbvio: o modelo atual faliu. E a solução não está em remendos que só alargam o rasgo no tecido social. A esperança reside em uma mudança estrutural, em uma ideia simples e poderosa: o voto distrital.

Imaginemos o Brasil dividido em distritos eleitorais com populações equivalentes. Em cada distrito, um único deputado seria eleito pelo voto majoritário. De repente, a política deixaria de ser um jogo abstrato de siglas e cores para se tornar uma realidade palpável, com nome e endereço. O eleitor saberia exatamente quem é o “seu” deputado. Seria como na vida da gente, onde cada um conhece o vizinho; sabe a quem pedir ajuda e, principalmente, a quem cobrar uma promessa não cumprida. A prestação de contas seria imediata, direta, pessoal.

Há quem tema, com uma lógica que não se sustenta, que o voto distrital apagaria as minorias do mapa político. Nada mais falso. É o sistema atual, opaco e distante, que as invisibiliza. Quando o poder de pressão do cidadão é real e focado, a cidadania ativa floresce. A comunidade, organizada, forçaria seu representante a lutar por políticas públicas de saúde, educação e inclusão que atendam às necessidades locais de todos, sem exceção. A verdadeira força das minorias não está em serem um nicho num sistema falho, mas em serem parte de uma cidadania fortalecida e vigilante.

O voto distrital não é uma panaceia, mas é uma ferramenta institucional indispensável. É a plaina que pode começar a acertar a madeira torta da nossa representatividade. É o caminho para edificar estruturas sociais verdadeiramente mais Democráticas, Inclusivas e Justas, onde o Congresso Nacional deixe de ser um clube fechado e volte a ser a casa do povo.

Essa decisão é um sintoma grave da doença. Mas em vez de nos abatermos, devemos encará-la como um chamado. Um chamado para pensarmos além do óbvio, para reacendermos a chama da esperança e para lutarmos por uma reforma que devolva, enfim, o poder a quem ele pertence. É hora de semear o futuro. É hora de devolver o Congresso ao seu verdadeiro dono: o povo brasileiro.

André Naves

Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.

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Saudades…

Saudades…

Agora… Até coloquei Laufey para tocar.

A voz dela é meio bossa nova, sabe? Dá um clima legal! Na verdade, ainda não sei bem como começar, pai. Escrever pra você é como jogar conversa pro Universo, mesmo que no meio da sala — lembro do sofá agora vazio, sinto as palavras fugirem feito passarinho…

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Formigas de União!

Tem dias em que a gente sai pra andar sem rumo, mas o coração, teimoso que só, já sabe onde quer chegar. Foi num desses feriados de sol frio que eu e a Ana Rosa saímos pra flanar, pra deixar os pés nos guiarem pelas ruas de um bairro que, naquele dia, não era um bairro, era um templo.

A Rua Caraíbas já tremia antes mesmo de a gente chegar. Era um mar de gente, um rio verde e branco que transbordava das calçadas e dos bares. De longe, já se ouvia o canto que arrepia e o batuque que faz o peito tremer junto com o chão.

Era a torcida, aquela que canta e vibra, apinhada num só corpo, tentando espiar entre uma cabeça e outra o jogo que passava nos telões dos botecos… Copa do Mundo de Clubes. O nome já vinha carregado de um peso, de uma distância.

E lá dentro, e lá fora, em cada roda de amigos, a conversa era uma só… A gente olhava para os estrangeiros, os adversários, como quem olha para gigantes. Eram os bichos-papões, as figuras imbatíveis que, no fim da história, sempre ganhavam. A gente, bom… a gente tava ali pra cumprir tabela, pra encher a festa dos outros.

É um sentimento esquisito, esse de se sentir formiga. Uma sensação de que, não importa o esforço, a dedicação, a paixão, a gente já entrava excluído de toda esperança. E era tão maluco isso! Tínhamos invadido Nova Iorque, Miami, a América inteira! Nossas cores pintavam estádios em terras distantes, nossa voz ecoava mais alto que qualquer outra.

Mas, ainda assim, éramos as formigas.

Mas aí, meu amigo, é que mora a beleza que só a caminhada revela. Olhando para a rua, o clube, aquela multidão, eu vi o nosso verdadeiro superpoder. Vi a gente jovem, com o rosto pintado e a energia de quem pode mudar o mundo, abraçada com os de cabelos brancos ao vento, cujos olhos já viram tantas batalhas, tantas glórias e tantas dores.

Vi o diverso se tornando um. Vi o plural enriquecendo o todo.

