Autor: Andre Naves

Aos Olhos Meus…

            Dizem que em Portugal, o filme “Psicose” se chama “O Filho que era a Mãe”. Piada de mal gosto, tá na cara. Lá ele se chama “Psico”. Aliás, falando em Hitchcock, o “Festim Diabólico” é uma tradução brasileira muito mais carnavalesca que a portuguesa “Corda”… No original, o filme se chama “Rope”…

            Diriam os italianos, “traduttore, traditore”…

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A Insegurança Aprisiona a Pessoa com Deficiência

Para milhões de brasileiros, a liberdade é uma ilusão! Um sempre festejado Direito Humano que se esvai diante da realidade brutal da insegurança. Mas para um segmento da nossa sociedade – as pessoas com deficiência –, essa privação é ainda mais severa. Para elas, a verdadeira prisão é a do medo. É o pavor de sair de casa, de ser abordado, de ser vítima da violência!

Isso acaba que as condena a um cárcere domiciliar, privando-as de tratamentos essenciais, da convivência comunitária e, em última instância, da própria vida. Essa realidade não é apenas uma violência individual; é uma chaga purulenta de uma doença social mais profunda, que desnuda os alicerces corroídos da nossa Civilidade e da nossa Humanidade.

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O Custo da Exclusão

No debate público brasileiro, estamos acostumados a ouvir que nossa contabilidade não fecha. Nela, direitos são tratados como “custos” e políticas de inclusão como “gastos”. Mas essa planilha está invertida. Caro, de verdade, é o preço que pagamos, como Nação, pela exclusão e pelo capacitismo.

O capacitismo — a discriminação estrutural contra pessoas com deficiência — não é apenas uma violação de direitos humanos; é uma masmorra que prende o nosso desenvolvimento. A pergunta correta, portanto, não é “quanto custa incluir?”, mas sim “quanto o Brasil perde, todos os dias, por insistir em excluir?”.

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É preciso Sonhar!

Minha vida é tipo um relógio. Sabe desses, de ponteiro, já precisando de corda? Devagar… Quase parando… Contam que lá em Konigsberg a turma acertava o relógio pela rotina do Kant. Se algum incauto quiser acertar os ponteiros de acordo com a minha rotina vai dar com os burros n´água, né?

Não que eu não goste dela. Pelo contrário! Aprecio muito a segurança, a previsibilidade e o conforto de um dia-a-dia certo. Eu até faço agenda. Marco tudo certinho nela. Faço planos. Mas é como dizem, né? Quando fazemos planos, D´us ri!

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COP 30 – JUSTIÇA CLIMÁTICA E AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Foi dada a largada para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Belém, no coração da Amazônia, está recebendo líderes mundiais, cientistas e ativistas para debater o futuro do planeta. É momento de esperança, dizem os otimistas. De última chance, gritam os desesperados.

Mas há uma voz que permanece invisível nas pautas oficiais, nas agendas diplomáticas, nos comunicados memoráveis: a voz das pessoas com deficiência. Essa ausência não é acidental. É estrutural. É capacitismo climático — a negligência sistemática de uma perspectiva que, justamente, sofre desproporcionalmente com o que todos fingem discutir.

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Anjos! Anjos!

Dia desses eu tava no metrô. Linha verde. Indo pra Defensoria. Eu adoro andar de metrô: prefiro me deslocar nele que em carros. Vou vendo o povo. É ali, entre as pessoas, que a vida acontece de verdade. Sem filtros. Sem roteiros. Só gente sendo gente.

É lá que minha forma de enxergar a gente brasileira mudou. Já faz mais de 20 anos… Quase 30… Meu acidente tinha pouco mais de 1 ano. Estação da Sé lotada. 18:00. Lata de sardinha. Eu mal conseguia me mexer. De repente, uma mão desconhecida… “Vem comigo!” Ela me colocou sentadinho dentro do vagão e sumiu.

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O Mistério de Loew

Loew…

Mistério…

Lembram de quando eu contei dos domingos lá na vó Tereza? Aquele perfume de molho de tomate misturado com frango, junto com uma sinfonia de sons dispersos e misturados, que iam do tema da vitória do Senna, passando pelo lá-lá-lá do Sílvio, até a voz do Lombardi na Semana do Presidente?

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O Brasil Sangra

Brasil: um país em que a Esperança é o último refúgio e nunca morre. Apesar disso, a fé na justiça se desmonta cotidianamente em um violento jogo. A vala fria da desesperança sempre nos aguarda, como um abismo que desconcerta e atrai.

Os eventos que mancharam de sangue as comunidades do Rio de Janeiro, deixando um rastro de mortos que choca e entorpece a alma, não são apenas estatísticas frias de um confronto. São chagas de uma falha profunda, sistêmica, que se repete dolorosamente em nosso tecido social. E o mais cruel é perceber que, em meio a essa tragédia, muitos, com a melhor das intenções, acabam por celebrar a barbárie.

