Roda Viva
“Shabat Shalom”!
Hora do descanso!
Desligo o computador. Vejo meu próprio rosto refletido na tela escura… É hora…
Vou feliz até a sala. Ligo o som. “Marcïa Baila”, dos “Les Rita Matsuoko”. Ana Rosa sorri e dança. O jantarzinho especial já perfuma o ar. Vamos acender as velas? A Luz dança… Fé demais não cheira bem… Nem de menos… Ela tem sua medida… Não é um incêndio! É uma prática de constância.
Sentamos. Vamos pro sofá. Eu confesso, sem a menor culpa intelectual, que sou noveleiro. Ligo no Plin-Plin. “Coração Acelerado”. Acompanho os desencontros de Agrado Garcia e João Raul. Me divirto, torço, julgo.
Fico pensando no “Vale a Pena Ver de Novo”. Por que reprisamos histórias cujos finais já conhecemos? Talvez porque a vida exige a repetição para que a alma finalmente enxergue o que os olhos apenas viram.
Na primeira vez que tomamos conhecimento de qualquer coisa, nosso coração ainda é duro. É pedra bruta, gritando de imediato, sem nem pensar, quem é o vilão e quem é o herói. Somos juízes implacáveis das circunstâncias alheias. Mas o tempo… ah, o tempo é o grande alquimista.
Daqui a alguns anos, ao rever a mesma cena, o vilão de hoje poderá me parecer um herói debochado… Talvez uma alma ferida. O erro imperdoável da Odete Roitman talvez seja só uma gracinha fora de hora. A repetição tira nossa armadura, sabe aquela arrogância?
A Natureza também é sábia pra quem quer enxergar: o Sol nasce todo dia, as estações giram em círculos… Se engana quem pensa que seja falta de criatividade do Criador. É paciência com a criatura!
D’us repete a lição até que a aprendamos.
Às vezes, a gente se assusta com novidade… Sabe como é, né? No escuro, todos os gatos são pardos… Daí, a gente que não entende vai lá e reclama! A vida é assim… Parece uma prosa concreta. Pedra da realidade. Mundão áspero, injusto. Mas só depois, quando a gente cai em si, olha para trás no retrovisor dourado da memória, é que a gente se reconcilia.
É nessa hora que a festança começa!
É aí que a gente CONCORDA!
Vamos pensar, juntos, na palavra CONCORDAR?
É cum (com) + cordis (coração). Concordar é colocar os corações juntos. É alinhar o compasso do meu peito com o ritmo da existência. É ser harmonia na realidade.
Quando a nossa juventude é uma tempestade impetuosa, a gente só quer que a realidade concorde conosco. Depois que o mundo gira e o outono d´alma vem, aprendemos a concordar com a vida. Enxergamos Unidos. Fazemos uma sociedade com D’us, aceitando que Ele é o Roteirista e nós, atores que, aos poucos, compreendem a complexidade da trama.
O Tempo, dizem, gasta as coisas… Tem caboclo que até fala na traça do tempo… Na poeira da memória! Coisa de mané incauto! Eu prefiro dizer que o tempo amarela, doura! É o amarelo que transforma tudo em ouro! Tempo é o Midas que deu certo!
Ele vai lá e arredonda as quinas cortantes das nossas certezas. Ele derrete a cera dos nossos ouvidos e abranda a dureza do nosso coração, transformando a pedra da lei na carne da compaixão.
Aqui, vendo a novela abraçadinho com a Ana, posso afirmar: a repetição é polimento. A gente “revive” a mesma cena, “ressente” a mesma dor, “rerri” da mesma piada, até que um dia, num estalinho, a gente não apenas vê a circunstância…. A gente enxerga…
E concorda!
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def