Ali, naquele canto que passava de boca em boca, estava a herança mais bonita. Aquela tradição que não se aprende em livro, mas que se recebe no colo do pai, no grito do avô, na emoção da mãe. A tradição de se unir, de juntar as vozes, os corações, as esperanças, e entender que essa mistura é o que nos faz Povo. É o que nos dá força. É o nosso verdadeiro escudo.

E no fim das contas, não é que os gigantes, com toda a sua pose e fama, começaram a derreter? Pareciam feitos de açúcar em dia de chuva. A força deles, que parecia inabalável, era frágil perto da nossa fé coletiva.

E as formigas? Ah, as formigas cresceram. Cada passe certo em campo era um passo a mais na nossa estatura. Cada defesa era a muralha da nossa união se erguendo.

A União prevaleceu. A Vitória veio.

Ali, parado no meio da festa, de mãos dadas com a Ana Rosa, eu vi o ensino do futebol… A gente pode até começar a jornada se sentindo pequeno, desacreditado, com o mundo inteiro apostando contra.

Mas quando a gente se junta, quando a fé de um se soma à fé de milhões, a matemática muda.

É… Aquele dia me ensinou, com o grito mais alto que já ouvi: 1% de chance, quando se tem D’us e um povo unido, é 100% de certeza.

Fazendão

Óia, pisar nas Arcadas pra mim é que nem entrar em capela antiga, sabe? Dá um arrepio bão na espinha. Aqueles corredor comprido, a moçada nova aprendendo as lei, parece que a gente ouve o eco dos tempo de antes.

E lá tava eu, lambendo a cria, numa dessas prosa de gente estudada, falando da defesa dos pequeno, das minoria.

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O Ouro do Cinza

Hoje amanheceu do jeito que mais me apetece. Sabe o céu cor de chumbo, o friozinho gostoso? Pois é, hoje era um desses. E eu, particularmente, gosto muito. Tem gente que só vê beleza no céu azul de brigadeiro, no calor do mergulho. E não tiro a razão, são lindos mesmo. Mas o cinza tem seu valor.

Eu tava caminhando como de costume, e os pensamentos avoavam. A cabeça, às vezes, parece uma mossoroca que a gente só desembaraça andando. Decidi dar uma pausa, sentei num banco ali perto da Alameda dos Campeões, no nosso Palmeiras.

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Cavalo – O melhor amigo do Homem!

Tem certas Bênçãos na vida que chegam de mansinho, sem a gente esperar, feito orvalho na folha seca, e que, de repente, transformam o nosso chão. Eu, que sempre tive o pé fincado na roça, na simplicidade do campo, pensava que já conhecia os segredos da terra e a Sabedoria do Agro.

Sabia da tecnologia que brota do suor, da sustentabilidade que abraça a natureza, da inclusão social que floresce nas cooperativas. Mas a vida, essa mestra que nos surpreende a cada curva, guardava um tesouro que eu nem imaginava, um caminho de cura que vinha do mais puro coração do campo: o cavalo, o melhor amigo do homem, e da minha Alma.

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Milagres

Que a luz do Divino ilumine cada recanto da nossa alma, e que a melodia da Esperança embale as memórias que, como rios caudalosos, moldaram o nosso ser.

É com o coração em prece e a alma em festa que me debruço sobre o milagre da recuperação, uma história que é um testemunho vivo da força da fé, do amor que transcende o visível e da mão do Altíssimo que guia os passos da gente.

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A Hora da Verdade

No silêncio acolhedor de uma manhã que misturava o antigo e o novo, José se via diante de uma tela que mais parecia uma janela para o seu passado. Recém-promovido CEO da maior corporação brasileira de agronegócio, ele não conseguia escapar do perfume envolvente de café e bolo de fubá – uma experiência sensorial que, assim como a madeleine de Marcel Proust, o fazia viajar de volta às lembranças da infância, àquelas tardes morenas onde dona Tereza, a copeira, preparava com tanto carinho os aromas que agora se tornavam tão inevitavelmente humanos.

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Disciplina e Inspiração

A construção de uma Sociedade Economicamente Forte e Socialmente Justa passa, necessariamente, pela edificação de estruturas que promovam a Inclusão, o incentivo à Criatividade e a Inovação de forma sustentável. Basta olhar para as manifestações da rica cultura brasileira: temos o samba, que nasceu da resistência, da colaboração e da alegria compartilhada mesmo diante das adversidades; a capoeira, que mais do que um movimento, simboliza a luta, a adaptabilidade e a superação dos desafios impostos por uma história de desigualdades; e diversas festas regionais que evidenciam um povo que, através da união e da disciplina, transforma o esforço diário em celebração da vida e da diversidade.

