“Quem vem Lá?”

“Quem vem Lá?”

“Quem vem lá?”. Não se trata de uma simples interrogação de identidade, mas de um profundo questionamento simbólico e filosófico sobre a condição daquele que ousa bater à porta do Templo. É a sentinela da senda iniciática que inquire não apenas o nome, mas a essência, o estado e a bagagem de quem se apresenta.

A resposta, em sua simplicidade, é um diagnóstico do mundo profano: um candidato, um buscador. Mas quem é ele, verdadeiramente? Ele é a matéria-prima da nossa Obra. Ele chega contaminado pelo obscurantismo que cega a razão, pelo fanatismo que incendeia o ódio, pelos preconceitos que erguem muros entre os homens e pelos erros que se perpetuam pela ignorância.

Ele é, em suma, uma Pedra Bruta, cuja superfície foi tornada áspera e irregular pela fricção incessante da vida cotidiana, pelas ilusões da vaidade e pela tirania das paixões desgovernadas.

Este homem, que somos todos nós em nosso estado primordial, é o ponto de partida. E é para recebê-lo e transformá-lo — e, com ele, transformar a nós mesmos — que nos reunimos. Quando o Venerável Mestre pergunta ao Primeiro Vigilante sobre o propósito de nossa assembleia, a resposta ilumina todo o caminho: reunimo-nos para glorificar a Verdade e a Justiça, promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, e, para tanto, nos dedicamos a levantar Templos à Virtude e cavar masmorras ao Vício.

Esta é a jornada que se desdobra a partir da pergunta inicial. Quem vem lá é um escravo de suas próprias imperfeições. E nós nos reunimos para, juntos, cultivarmos a Liberdade.

O Templo à Virtude: Monumento do Ideal e Farol da Conduta

O que significa, em nosso simbolismo, “levantar um Templo à Virtude”? A Virtude, para o Maçom, não é a mera ausência de erro ou a passividade de quem não pratica o mal. É uma força ativa, uma disposição firme e constante da alma para fazer o Bem. É a coragem de defender a Verdade, a temperança para governar a si mesmo, a justiça para dar a cada um o que lhe é devido e a prudência para guiar nossas ações.

O Templo que erigimos é, primeiramente, um marco do ideal. Assim como nossos antepassados operativos construíam catedrais que apontavam para os céus, buscando materializar o divino na Terra, nosso trabalho especulativo erige um ideal de conduta. O Templo é a representação do que a Humanidade poderia ser. Ele não existe plenamente no mundo profano, mas sua planta, seu projeto, está gravado em nossas consciências e em nossos rituais.

Nesse sentido, cada Maçom, ao absorver os ensinamentos e polir sua própria pedra, torna-se um componente vivo deste Templo. Pelo exemplo de sua conduta, ele se converte em um farol. Sua integridade nos negócios, sua tolerância no debate, sua solidariedade na dificuldade e sua busca incessante por conhecimento não são apenas atos isolados; são feixes de luz que iluminam os passos futuros de seus Irmãos e da sociedade ao redor. Ele se torna um monumento daquilo que é correto, um testemunho ambulante de que a Virtude é praticável.

Contudo, a simbologia do Templo possui uma dualidade crucial. Ele não é apenas um local de edificação, mas também um local de sacrifício. Na antiguidade, o altar (a ara) era o coração do templo, o lugar onde algo era oferecido para se obter o favor dos deuses. Em nosso Templo interior e coletivo, o sacrifício é igualmente indispensável. O que imolamos em nosso altar? Precisamente aquilo que todos ainda trazem consigo: o obscurantismo, o fanatismo, os preconceitos e os erros.

Este é um trabalho de purificação, um ato sacrificial onde queimamos as impurezas da alma para que a chama da Virtude possa arder mais forte. É um trabalho individual, realizado na quietude da reflexão, no estudo e na autovigilância. Mas é, fundamentalmente, um trabalho coletivo, pois é na Loja, sob o olhar atento dos Irmãos e através da egrégora formada, que encontramos a força, o compasso e o esquadro para identificar e imolar essas imperfeições. A reunião em Loja é o que transforma a intenção solitária em obra concreta.

