Convivência: A Essência da Alta Performance

Convivência: A Essência da Alta Performance

A “alta performance” solitária não passa de um mito, de uma ilusão…

O imaginário corporativo e social do século XXI foi sequestrado pela figura do “super-herói”: o indivíduo que acorda às 4 da manhã, otimiza cada segundo, domina todas as competências e vence sozinho. Essa narrativa é exaustiva e ineficiente. A verdadeira alta performance não nasce no isolamento de uma planilha de metas, mas na fricção criativa e no acolhimento mútuo da convivência.

A biologia e a sociologia nos ensinam uma verdade inconveniente para os egos inflados: somos, todos, seres incompletos. Cada um de nós carrega um universo de capacidades, talentos sublimes e limitações instransponíveis. A “deficiência” não é uma exclusividade de um grupo laudado; a incompletude é a condição humana universal. E é justamente aqui que reside o “pulo do gato” da evolução.

Quando convivemos — não apenas coexistimos no mesmo espaço, mas quando vivemos com o outro —, operamos um milagre matemático onde 1+1 é muito superior a 2. Aristóteles já nos ensinava que “o todo é maior do que a soma das partes”.

Na convivência, a minha “falta” é preenchida pela “sobra” do outro. A minha limitação visual é suplantada pela capacidade de observação do meu colega; a minha rigidez analítica é suavizada pela inteligência emocional de quem está ao meu lado.

Damos as mãos não por caridade, mas por inteligência emocional e estratégica.

Os dados são irrefutáveis. Um estudo da McKinsey & Company (Diversity Wins) analisou mais de 1.000 empresas em 15 países e descobriu que equipes com alta diversidade (de gênero, étnica e cultural) têm 35% mais chances de superar a performance financeira de seus pares homogêneos. Por quê? Porque a homogeneidade gera cegueira. Pessoas iguais, com as mesmas facilidades e limitações, batem nos mesmos muros.

Contudo, é imperativo um alerta: a diversidade deve compor a essência dos indivíduos, e não apenas sua aparência. De nada vale termos pessoas esteticamente diversas — compondo um quadro visualmente colorido e “inclusivo” — se elas forem homogêneas em sua maneira de pensar e em suas experiências de vida. Se todos frequentaram as mesmas escolas, leram os mesmos livros e nunca enfrentaram barreiras reais, a inovação morre no nascedouro.

A verdadeira potência está no encontro de repertórios de vida distintos, de visões de mundo que, ao colidirem, produzem a faísca da solução inédita.

O Projeto Aristotle, do Google, que buscou decifrar o segredo das equipes perfeitas, concluiu que o fator número um não era o QI individual dos membros, mas a segurança psicológica — ou seja, a qualidade da convivência. Ambientes onde as pessoas se sentem seguras para expor suas limitações e ideias sem julgamento são os que mais inovam. Segundo a Deloitte, organizações com culturas inclusivas têm seis vezes mais chances de serem inovadoras.

A alta performance, portanto, é coletiva. Ela surge quando o ambiente permite que nos “coliguemos”, criando uma rede de proteção e impulso. Superamos obstáculos intransponíveis para o indivíduo, mas triviais para o coletivo.

No entanto, essa alquimia social exige uma pré-condição: a disposição para o encontro genuíno. A convivência funcional não acontece por osmose; ela demanda uma escuta ativa e um olhar humanizado.

Escutar ativamente não é um processo auditivo; é um ato de “esvaziamento” do eu para receber o outro. Não se escuta com os ouvidos — o tímpano apenas vibra. Escuta-se com a personalidade, com a história, com a alma. É perceber o não dito, a angústia nas entrelinhas, a genialidade tímida.

Da mesma forma, não se enxerga apenas com os olhos — a retina apenas capta luz. Enxerga-se com o coração. Como defendo em minha obra “Caminho: A Beleza é Enxergar”, a visão real é a capacidade de perceber o valor intrínseco do outro, despido de preconceitos.

Nesse ecossistema de trocas, dissolve-se a hierarquia rígida entre “mestre” e “aprendiz”. Recuperamos a essência da dialética educadora: ninguém é tão pobre que nada tenha a ensinar, e ninguém é tão rico que nada tenha a aprender.

O estagiário ensina agilidade digital ao CEO; o CEO ensina prudência estratégica ao estagiário. A pessoa com deficiência ensina resiliência e adaptação a um mundo rígido; o engenheiro aprende a projetar acessibilidade universal.

Convivência é, em última análise, a tecnologia de inovação mais potente que dispomos. Ao reconhecermos nossas limitações, paramos de tentar esconder nossas falhas e passamos a buscar parcerias que as compensem. Ao reconhecermos nossas potencialidades, as colocamos a serviço do grupo para cobrir as lacunas alheias.

Quer atingir a alta performance? Pare de tentar ser perfeito sozinho. Olhe para o lado. A chave para o seu sucesso provavelmente está em quem você ainda não aprendeu a escutar…

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

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