Há uma falácia perigosa que se alastra, como erva daninha no terreno fértil da indignação. A ilusão de que operações policiais desastradas, mal planejadas e focadas unicamente em “subir o morro” para um embate direto, resolverão o intrincado problema da criminalidade. É a crença ingênua, porém devastadora, de que a violência estatal, exercida de forma bruta e desmedida, é a resposta definitiva.

Esse é o ponto onde a boa intenção se desvia do caminho, pavimentando a estrada para o inferno da chacina, do extermínio, da injustiça. As ruas clamam por segurança, os corações clamam por paz, mas a forma como buscamos essa paz define se a encontraremos ou se afundaremos ainda mais no caos e na lama sangrenta.

Não se trata de negar a necessidade da presença do Estado, nem de romantizar a criminalidade. Longe disso. O Estado precisa e deve estar presente em cada recanto do território brasileiro, especialmente nas comunidades mais excluídas, nas periferias esquecidas, nos bolsões de vulnerabilidade. A questão fundamental é: como o Estado chega? Quando a única face que se mostra é a do fuzil, a do caveirão, a da bala perdida e da vida massacrada, o que se constrói não é segurança, mas sim um ciclo vicioso de dor, vingança e deslegitimação de qualquer autoridade. O Estado, ao chegar apenas com a violência, fecha os olhos para o problema maior, para a raiz do mal que aniquila a nossa sociedade.

É preciso ter a coragem de olhar para o espelho da realidade e questionar: onde está, de fato, a criminalidade que verdadeiramente desestabiliza o país, que corrompe as instituições e que tece a teia da impunidade? Não, ela não está predominantemente nas vielas estreitas das favelas, nos barracos humildes onde a vida pulsa com sacrifício e resistência. As lideranças do crime, do crime organizado em sua essência mais perversa, não se escondem nos becos da miséria, nas biqueiras sujas. Elas habitam os bairros nobres, os grandes centros financeiros das cidades, os suntuosos palácios políticos, as altas esferas do poder econômico.

Os exemplos são eloquentes e se erguem como monumentos à nossa cegueira coletiva. Lembremos da maior operação de apreensão de fuzis já realizada no Rio de Janeiro. Aconteceu onde? No asfalto, no Condomínio Vivendas da Barra. Foi uma operação de inteligência, meticulosamente planejada, que resultou na apreensão de um arsenal sem que uma única vida fosse perdida, sem que um único tiro fosse disparado. Contrastemos isso com a brutalidade das chacinas nas comunidades, onde dezenas de vidas são perdidas em embates sangrentos, gerando luto e revolta, mas raramente desmantelando as verdadeiras estruturas do crime.

Ou ainda, os quarenta bilhões de reais das organizações criminosas que foram descobertos e bloqueados em operações focadas em seguir o dinheiro, em desmantelar a lavagem e a corrupção em alta escala. Não na favela, mas nos centros financeiros, nos esconderijos de luxo que abrigam os verdadeiros operadores do crime.

Percebam que uma série de leis e políticas são, por vezes, elaboradas não para combater o crime, mas para acobertá-lo, para expandir o sentimento de impunidade, para proteger interesses escusos. É nesse emaranhado de interesses que a verdadeira batalha contra o crime deve ser travada, com inteligência, estratégia e um compromisso inabalável com a ética e a legalidade.

A matemática da barbárie é cruel e implacável. Alguém realmente acredita que a criminalidade será enfrentada, de forma eficaz e duradoura, com extermínios em massa? A tragédia dos cento e vinte e cinco que, miseravelmente, faleceram ontem, já tem seu triste epílogo. Essas vidas, por mais que lamentemos sua perda, já foram substituídas pelas engrenagens frias e implacáveis do tráfico de drogas e do crime organizado. A lógica perversa do crime não para. Ela se realimenta da miséria, da exclusão, da ausência do Estado. Para cada vida destruída na favela, há outras cem esperando a oportunidade para serem cooptadas por um sistema que se aproveita da desesperança.

O verdadeiro combate à criminalidade passa por desatar esses complexos nós. É preciso seguir o dinheiro, as rotas do armamento, as redes de corrupção que permitem a existência e a expansão dessas organizações criminosas. É preciso uma inteligência de Estado robusta, despolitizada, apartidária, que trabalhe em conjunto, articulando as forças de segurança de todos os entes federativos — Estados e governo federal — em uma estratégia coesa e de longo prazo.

Mas, acima de tudo, o Estado precisa chegar nas comunidades com a sua face mais humana, mais essencial: a da Cidadania. É lá, onde a ausência do Estado é mais sentida, que ele precisa se manifestar com serviços públicos de qualidade. Educação que abre portas para o futuro, saúde que cuida da vida, saneamento básico que garante dignidade, coleta de lixo e zeladoria que demonstram respeito, cultura que enriquece a alma, oportunidades de trabalho que resgatam a esperança.

