O Carnaval de São Paulo é um Investimento Estratégico
Durante muito tempo, foi repetido o injusto bordão de que “São Paulo é o túmulo do samba”. O povo que habita a capital paulista, motor financeiro do país, parecia ocupada demais produzindo para se dar ao luxo da folia. No entanto, a última década testemunhou uma revolução economicamente gritante.
O Carnaval de São Paulo, além de ser um evento cultural, consolidou-se como um dos mais potentes ativos econômicos do calendário urbano nacional.
A folia não pode ser percebida apenas pela vertente da celebração. Os dados tiram a máscara da realidade: o Carnaval paulistano é um exemplo de sucesso de política pública de desenvolvimento econômico, gerando um efeito multiplicador de renda que poucas outras indústrias conseguem replicar em um espaço de tempo tão curto.
Para compreender o fenômeno, precisamos abandonar o achismo, os preconceitos, e mergulhar nos dados oficiais. Segundo balanços da SPTuris (São Paulo Turismo) e da Prefeitura de São Paulo, o impacto econômico do Carnaval de Rua tem crescido exponencialmente. Se em anos anteriores celebrávamos a marca de R$ 1 bilhão, as projeções e consolidados mais recentes (base 2023/2024) apontam para uma movimentação financeira que orbita a casa dos R$ 3 bilhões.
Este montante não surge do vácuo. Ele é fruto de uma cadeia produtiva complexa que envolve desde o ambulante na ponta final até as grandes cervejarias, passando pela indústria têxtil, logística, segurança privada e tecnologia. Estamos falando de um evento que, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), coloca São Paulo no topo do ranking de faturamento nacional durante o feriado, disputando palmo a palmo com o Rio de Janeiro e Salvador.
Um dos dados mais fascinantes da transformação do Carnaval paulistano é a mudança no perfil da ocupação hoteleira. Historicamente, os feriados prolongados eram momentos de “evasão” — o paulistano saía e a cidade esvaziava. Hoje, o fluxo se inverteu.
Dados da ABIH-SP (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de São Paulo) indicam que a taxa de ocupação média durante o período de Carnaval tem superado consistentemente a marca de 70% a 80% em diversas regiões da cidade, especialmente naquelas próximas aos trajetos dos megablocos. Para uma metrópole cujo turismo é vocacionado para os negócios (que desaparecem nos feriados), atingir esses índices em fevereiro é uma vitória econômica construída com base no esforço e na estratégia.
O Aeroporto de Guarulhos e os terminais rodoviários registram aumentos significativos de desembarques. Segundo pesquisas do Observatório de Turismo e Eventos da SPTuris, cerca de 25% a 30% do público dos grandes blocos são turistas, com um gasto médio diário (ticket médio) que irriga diretamente o comércio local, muito superior ao gasto do residente.
A beleza econômica do Carnaval de rua reside na sua capilaridade. Diferente de um evento fechado em um centro de convenções, onde a receita fica concentrada, o bloco de rua democratiza o lucro.
A Abrasel-SP (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) reporta aumentos de faturamento na casa dos 20% a 30% para estabelecimentos situados nas rotas da folia em comparação a semanas comuns. Não é apenas a venda de bebidas; é a cadeia de alimentação fora do lar operando em capacidade máxima.
No setor de transportes, o impacto é igualmente massivo. Aplicativos de mobilidade e taxistas veem suas corridas multiplicarem. O sistema metroferroviário, operando com esquemas especiais, bate recordes de passageiros transportados aos finais de semana, gerando receita tarifária vital para a sustentabilidade do sistema.
Além disso, há o varejo especializado. A região da Rua 25 de Março, maior polo de comércio popular da América Latina, experimenta seu “segundo Natal” nas semanas que antecedem a festa. A venda de adereços, tecidos e fantasias movimenta estoques e salva o fluxo de caixa de pequenos e médios comerciantes em um mês (fevereiro) que, tradicionalmente, seria fraco para o varejo.
Talvez o indicador mais crucial para a nossa análise seja a geração de trabalho. Em um país que ainda luta contra a precarização laboral, o Carnaval funciona como um “colchão” de renda imediata.
Estamos falando da criação de mais de 20 mil a 25 mil empregos temporários diretos e indiretos, segundo estimativas cruzadas da Prefeitura e entidades de classe. São montadores de estruturas, técnicos de som, seguranças, cordeiros e equipes de limpeza.
Mas o impacto mais relevante é na ponta mais vulnerável: os vendedores ambulantes. Com o credenciamento oficial organizado pela Prefeitura, cerca de 15 mil a 20 mil ambulantes ganham a oportunidade de gerar receita de forma legalizada. Para muitas dessas famílias, o lucro obtido nos dias de folia representa o sustento de meses ou o pagamento de dívidas acumuladas. É injeção direta de liquidez na base da pirâmide.
Para os cofres públicos, a conta também fecha — e com lucro. O aumento na arrecadação de ISS (Imposto Sobre Serviços) sobre a rede hoteleira, eventos privados e serviços, somado ao ICMS gerado pelo consumo de bebidas e mercadorias, supera largamente o investimento público realizado na infraestrutura da festa. O Carnaval não é um gasto para a Prefeitura; é um investimento com ROI (Retorno Sobre Investimento) positivo e mensurável.
Diante dos dados apresentados, o entendimento preconceituoso de que o Carnaval é apenas “pão e circo” ou desperdício de recursos não se sustenta sob a luz da ciência econômica. O Carnaval de São Paulo é uma indústria limpa, que atrai capital externo (turistas), movimenta o estoque interno (comércio) e distribui renda com velocidade (serviços e ambulantes).
O desafio agora é aprimorar a governança desse ativo. Investir ainda mais em infraestrutura, segurança e descentralização dos blocos para as periferias não é apenas uma questão de ordem pública, mas de estratégia econômica para maximizar e distribuir melhor esses ganhos.
São Paulo conhecida por saber trabalhar, também provou que sabe lucrar com a festa. Os bilhões que circulam nas avenidas, hotéis e bares paulistanos confirmam que a alegria, quando bem gerida, é uma das mercadorias mais valiosas do mercado contemporâneo.
O Carnaval de São Paulo não é uma pausa na economia da cidade! É uma de suas maiores potências.
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
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