Aulas do Professor “Perder”!
Talvez tenha sido melhor ter perdido…
A palmatória não existe mais faz tempo mas todo mundo tem meio que um medo ancestral mesmo que ela habite o desconhecido…
Derrota: a tia palmatória!
A derrota é uma professora… Sabe aquela tia, que a gente sempre tem medo quando criança, mas que depois, olhando pra trás, a gente lembra com saudades? É ela!
Sempre que a gente perde, a gente tem de vestir as sandálias da humildade… Daí a gente percebe que ela é uma professora que nos pega pela mão e ensina que as certezas são falhas.
A gente aprende a duvidar é na falha!
Só na derrota que a gente aprende a ESCUTAR! A gente tá por baixo, lambendo as feridas, fechados pra balanço… É aí que nossa arrogância volta pra casinha e a gente olha pro OUTRO. É só nessa hora que a gente tem ouvidos de ouvir e olhos de ver…
É no deserto que as miragens se desfazem, deixando apenas o que é essencial!
Ontem teve um momento assim… Gente jovem reunida… De repente, um balde de água fria! Será que nossa pretensão tupiniquim vai dar espaço pr´uma nova forma de encarar as coisas?
As Artes estão umbilicalmente unidas à Educação e à Palavra.
O que eu quero dizer com isso? São Palavras de um Povo! Educação Coletiva! Aquela do barro, do dia a dia, da poeira da história e do suor do Trabalho!
Sempre que a gente tem a unidade de um povo diverso e plural, a partir de suas ricas individualidades e potencialidades, percebemos que nossas limitações só podem ser superadas coletivamente, a gente encontra, igual um tesouro perdido, a Criatividade.
Essa Criatividade, que brota do chão da vida, precisa ser bem adubada. Quando ela é polida e refinada pela Educação, finalmente e se materializa em Arte.
Acho que eu tô filosofando demais… Vou dar um exemplo, com a licença de vocês: vamos observar o cinema brasileiro… Será que a gente não tá sofrendo de um monocromatismo poético?
A gente se acostumou a uma zona de conforto do lirismo, quando a gente insiste em percorrer sempre os mesmos atalhos narrativos, tratando de temas correlatos com uma paleta de cores que teima em ignorar a vastidão de nossos contrastes. Sabe a bola de segurança, que sempre vai agradar a patota, mas nunca vai levantar voo de verdade? É uma pipa sem linha…
Falta a ousadia, a chutzpah, que, por exemplo, transborda na arte de nossos vizinhos.
O fato é que o cinema argentino dá um banho no brasileiro… É sempre uma aula nova sobre como tratar de temas múltiplos. Mas que fique bem claro, no futebol a situação é bem outra!
Eles falam do cotidiano caleidoscópico sem perder a ternura, jamás!
Eu aplaudo de pé sempre que assisto, por exemplo, aO Abraço Partido… No fim, o bairro do Once, com toda a sua efervescência caótica e multicultural onde a imigração judaica cruza e dialoga com a imigração asiática e latino-americana, parece até o Bom Retiro….
E o Um Conto Chinês, então? A partir de um recorte jornalístico tão impactante, ele é capaz de extrair profunda poesia existencial… Uma vaca que, de repente, cai do céu…. Tem base isso?
Tá lá toda a potência da indignação em A Revolta dos Tolos, e, até mesmo ao revisitarem dores históricas profundas em Argentina, 1985, recontando a tragédia da ditadura, eles o fazem com uma graça e um lirismo tão lindos…
Choro… Sempre choro…
É exatamente isso que falta no Brasil.
Talvez tenha sido bom perder esta premiação importante!
A derrota ilumina o cansaço!
Mas o que o nosso cinema poderia começar a fazer de diferente? Eu não sei… Talvez isso me dê algum gabarito para palpitar…
Esses dias, na última sexta-feira, depois que o Sol já tinha se recolhido, e a Lua saído pra aproveitar a noite, peguei o telefone e liguei para uma grande amiga. Queria conversar, saber como estava o marido dela no hospital… Graças a D´us estava tudo muito bem!
E, se estava tudo bem, tive o prazer de poder falar com ele também. E, como o afeto sempre encontra caminhos surpreendentes, conversa vai, conversa vem, fomos desaguar nas memórias do livro Cazuza, do Viriato Corrêa.
Eu li essa obra há mais de trinta, quase uns quarenta anos…
A Ana Rosa também leu.
Livros são sagrados! A minha sogra guardou o exato exemplar que pertenceu à Ana Rosa. Ontem, quando fomos almoçar lá, resgatei esse tesouro das estantes e hoje mesmo já comecei a reler.
Histórias fantásticas recheadas de memórias… É o Brasil profundo, o interior do Maranhão narrado através da vida e das peripécias daquele menino Cazuza — e que fique claro: refiro-me ao personagem de Viriato Corrêa, e não ao cantor!
É a literatura tão rica, tão humana, que faz até a gente se perguntar: será que o Brasil não pode pegar essa aparente derrota, somada à inegável pujança e técnica da nossa indústria cinematográfica, e mudar a temática?
Não seria a hora de mudar os nossos horizontes, enriquecendo nossas narrativas para deixá-las mais plurais, mais leves, mais divertidas e, exatamente por isso, muito mais reflexivas?
As artes brasileiras precisam respirar esses novos ventos. Podem e devem ser um propulsor, um verdadeiro potencializador da nossa gigantesca aquarela humana.
Mas, pra que essa transformação ocorra, precisamos resgatar o poder das Palavras! Palavras que sejam capazes de forjar uma Visão, ensinando que o olhar humanizado não apenas vê as circunstâncias, mas enxerga o propósito e a beleza por trás delas.
Ou seja, no fim nós somos caminhantes em um mundo muitas vezes hostil, muitas vezes delicioso. A gente não sobrevive pela força solitária, mas porque a gente aprende, coletivamente, a ler os sinais do tempo, a conhecer o valor da partilha e a entender que só é possível Enxergar o Futuro quando permanece acesa a chama da Esperança.
E não me refiro à espera passiva; falo do esperançar militante, a recusa em desistir apesar dos obstáculos, movidos pela certeza mística de que há uma força maior caminhando ao nosso lado — D’us conosco.
A Palavra é, assim, pensamento vivo, Reflexão contínua e Escolha diária. É o Compromisso de construir uma sociedade e uma arte alicerçadas na Responsabilidade, na Ética e na Dignidade de cada ser humano.
No fim, precisamos que as nossas palavras, as nossas telas, os nossos livros resgatados da estante e as nossas vidas sejam sempre um exercício sagrado de Escuta.
Pois é somente quando a gente Escuta as vozes silenciadas, e contamos as histórias que nos unem, que nos tornamos capazes de semear a Justiça.
Ou seja, precisamos voltar a nos guiar por aquela voz suave e discreta que não se ouve, mas se escuta… Por aquela Luz que não se vê, mas que se enxerga…
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
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