É nesse solo fértil de direitos que se planta a verdadeira segurança. É lá que se constrói uma barreira intransponível contra a coação do crime.

Os Direitos Humanos não são um obstáculo ao combate à criminalidade; são a bússola que nos impede de nos perdermos na escuridão da violência. Direitos Humanos de verdade significam que a vida importa, que a justiça importa, que a dignidade de cada indivíduo importa, independentemente de sua origem, cor ou condição social. Significa que o Estado tem o dever de proteger seus cidadãos, e não de exterminá-los em operações desastradas.

É tempo de olharmos para onde o crime realmente está e levarmos, sim, condições de vida para a favela, para as comunidades. Condições de vida, não condições de morte. Condições de florescer, não de definhar. A criminalidade será enfrentada não com extermínio, mas com a construção incansável de uma sociedade mais justa, mais igualitária e, sobretudo, mais humana. O grito que ecoa das comunidades não é um pedido de trégua, mas um clamor por uma vida digna, por um Estado presente, protetor e que garanta a todos o direito fundamental de existir.

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

Meu Amigo Golem

Hoje acordei… Dia chuvoso, sabe? É o cinza que desperta o ouro das saudades… Uma lembrança, será que não seria fantástica? Nunca saberemos…

Eu, brincando no meu quartinho da bagunça, lá em Jacareí, encontrei um tipo de bilhete, numa linguagem que eu não entendia. Parecia carcomido pelas traças, cheio de poeira, teia de aranha. Acho que foi isso que me pegou.

É que eu tinha acabado de ver o filme do Simbad! Lá pelas tantas dele, tinha se encontrado com um alquimista, feiticeiro. Era minha brincadeira favorita: alquimista!

Sabe, me imaginar de túnica escura, chapéu pontudo, com tubos de ensaio cheios de líquidos coloridos e fumegantes, fazendo as mais diferentes experiências… Aquilo era quase doce de leite com paçoca!

Um pergaminho da antiguidade todo indecifrável! Embaixo das letras indecifráveis, um desenho: um gigante com cara de poucos amigos e um alquimista sábio – ele tinha roupão escuro de feiticeiro, mas o chapéu era diferente… Devia ser de uma outra ordem de magia…

Logo embaixo 3 palavras enigmáticas – GOLEM – PRAGA – LOEW. Talvez é a cura pr´uma doença, pensei… Será que a doença é Golem? E Lowel? O médico? O feiticeiro? O sábio? O que seria? Não pensei duas vezes… Tomei o tesouro na mão, e meio que em pose de quem vai lançar feitiço falei umas palavras aleatórias: ABRACADABRA!

 De repente, igualzinho rodamoinho de Saci, tudo começou a rodar, a ventar… E eu ali. Sem varinha, sem chapéu, sem nada… E a calma reinou. E quando tudo assentou era o gigante ali. Ele e o alquimista. Bravo. Ralhou comigo. Eu não entendia uma palavra, mas a reclamação não se perde na tradução… Queria voltar pro desenho, parece…

Sorri pro gigante. Ele nem se deu conta. Acho que é tímido, feito eu…

Mostrei meus brinquedos pr´eles. Pros dois. O sábio olhou tudo, examinou direitinho. Parecia estar buscando uma pista, uma saída, um amuleto. Um entendimento!  O gigante, nada. Parecia que nem era com ele. Daí olhei bem pros dois. Quem não tem palavra, tem olhar… E sorri.

Sentei. Meio desconfiado, o mágico sentou. Ele resmungou e o gigante também. Daí pedi pra ver aquele chapéu. Ele sorriu e deu um tapa na minha mão. Devia ser coisa séria. Pela primeira vez o gigante me notou.

Sabe o mais legal? Vocês não vão acreditar! A gente pegou uns brinquedos, uns bonequinhos GI Joe que eu tinha, e começou a brincar. Cada um do seu jeito. Eu, com minhas palavras. O sábio, com as dele. O gigante, sem nenhuma… Foi brincadeira pra mais de metro que a gente fez junto.

Depois, outra ventania… Acho que o saci também queria brincar, mas quando tudo se acalmou eles não tavam mais lá…

Só sei que, pra mim, ficou um amigo feito de silêncio e barro, um sábio curioso, e um quarto que, por um momento, virou passagem.

E “Loew”? O que será “Loew”? Nem sei pronunciar isso… Talvez, quem dá vida ao barro. Talvez quem acende o que estava apagado. Ou só um segredo que o chapéu guardou e que o gigante preferiu não contar.