A Masmorra ao Vício: A Prisão da Imperfeição e a Conquista da Soberania

Se levantar Templos à Virtude é nosso objetivo construtivo, “cavar masmorras ao Vício” é sua contraparte necessária, o trabalho de contenção. A sabedoria desta imagem reside na compreensão da natureza humana. A Maçonaria não é uma doutrina de anjos, mas uma escola para homens. Como tal, reconhece que somos seres imperfeitos, e que os vícios são, em certa medida, parte de nossa essência. Seria uma utopia ingênua — e, portanto, um erro — buscar a eliminação completa dos vícios.

O que é, então, um vício em nossa perspectiva? Frequentemente, é uma virtude contaminada. A coragem (virtude), quando contaminada pelo fanatismo, torna-se a temeridade cega. A prudência (virtude), quando envenenada pelo obscurantismo, degenera em covardia e inação. O amor-próprio (necessário), sob o jugo do preconceito, transforma-se em egoísmo e arrogância.

A proposta maçônica não é aniquilar essas energias, mas aprisioná-las. A masmorra é o lugar onde o vício é confinado, reconhecido, vigiado, mas impedido de governar. É um local escuro e profundo em nossa psique onde trancamos os impulsos que, se deixados livres, nos escravizariam. Cavar essa masmorra é o ato de construir um domínio sobre si mesmo, de se tornar mestre de suas paixões, em vez de escravo delas. Resumindo, de corrigi-las, transformando-as de vícios em Virtudes!

Este é um trabalho diário, que exige esforço e disciplina implacáveis. A porta da masmorra deve ser constantemente vigiada. A cada dia, o fanatismo tentará arrombar seus ferrolhos; o preconceito buscará uma fresta para escapar; o erro sussurrará promessas de conforto através de suas grades. Manter a masmorra segura é a verdadeira ascese do Maçom, um combate travado não contra inimigos externos, mas contra as fraquezas que habitam em seu próprio ser.

E, assim como o levantamento do Templo, este também é um ato individual e coletivo. Individualmente, cada um é o carcereiro de seus próprios vícios. Coletivamente, a Loja atua como a fortaleza que protege essas masmorras individuais. A fraternidade nos ampara quando fraquejamos, a instrução nos dá novas ferramentas para reforçar as trancas e o ritual nos lembra constantemente da vigilância necessária.

Quem Vem Lá é um Candidato à Liberdade

Agora, podemos retornar à pergunta primordial com uma compreensão mais profunda. “Quem vem lá?”

Quem vem lá ainda não é uma pessoa livre. Ele é um homem acorrentado — pelo medo que o obscurantismo gera, pela raiva que o fanatismo alimenta, pela separação que o preconceito impõe e pela ignorância que o erro perpetua. Ele é um escravo voluntário ou involuntário de suas próprias paixões descontroladas, um prisioneiro em uma masmorra que ele mesmo não sabia existir.

E para que nos reunimos em Loja?

Reunimo-nos para mostrar a este homem o projeto do Templo da Virtude que ele pode ajudar a construir, dentro e fora de si. Reunimo-nos para lhe entregar as ferramentas — o malho e o cinzel — com as quais ele poderá sacrificar suas impurezas e polir sua pedra. Reunimo-nos para ensiná-lo a cavar e a guardar a masmorra onde seus vícios serão confinados, para que ele possa finalmente se erguer como seu próprio soberano.

Em última análise, todo o nosso labor, toda a nossa simbologia e todo o nosso esforço convergem para um único e sublime propósito. Nós nos reunimos em Loja para enaltecer e cultivar a Liberdade. Não a escravidão anárquica e profana de simplesmente “fazer o que se quer” (muitas vezes, erroneamente chamada de liberdade), mas a verdadeira Liberdade do iniciado: a Liberdade de ser a melhor versão de si mesmo e a Liberdade para, conscientemente, escolher e praticar o Bem.

Quem vem lá é um peregrino em busca da Liberdade. E nós, que já cruzamos essa porta, temos o dever e a honra de iluminar seu caminho.

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

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