Quem costuma acompanhar as notícias acabou se emocionando… É que há poucos dias, o Brasil testemunhou um daqueles momentos em que a ciência nos enche de Esperança e orgulho. Um homem, com a medula totalmente rompida após uma queda, relatou a emoção indescritível de, na madrugada, conseguir voltar a mover o próprio pé.
Isso não é magia! É tecnologia, inovação e ciência! Quem tem contato com o noticiário já sabe que se trata da polilaminina, uma rede de proteínas desenvolvida ao longo de quase trinta anos de pesquisa pela bióloga Tatiana Sampaio, nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lá, na recente lesão medula, a ciência brasileira construiu um caminho. Na aparente paralisia, a universidade pública forjou o movimento.
É muito bom alertar que, apesar do enorme tempo e seriedade, e ainda que a pesquisa seja promissora, os estudos ainda carecem de um longo caminho até serem efetivamente liberados para comercialização pela ANVISA… Não se produz ciência na pressa, no afogadilho, no sopetão…
No entanto, a beleza desse potencial humano de criar e dar existência a algo novo é atravancada pela ineficiência das prioridades nacionais. A mesma universidade que entregou a Esperança de cura a pacientes paraplégicos sofreu um golpe que revela a falha de nossas políticas públicas. Segundo a própria Dr. Tatiana, temos a patente nacional dessa aparente descoberta, mas perdemos a patente internacional. O motivo? A UFRJ deixou de pagar as taxas de manutenção por falta de verbas.
Perder a soberania sobre uma inovação dessa magnitude é a evidência da ausência de um Plano de Desenvolvimento Nacional brasileiro. A sociedade brasileira, em sua grande maioria, se recusa a enxergar a educação, a ciência e a universidade pública e gratuita como seus maiores pilares estratégicos. Esse descaso é refletido, pelo mundo político, em uma completa ausência de políticas públicas incentivadoras da Educação e Ciência.
Tratar o financiamento científico como “gasto” passível de cortes contingenciais é o atestado de nossa submissão ao subdesenvolvimento. É a vitória do imediatismo tacanho sobre a construção estrutural.
Se quisermos romper as amarras que nos prendem às profundezas das desigualdades, precisamos entender que o investimento estatal em pesquisa não concorre com a livre iniciativa econômica; ele a incentiva. A história brasileira tem a prova dessa dinâmica: a revolução da nossa agroindústria.
O Brasil não se tornou uma potência global do agronegócio por um acaso geográfico ou por geração espontânea do mercado. Esse milagre foi desenhado, estruturado e executado pela Embrapa — uma empresa pública — em sinergia com o ecossistema de inovação das universidades e o ímpeto da livre iniciativa.
Foi a pesquisa pública aplicada que transformou o solo ácido do Cerrado em um celeiro global. Quando a ciência pública, a inovação e o setor produtivo se unem, o resultado é um salto civilizatório. O que a Embrapa fez pelo campo, nossas universidades públicas podem e devem fazer pela tecnologia e pela superação das barreiras físicas e sociais, como nos prova o caso da polilaminina.
Contudo, pensar o avanço científico e tecnológico exige pensar a inclusão e a diversidade. A ciência não é construída apenas com recursos financeiros, mas com capital humano diversificado. É nesse ponto que nossas políticas públicas precisam atuar com intencionalidade para fomentar a participação massiva de mulheres nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e levantamentos sobre o mercado de trabalho retratam a precariedade de nossa realidade: as mulheres ainda são sub-representadas nessas áreas cruciais.
Estereótipos de gênero, enraizados em nosso capacitismo e sexismo estruturais, continuam afastando meninas das ciências exatas desde a educação básica, condicionando trajetórias e restringindo horizontes. O mercado de trabalho reflete essa exclusão com trajetórias ocupacionais onde os homens dominam as posições de liderança e inovação tecnológica.
Isso é um desperdício intelectual causador de ineficiência econômica. A inovação não nasce na zona de conforto, entre iguais. Ela brota do atrito, da multiplicidade de vivências e, sobretudo, do “olhar do outsider” — daquele que não foi condicionado pelo “sempre fizemos assim”. Uma ciência majoritariamente homogênea é uma ciência com pontos cegos.
Trazer mulheres para o centro da inovação tecnológica multiplica exponencialmente nossa capacidade coletiva de resolver problemas complexos. É a inclusão semeada no solo da cultura para que possamos colher a criatividade.
Não podemos ficar inertes enquanto nossas maiores mentes perdem patentes internacionais por falta de trocados no orçamento da União. O Estado tem um papel insubstituível como financiador do risco inicial, da pesquisa de base e da formação de talentos. É através da universidade pública, plural, gratuita e de excelência que garantimos que o talento encontre o caminho para florescer.
Precisamos de responsabilidade fiscal solidária, que entenda o equilíbrio das contas como instrumento para viabilizar investimentos estratégicos. Cortar verbas de uma pesquisa que reconecta a medula espinhal e devolve a dignidade motora a um ser humano é um atentado contra os Direitos Humanos disfarçado de gestão, por exemplo.
Cabe agora a nós, enquanto sociedade, e especialmente aos nossos formuladores de políticas públicas, reconectar a medula do próprio Estado brasileiro. Precisamos de investimentos perenes, massivos e estratégicos em educação e ciência. Só assim deixaremos de ser o país das promessas amputadas pela falta de verbas para, finalmente, caminharmos — com nossas próprias pernas — em direção a um futuro de verdadeira Justiça, Autonomia e Dignidade Humana.
A Beleza, afinal, é enxergar o amanhã que somos capazes de construir hoje. E esse amanhã exige a ciência pública como sua pedra angular.
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
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