O que será Loew? … 😉

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
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O Centro de São Paulo e a Diversidade

Há um ativo pelas ruas do centro de São Paulo — curiosamente, num entendimento mais desatento, esse ativo mais parece uma desvantagem. É que a desigualdade social brasileira se manifesta ali, cruenta e trágica: a miséria convive lado a lado com empreendimentos vibrantes e maravilhosos. Pessoas em situação de rua dividem espaço com galerias de arte, ateliês criadores, iniciativas culturais que pulsam com vida e propósito. Lojas de luxo e cortiços. Restaurantes sofisticados e vendedores ambulantes. Escritórios corporativos e ocupações de sem-teto.

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Cuidado é Política de Estado

A vida cotidiana revela, com nitidez brutal, onde ainda falhamos como país: mães que deixam o emprego por falta de creche; famílias que se desdobram para garantir acessibilidade a pessoas com deficiência; idosos que envelhecem sem rede de apoio; profissionais do cuidado invisibilizados e mal remunerados.

É nesse Brasil real que a Política Nacional do Cuidado deixa de ser pauta setorial e se afirma como eixo da Inclusão Social.

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Inclusão Não é Utopia: Por que o Decreto 12.686 é um Passo Necessário na Defesa dos Direitos Humanos

Em minha atuação como Defensor Público Federal, diariamente me deparo com a urgência e a complexidade da defesa dos direitos humanos, especialmente daqueles mais vulneráveis. É nesse cenário que o recém-publicado Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025, que institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (PNEEI), surge como um marco, um farol a iluminar o caminho rumo a uma sociedade verdadeiramente justa.

Embora venha acompanhado de debates e críticas, como toda iniciativa transformadora, sua essência é inegociável: garantir o direito à educação inclusiva para todos.

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Danado

Imaginar sempre foi minha brincadeira preferida. Fechava os olhos e via mundos. Agora, abro os olhos e invento futuros. “Nem a pau, Juvenal!”, digo quando a saudade do retrovisor tenta contar história antiga. Hoje, não.

Hoje é IMAGINAÇÃO! FUTURO!

Acordo, água no rosto, tênis. Descendo a Caraíbas. Tranquilo e calmo. Que tempo é esse? Dois anos? dez? quinze? Camiseta, shorts… Igual minhas crônicas: sem terno, sem gravata, mas com aquele nó entre as linhas.

A vitrine da livraria me chama. Ali, meu livro. Não tenho nem roupa pra isso… Mas, do nada, tô. Estufo o peito, dou um sorriso, fico um pouco ali namorando as gostosuras literárias, o cheiro de papel que faz brotar o sorriso.

Quando a alma desacelera, vem o puxão. É a guia.

Lembro: nesse meu amanhã, tenho um cachorro. O Danado. Golden Retriever. Fanfarrão, cara de quem ri, noção zero. Desastrado, afobado, meio bobão. Abana o rabo e faz vento de alegria. Toda vez quebra os vasos da Ana Rosa — água, flor, caco, tudo pro alto. O tapete? Tiramos. E ele nem nota, porque, no fundo, não é levado: é só livre. E liberdade, quando passa, levanta confete de festa.

Teve um dia, na casa da minha mãe — reparou? até no meu futuro tem passado —, que ele viu um gramado pela primeira vez. Foi direto pra lama como quem encontra a própria infância. Depois entrou na sala de TV, a família na Dança dos Famosos. Começou a se chacoalhar. Sabe, jeito de cachorro mesmo?

A sala virou um quadro borrado… Um Miró desastrado… O sorvete do meu sobrinho ficou com cobertura de brigadeiro de barro. Alguém ficou bravo? Acho que não. Talvez eu tenha ralhado um tiquinho, da boca pra fora, só pra manter a pose. Mas, quando tem Amor, o Perdão vem de fábrica.

Eu e Ana Rosa limpamos tudo. Fomos pro quintal. Mangueira aberta. A água cantando, lavando a lama, lavando tudo… Levando qualquer chateação. Água purifica. A gente também. E ali, ensopados e rindo, a gente enxergou: errar junto, rir junto, recomeçar junto. Nem precisa falar! É presença que grita!

Os anos passam. Outra manhã na Caraíbas. Outro livro na vitrine. Roupa diferente. Ana Rosa do lado. E o Danado… ah, o Danado agora apronta nas nuvens. Juro que vejo o rabo dele abanando lá, um vaso de luz se espatifando num éter desconhecido, um latido de quem ri escondido npôr do Sol…

O céu guarda umas delicadezas.

Meu olho enche d’água, mas é de alegria… Meio nostálgica, mas alegre! Eu encaro o fundo d’alma da minha Rosa e encontro nossa casa inteira ali, parede por parede, infância por infância, promessa por promessa. Sorrio. No colo dela, o Caramelo cochila. Ciclos. Sempre a vida. Sempre a gente. Sempre JUNTOS.

