Os Landmarks e o Livro da Lei Sagrada
Ao adentrarmos o Templo e voltarmos nossos olhos para o Oriente, buscamos a Luz. Na jornada do maçom, aprendemos que existem limites antigos, marcos que definem o que é e o que não é a nossa Sublime Ordem: os Landmarks. Contudo, é comum, na ânsia de categorizar o sagrado, confundirmos a letra com o espírito.
Muitos de nós fomos instruídos a decorar compilações. Lemos Mackey, estudamos Pike, analisamos as listas das Grandes Lojas norte-americanas ou inglesas. Mas, pergunto aos Irmãos: seriam os Landmarks meras linhas anacrônicas? Ou seriam eles uma essência anterior à própria escrita?
Ao meu ver, os Landmarks funcionam como um Farol imaterial. Eles não “estão” nas listas; eles “são” a orientação. As compilações que conhecemos são apenas tentativas humanas — datadas geograficamente e historicamente — de descrever uma Lei Moral que é, por natureza, eterna e imutável.
Lembremos que enquanto a Letra Mata, o Espírito Vivifica!
Não nego a existência dos Landmarks; pelo contrário, afirmo sua vigência absoluta. No entanto, as listas de Mackey ou de outros eruditos foram a “materialização no tempo” desses princípios para a realidade do século XIX. Tentar aplicar aquela “letra fria” sem a devida exegese ao século XXI é engessar o espírito da Maçonaria.
Os verdadeiros Marcos Antigos não são algemas burocráticas, mas sim a Bússola que aponta o Norte da moralidade. Eles são a “norma da Ordem” em seu estado puro, etéreo, que precisa ser “baixada à terra” através da nossa ação.
A Loja é, e deve ser, o verdadeiro laboratório em que podemos conhecer os Landmarks.
Onde, então, encontramos esses princípios? Encontramo-los na vivência. É na ritualística executada com estudo e atenção, na visitação que quebra as fronteiras entre Lojas, e na fricção fraterna entre Irmãos que o Landmark se revela.
Cada vez que perdoamos uma ofensa, cada vez que usamos o malho para desbastar nossas arestas, estamos, na prática, “escrevendo” a nossa lista de Landmarks. Eles se materializam na realidade concreta, histórica e geográfica de cada maçom. É o exercício da Fraternidade que valida a regra, e não a regra que impõe a fraternidade.
E qual é a régua para garantir que essa interpretação não caia no relativismo moral, onde “tudo é permitido”? A resposta repousa sobre o nosso Altar dos Juramentos: o Livro da Lei (V.’.L.’.S.’.).
É um erro crasso tentar desvincular os Landmarks das Sagradas Escrituras. Os Landmarks não são invenções maçônicas autônomas; eles são reflexos da Lei Divina. A moral que buscamos não é relativa; ela deriva de uma Moral Absoluta contida no Livro da Lei.
O V.’.L.’.S.’. é o Sol; os Landmarks são o calor e a Luz. As compilações humanas tentam descrever a luz, mas o Livro é a fonte da luz. Portanto, os verdadeiros limites da nossa atuação, os verdadeiros Landmarks, são aqueles princípios éticos, morais e espirituais que extraímos da leitura e interpretação profunda das Escrituras Sagradas, sob a ótica do simbolismo maçônico.
Concluo esta peça de arquitetura convidando a cada um a olhar para os Landmarks não como um código maçônico de pedra bruta, mas como um convite à elevação espiritual.
Que respeitemos os eruditos do passado, mas que não sejamos escravos de suas interpretações. Que tenhamos a coragem de buscar os Landmarks na fonte primária: na vontade do Grande Arquiteto do Universo expressa no Livro da Lei e vivenciada na Egrégora de nossas Lojas.
O verdadeiro Landmark é aquele que, gravado no coração do maçom através do estudo das Escrituras e da prática da Virtude, torna-se impossível de ser transgredido, não por medo da punição, mas por amor à Ordem e à Verdade.
Que a Sabedoria nos oriente a ler o espírito da Lei, a Força nos sustente na sua aplicação e a Beleza adorne nossas ações.
André Naves, M.: I.:, ARLS Sergio Bogomoltz, 7016 – GOSP/SP. Titular da cadeira 54 da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras – AMVBL.