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Rua Nascimento Silva, 107

“Minha filha… Isso faz uns 30 anos e lá vai fumaça!” Dona Terezinha do Badoca, muito amiga da vó Rosinha, sempre falava isso. Lembro daquelas broas de mandioquinha que ela fazia… Quando saíam do forno… Manteiga derretendo… Cafezinho… Bolo de fubá… E eu ali: rouco de tanto ouvir.

            Sempre que ela falava no tempo dos antigo, ela usava essa expressão… “Lá vai fumaça!”… Uma versão mais pitoresca do “tempo do onça” ou “do guaraná com rolha”! Mas duas senhorinhas, amigas desde a infância lá em Minas, só falavam de um tempo da fumaça…

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Impunidade – Uma Violação Inaceitável aos Direitos Humanos

A impunidade se revela como um dos maiores entraves à consolidação dos Direitos Humanos, despojada da promessa de dignidade e autonomia que deveriam permear cada aspecto da vida em sociedade. Ao assumir o papel de catalisador do descaso institucional, ela não apenas fragiliza o pacto social, mas torna a própria existência humana refém de um sistema que falha em responsabilizar os indivíduos por seus atos.

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Brasil: A Criatividade que Nasce da Diversidade e Almeja a Inclusão

O Brasil foi reconhecido como o primeiro “País Criativo do Ano” (Creative Country of the Year) no Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions 2025. Não foi por acaso. A honraria reconhece o que nossos olhos já veem há séculos: a potência inventiva de um povo que transforma adversidades em soluções, tradições em inovações e diversidade em riqueza coletiva. Nossa criatividade é filha legítima da mistura de raças, culturas e biomas — um caldeirão onde o verde das florestas, o azul do céu e o brilho do sol se fundem ao sorriso aberto e à resiliência de quem sabe que a vida, mesmo dura, pode ser reinventada. 

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Inclusão Social e Sustentabilidade no Agro Brasileiro

O agronegócio brasileiro vive um momento de transformação sem precedentes, no qual a inovação tecnológica e a bioeconomia se entrelaçam para redefinir não apenas a produtividade do campo, mas também os paradigmas de inclusão social e desenvolvimento humano. Entre 2019 e 2024, o número de startups agrícolas (agtechs) saltou de 1.125 para 1.972, impulsionando uma revolução que ultrapassa a esfera econômica para atingir diretamente indicadores sociais. Cidades como Sorriso (MT) e Lucas do Rio Verde (MT), epicentros do agro nacional, viram seus Índices de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) subirem 44% e 40%, respectivamente, nas últimas décadas, contrastando com a estagnação de regiões desconectadas dessa dinâmica. Este avanço, no entanto, não é mero acaso: ele reflete um modelo em que tecnologia, políticas de inclusão produtiva e transição energética convergem para construir uma sociedade mais equitativa.

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Inveja e Evolução

Sabe aquele dito da roça, “inveja mata”? Pois lá nos antigamente mesmo, foi capaz de ser assim – Caim de olho no irmão, não deu outra: sangue no terreiro, o primeiro crime da história. A coisa era feia, não tinha papinho de perdão, não. Mas o tempo vai passando e, de grão em grão, a gente aprende um tanto.

Vê só o caso do José, aquele dos sonhos coloridos e casaco todo chique. O povo da família, roído de inveja, não teve coragem de acabar com o irmão feito Caim. Jogaram ele num buraco, venderam feito gado no leilão. Já melhorou um pouco: deu tempo de contar história depois. E olha que da desgraça saiu coisa boa. Virou gente grande lá no Egito, salvou meio mundo de passar fome. A vida tem dessas: aperta, mas ensina.

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Sarney, o herói da Democracia!

24 de abril de 1987: a festa do meu aniversário começava com o tema dos Smurfs. Era o meu aniversário de 6 anos.

Lembro-me de ser perguntado sobre qual eu gostaria que fosse o tema da festa. Respondi de pronto: quero uma festa do Sarney! Eu já me imaginava de terninho, cabelos bem penteados com gel, bigodinho falso e faixa presidencial de papel crepom verde e amarela. Imaginem só eu recebendo os convidados falando, com sotaque maranhense “Brasileeeiros e brasileeeiras”?