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
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Solilóquio do Esperançar!

E não é que a flor desabrochou e trouxe Luz para onde antes as trevas pareciam dominar? Aquela flor, sublime, suave e muito frágil… Uma flor de Esperança! Com o klezmer, esse nosso lamento vira dança!

É a vida que insiste, é a Beleza sempre triunfa! Uma flor semeada por quem menos se esperava… Quem, em sã consciência, poderia imaginar? Eu, jamais! Mas rio, danço e celebro!

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A Ilusão do PIB

Uma notícia que costuma encher as manchetes e pautar discursos de governantes é o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Celebrado como um sinal inequívoco de progresso, a vitória de um campeonato nacional cujo troféu seria a prosperidade. Contudo, e se essa métrica, tão reverenciada, for na verdade um ilusionista, um mestre em desviar nossa atenção do que realmente importa? A verdade, desconfortável e urgente, é que o PIB é uma métrica enviesada, e nossa fixação por ele nos afasta de um futuro verdadeiramente próspero.

O problema central do PIB é que ele é apenas um índice, que não possui coração nem consciência. Ele representa a soma de tudo, sem qualquer juízo de valor. Para entender essa distorção, não precisamos ir longe. Basta olhar para a nossa própria história e para o nosso cotidiano.

Na época do chamado “Milagre Econômico” brasileiro, entre os anos 60 e 70, o país exibia um crescimento do PIB que assombrava o mundo, com taxas anuais superiores a 10%. Éramos a nação do futuro. Contudo, por trás dos números vistosos, a desigualdade social explodia, a concentração de renda se acentuava e a repressão política criava um clima de medo.

A célebre frase do então ditador Médici — “a economia vai bem, mas o povo vai mal” — não foi um lapso, mas a confissão involuntária da falácia do PIB. O “milagre” foi para poucos, e a ilusão do PIB escamoteou a imagem pouco vistosa do bem-estar nacional.

Em nítido contraste, as últimas quatro décadas de redemocratização contam uma história radicalmente diferente. Nesse período, o Brasil não ostentou as mesmas taxas de crescimento do PIB, enfrentando crises e instabilidades. No entanto, o foco mudou da mera expansão econômica para a construção de um tecido social mais justo.

Foi a era da universalização da educação básica, um avanço monumental. A taxa de analfabetismo, que beirava os 21% em 1985, despencou para cerca de 5% em 2022, enquanto o investimento público em educação quase dobrou como proporção do PIB. Foi o período que viu nascer o Sistema Único de Saúde (SUS), um pacto civilizatório que, apesar de todos os seus desafios, garante acesso à saúde como um direito. Assistimos à implementação de políticas fiscais mais inclusivas e programas de transferência de renda que tiraram milhões da miséria. Em suma, o bem-estar da população aumentou, provando que o progresso real não depende de um PIB vistoso, mas de um compromisso genuíno com as pessoas.

Pensemos na mais recente crise global, a pandemia de Covid-19. Enquanto vidas eram perdidas e a saúde mental da população era devastada, a produção de máscaras, respiradores, medicamentos e, tristemente, até de serviços funerários, impulsionava setores da economia. Cada gasto com a doença, e não com a saúde, era um ponto a mais no placar do PIB. A métrica registrava a febre da atividade econômica, mas ignorava a dor do doente.

Essa lógica perversa se manifesta todos os dias. Quando um cidadão em São Paulo ou no Rio de Janeiro passa, em média, duas horas por dia preso no trânsito, ele está perdendo tempo de vida, de convívio e de descanso. No entanto, ele consome mais combustível, mais peças para o carro e talvez mais remédios para a ansiedade. Sua qualidade de vida despenca, mas a sociedade aplaude o aumento do consumo e do PIB.

Quando ocorrem tragédias ambientais como as de Mariana e Brumadinho, os custos humanos, ecológicos e culturais são imensuráveis. São perdas eternas. No entanto, os gigantescos gastos com as (muitas vezes insuficientes) obras de reparação e contenção de danos são somados positivamente ao PIB. A destruição gera uma “oportunidade” econômica que mascara a catástrofe subjacente.

Essa métrica é tão falha que ignora a própria distribuição da riqueza que ajuda a gerar. O Brasil pode comemorar um crescimento do PIB, mas isso diz pouco quando, segundo dados recentes, o 1% mais rico da população detém quase 50% de toda a riqueza nacional. O bolo cresce, mas continua concentrado nas mãos de pouquíssimos, enquanto a maioria se esforça para ter acesso às migalhas.

Já na década de 1970, o economista Richard Easterlin formalizou o que o bom senso já sugeria: em uma nação, um PIB per capita mais alto não se correlaciona necessariamente com um aumento na felicidade média da população. Esse “Paradoxo de Easterlin” se soma ao alerta do próprio criador da métrica, Simon Kuznets, que nos anos 30 advertiu que “o bem-estar de uma nação dificilmente pode ser inferido a partir de uma medida de renda nacional”.

E o que dizer do que o PIB é incapaz de medir? O trabalho de cuidado não remunerado, que sustenta famílias; o voluntariado, que constrói comunidades; a sabedoria dos nossos anciãos, que tece nossa cultura — toda essa imensa riqueza que dá sentido à vida é invisível para ele.

A questão que se impõe é de uma simplicidade desconcertante: o que realmente queremos medir? Se nosso objetivo é uma sociedade mais Justa, Saudável e Feliz, precisamos de novos marcadores. Precisamos nos guiar pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), pela redução das desigualdades medida pelo coeficiente de Gini, por indicadores de sustentabilidade ambiental, de saúde mental e de confiança nas instituições.

No fim, a lição é clara: a atividade econômica deve ser, sempre e incondicionalmente, vinculada à Inclusão Social. Não se trata de negar a importância da economia, mas de devolvê-la ao seu devido lugar: como uma ferramenta para potencializar as iniciativas humanas e desenvolver as capacidades individuais.

O verdadeiro progresso não se mede em pontos percentuais de crescimento, mas na capacidade de uma nação de nutrir os talentos de cada cidadão e de garantir que todos tenham a oportunidade de florescer.

Mede-se pela construção de estruturas sociais em que todos possam se dar as mãos, e em que a prosperidade de um não signifique a miséria de outro. Uma sociedade onde, de fato, ninguém fique para trás. A verdadeira riqueza de uma nação não reside na frieza de um número, mas na dignidade de seu povo, na força de suas comunidades e na harmonia com o planeta.

É hora de abandonar as ilusões do PIB e manter acesa a chama da Esperança por um mundo mais humano, onde a economia finalmente sirva à vida, e não o contrário.

André Naves

Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.

Conselheiro do Chaverim. Embaixador do Instituto FEFIG. Amigo da Turma do Jiló.

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Solilóquio da Esperança

Solilóquio da Esperança

É agora… Estou aqui, hoje, e o silêncio me conta que já se passaram dois invernos desde nossas dores. Dois anos desde que a avalanche desceu a montanha, e seu urro ainda espanta o remanso da nossa alma. Tempo de paz fraturada, de sono roubado… Tempo em que a Esperança na Humanidade parecia uma noite em que a Lua some e as trevas dominam…

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A exclusão das Pessoas com deficiência dos cargos de Liderança

Um dos mais estrondosos versos contra todas as formas de preconceito já produzido está na canção “Sampa”, em que a genialidade de Caetano Veloso nos lembra que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Poucas frases descrevem com tanta precisão a miopia que ainda domina boa parte do imaginário brasileiro.

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Um pacto de afeto e ação para o coração de São Paulo

Caminhar pelo centro de São Paulo é folhear um livro vivo da nossa história. Entre as cicatrizes do tempo e os desafios sociais que nos saltam aos olhos, florescem, com uma força inspiradora, os sinais de uma nova pulsação. Longe de ser apenas um projeto de governo, o renascimento do coração da metrópole se revela como um movimento coletivo, uma sinergia promissora em que o poder público aliado à iniciativa privada é impulsionado pela sociedade civil.

Assistimos a essa transformação tomar força e vigor em iniciativas como o comitê #TodosPeloCentro, que articula diferentes esferas para pensar a região de forma integrada. Sentimos o perfume dos cafés e livrarias que florescem na Vila Buarque, trazendo de volta o charme boêmio e intelectual às suas calçadas. Vibramos com a energia de eventos como a Virada Cultural, que democratiza o acesso à arte e nos lembra que as ruas são nosso maior palco. Frutificam variados projetos que visam converter edifícios icônicos, antes ociosos, em moradias e centros de serviço, acenando com mais acesso a uma cidade que não dorme, viva 24 horas por dia.

Contudo, a verdadeira alma dessa transformação não reside apenas no concreto ou nos planos diretores, mas em um movimento muito mais profundo e sublime: a reconquista afetiva do centro pela sua gente. A solução duradoura para os desafios da região não virá de decretos, mas do desejo genuíno dos paulistanos de pertencerem àquele espaço. É um chamado para que voltemos a ocupar nossas origens.

Essa reconquista se materializa em atos cotidianos de cidadania e lirismo: é escolher o restaurante local para o almoço de domingo, é comprar o presente de aniversário no comércio de rua, é aplaudir o artista que se apresenta na praça, é levar os filhos para redescobrir os teatros e museus que testemunharam a formação da nossa identidade. É, em suma, fazer do centro um destino, não apenas uma passagem. Quando a população ocupa, ela ilumina, protege e dá vida.