Meus pais já conheciam das minhas excentricidades… Nunca tive festa de Sarney nenhum. Pelo contrário. Foi dos Smurfs, e eu que ficasse feliz. Ainda bem que eu adorava o papai Smurf!

O mesmo dia 24 de abril de 1987, eu nem imaginava, era a data do aniversário do meu ídolo, José Sarney. Na época, sua popularidade já estava arranhada pelos desdobramentos político-sociais do Plano Cruzado, mas eu não tinha nem ideia disso.

Na verdade, pra mim, ele era o Sarney, presidente da República, de liderança, habilidade e cultura invejáveis. Fora o meu pai, era o homem mais inteligente do Brasil, pensava eu. Só podia ser! A gente não escolhe qualquer um para ser Presidente, imaginava eu na minha inocência infantil…

Fui crescendo, estudando, e percebendo que minha admiração era uma intuição da realidade. Na verdade, a importância do Sarney foi muito maior do que eu poderia imaginar. Àquela altura, na faculdade, ele era um tipo de Geni: parecia que tudo de errado que dava no Brasil vinha dele. Quando perguntavam quem tinha sido o melhor presidente do Brasil eu, envergonhado e com medo das críticas, preferia silenciar.

FHC ou Lula? A turma, na época só costumava se dividir entre esses dois. Eu tinha um amigo, verdade seja dita, que contra tudo e todos, defendia o Collor. Como ele também falava bem da Erundina, ninguém nunca levava ele muito a sério… Passado um tempo, parecia que a escolha de quem teria sido o melhor havia se sedimentado em três opções, FHC, Lula e Temer… Um tempinho depois, um bando de aloprados tentou me convencer até do Bolsonaro!

Curioso, perguntava eu para meus botões, é que ninguém fala do Sarney… Nelson Rodrigues e o eterno complexo de vira-latas do brasileiro talvez expliquem… Talvez a traumática morte de Tancredo Neves, que gerou uma ilusão idealista que contrastava com a realidade pragmática do governo, deixou uma sombra indelével sobre o Sarney…

Com a morte de Tancredo, as cadelas no cio do autoritarismo, fizeram de tudo para impedir a redemocratização brasileira. Se essas cadelas continuavam no cio por volta de 2020, imaginem só como estavam em 1985? Esses setores sociais, sempre de alguma forma privilegiados, queriam obstaculizar diversas conquistas sociais que viriam no bojo da Constituição Democrática de 1988. Queriam manter grandes parcelas populares presas nas masmorras da miséria.

Conquistas, como a promoção dos Direitos Humanos, a Inclusão Social, os direitos e garantias ao povo trabalhador e as diversas expressões da Proteção Social, que vinham sendo construídas politicamente (e continuam sendo nos dias de hoje) corriam riscos imensos de serem novamente bloqueadas. Vale lembrar que por Democracia entende-se a vontade da maioria, que respeita a dignidade dos grupos minorizados, sempre buscando a concretização ampliadora dos Direitos Humanos.

Ou seja, Democracia não é somente o direito de votar e ser votado. Ela é muito mais que isso: diz respeito à própria viabilidade social, individual e coletiva! Por isso que tentativas de golpe ou abolição violenta do Estado Democrático de Direito não podem ser anistiadas: é que elas têm por objetivo excluir parcelas significativas da população, e aprisioná-las com os grilhões da carestia e da iniquidade.

Naquele clima de barata voa da morte do Tancredo, o presidente Sarney não se acovardou! Garantiu e matou no peito qualquer tentativa de retrocesso autoritário. Garantiu a redemocratização, garantiu os Direitos Humanos, garantiu a possibilidade de Inclusão Social. Foi ele que, com faro e pragmatismo político, conseguiu forjar um arco de alianças capaz de isolar os setores sociais mais autoritários e de assegurar o processo de redemocratização brasileira.

Acredito que, para muitos, foi muito aquém do ideal. Mas eu penso que a Inclusão Social e os Direitos Humanos são construções coletivas, feitas no dia-a-dia, por todos nós. Nesse sentido, o Presidente Sarney soube navegar os revoltos mares políticos para conquistar, não uma perfeição ideal, mas uma possibilidade real que possa ser, diariamente, trabalhada, ampliada e melhorada por todos nós!

Eu não sei se algum dia o Presidente Sarney vai chegar a ler, ou ter conhecimento, desse texto. Entretanto, eu adoraria agradecê-lo efusivamente por ter sido, e continuar sendo, um grande herói, e artífice, da Democracia brasileira.

André Naves
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