Essa convocação à ação cidadã, no entanto, não é um sinal verde para a omissão ou a insuficiência do poder público. Pelo contrário, ela exige um Estado que atue como um verdadeiro facilitador. A responsabilidade dos governantes e legisladores é criar o terreno fértil para que essa semente de reapropriação germine. Isso significa investir incansavelmente em segurança, limpeza e iluminação de qualidade; significa destravar a burocracia e incentivar a requalificação de imóveis para moradia, garantindo que seja um processo inclusivo, que combata a gentrificação e acolha a diversidade; e significa, urgentemente, aprimorar a mobilidade, para que circular pelo centro seja fácil, seguro e agradável para todos.

A revitalização do centro de São Paulo é um pacto. Um pacto entre a memória e o futuro, entre o desenvolvimento econômico e a justiça social, entre a gestão pública eficiente e o engajamento cívico apaixonado. Não se trata de apagar as complexidades, mas de enfrentá-las com a coragem de quem acredita na potência do encontro. É o convite para que cada paulistano se sinta, outra vez, parte essencial do coração que faz a cidade inteira pulsar.

A hora de reanimar o centro é agora, e a responsabilidade é de todos nós.

André Naves, Defensor Público Federal especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social.

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O Milagre de Abrir os Olhos

Que as fagulhas sagradas do Eterno aqueçam cada canto de nossa alma, e que a melodia da Esperança embale as memórias que, como rios caudalosos, desenharam nosso ser.

É com o coração em prece e a alma em festa que me debruço sobre o milagre, um testemunho vivo de que a mão do Altíssimo, Bendito seja Ele, escreve direito por linhas que nos parecem tortas.

O coma me impedia de saber, mas as palavras fazem ventania até os dias atuais… Naquele dia o mundo de meus pais emudeceu. O acidente foi como um raio que parte o carvalho mais antigo, e as palavras dos senhores da ciência, com sua sabedoria terrena, soaram como um decreto final: “Não sobreviverá”.

Longe de mim hostilizar a ciência. Se hoje respiro, é também por ela. Mas alguns de seus doutores, por vezes, esquecem que o conhecimento só floresce no solo da humildade. A arrogância gélida é um deserto onde nada brota. Sabiamente, Shakespeare ensinava que há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

O coração de um pai, diante de tal prognóstico, seca como a terra sem chuva. A dor, como um espinho, cravou-se fundo, e o mundo se desbotou em tons de cinza. Mas bendita seja a Fé que não se curva! Minha mãe, mulher de luz e fibra, não se dobrou à tempestade. Com a certeza de que nenhuma folha cai sem a permissão do Criador do Universo, ela se agarrou à Esperança como a videira se enlaça ao tronco, buscando a seiva da vida.

E em Jacareí, essa terra abençoada que guarda minhas raízes, a notícia correu como enxurrada na chuva. A comunidade inteira, como um só corpo, uniu-se. Judeus recitando Salmos, católicos com seus rosários, evangélicos em seus clamores, espíritas em suas vibrações… Não importava o nome dado à fé. Era um povo unido em oração, tecendo uma rede de luz e amor que me envolvia, ali, em coma, suspenso…

Meus avós de memória extremamente abençoada, meus pais, meus rochedos primordiais, sempre semearam o bem. E foi nesse solo fértil de afeto que a corrente de preces ganhou a força de uma colheita farta. Um clamor que subia aos céus, pedindo por um milagre.

Os dias se arrastavam, mas a Fé não perdia as suas cores. E então, o milagre escondido começou a se revelar, como a flor mais rara que rompe o asfalto. Os médicos, com seus olhos de espanto, viram o que a ciência não explicava: o risco de vida se afastava, a pequena chama da vida ardia novamente!

A provação, como o fogo que transmuta o milho em pipoca, ainda não terminara. “Perderá os movimentos”, disseram, e um novo vale de sombras se abriu. Mas a voz da Comunidade sempre encontra o Altíssimo: é como a semente que, soterrada, ganha forças para buscar a Luz. As preces continuaram, mais fortes, mais intensas. Cada lágrima, cada súplica, era adubo para a cura.

E a ciência, mais uma vez, testemunhou o inexplicável. Os movimentos, um a um, retornaram, como o orvalho que renasce na folha ao amanhecer. Os tratamentos seguiam, mas a alma dormia um sono profundo.

Pairava o medo…

Mas a corrente de amor não cessou…

E então, a Luz se intensificou, varrendo as sombras. O despertar. Um renascimento.

Foi um milagre? Sim. Os milagres são reais e acontecem.

Eles sempre provêm de HaShem, o Santo, Bendito seja!

Mas cada alma, em sua singularidade, os interpreta através de sua própria janela. Um vê a mão de um santo, outro a energia do universo, outro a resposta direta de uma prece. O fascinante é, nesse caldo de percepções coletivas, sentir a poética Divina escrevendo os versos dessa estrofe. O milagre é um, mas os olhos que o veem são muitos, e em cada olhar há uma centelha da verdade.

Eu, que vi a escuridão e escolhi a Luz, acredito na Força que une, e jamais na ilusão que a tudo separa.

Meu desejo é que esta história se espalhe como o fogo de um rastilho de pólvora! Um lembrete de que, mesmo no mais profundo breu, a Esperança, a Fé e o amor da Comunidade são a argamassa que reconstrói.

Que a chama deste milagre nos inspire a reconhecer o Bem, a crer no impossível e a valorizar cada elo dessa corrente de Amor que nos une como um só povo, perante o Eterno.

André Naves

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Terra da Tempestade

A tempestade que se abateu sobre o Estado de São Paulo na tarde de segunda-feira, 22 de setembro de 2025, foi mais um dentre os inúmeros alertas que cientistas e ativistas vêm fazendo há décadas.

Na capital, as rajadas de vento que alcançaram cerca de 100 km/h não derrubaram apenas árvores; derrubaram a nossa falsa sensação de segurança, esfacelando carros e expondo a fragilidade de nossa infraestrutura.

A escuridão que ainda persiste em muitos lares é um pequeno símbolo do apagão de planejamento e da nossa desconexão com o ambiente.

No interior, a imagem da fábrica da Toyota em Porto Feliz, com seu galpão destelhado e estruturas metálicas retorcidas por ventos de até 95 km/h, é assustadora.

A interrupção da produção e a decretação de estado de emergência na cidade mostram como a crise climática é também uma crise econômica e social, com impactos diretos na vida de milhares de pessoas, como os dez funcionários que sofreram ferimentos.

São Paulo deixou de ser a “terra da garoa” para se tornar a “terra da tempestade”. Aceitar essa nova realidade é o primeiro passo. A negação não nos protegerá da próxima ventania. A adaptação é o caminho inadiável para o agora. Isso significa repensar nossas cidades:

  • Infraestrutura Resiliente: Precisamos de sistemas de drenagem que suportem chuvas torrenciais, redes elétricas subterrâneas ou mais protegidas e construções que considerem a força crescente dos ventos.
  • Cidades-Esponja: É preciso investir em mais áreas verdes, parques e solos permeáveis que possam absorver o excesso de água, em vez de apenas canalizá-lo para a destruição.

Este desastre externo expõe uma crise de valores interna. A tempestade nos força a olhar para o que é verdadeiramente essencial. A crítica ao consumismo, ao produtivismo e à ostentação deve ser o cerne da questão. A busca incessante por mais, potencializada por redes sociais que vendem uma felicidade de vitrine, nos aliena uns dos outros e do planeta que habitamos.

A “retomada da consciência crítica” é o antídoto. É o despertar para o “bem-viver” – um conceito que nos convida a buscar uma vida mais simples, conectada e com propósito, onde o ter cede lugar ao ser. O consumo consciente não é apenas sobre escolher produtos sustentáveis, mas sobre questionar a própria necessidade de consumir.

Em meio ao caos, há aqueles cuja luta é ainda mais dolorosa. Dentre todos os grupos populacionais vulnerabilizados, que sofrem essa tragédia de maneira mais aviltante, as pessoas com deficiência enfrentam um terror particular.

  • Mobilidade Acorrentada: Como evacuar um prédio sem elevadores? Como navegar por ruas repletas de escombros, galhos e fios caídos com uma cadeira de rodas ou com baixa visão?
  • A Perda do Essencial: A falta de energia significa a perda de medicamentos que necessitam de refrigeração. Significa o silêncio de equipamentos vitais para a respiração ou comunicação. Significa a interrupção de cuidados que dependem de tecnologia.
  • O Peso Emocional: Além do dano material, há o impacto moral avassalador. A angústia é amplificada pelo sentimento de abandono e pela quebra de rotinas que são, muitas vezes, a âncora da estabilidade emocional e psicológica.

Esta tragédia precisa servir de lição. Os planos de emergência e as políticas de adaptação urbana não podem mais ignorar as necessidades específicas desse grupo. A inclusão, aqui, é sinônimo de sobrevivência.

A Esperança reside exatamente na capacidade que temos de transformar a dor em ação. Que o som desta tempestade ecoe em nós não como um ruído de destruição, mas como um chamado para construirmos, juntos, uma sociedade onde a resiliência não esteja apenas no concreto, mas, acima de tudo, na solidariedade e no cuidado mútuo.

O som da Esperança precisa, de fato, permanecer ecoando para inspirar esse novo caminho.

André Naves

Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.

Conselheiro do Chaverim. Embaixador do Instituto FEFIG. Amigo da Turma do Jiló.

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