Silêncio e a construção do Templo Interior

Silêncio e a construção do Templo Interior

Inspirados pela Maçonaria, aprendemos que no grande canteiro de obras de nosso “eu”, a primeira ferramenta é imaterial, invisível, mas possui o peso do chumbo e valor do diamante: o Silêncio.

Para o observador externo, ou para o profano que ainda tateia nas sombras, o silêncio maçônico pode parecer apenas uma regra disciplinar, uma imposição de ordem para que os trabalhos em Loja transcorram sem tumulto. De fato, calar é preciso para escutar.

No entanto, reduzir o Silêncio Maçônico apenas à ausência de som é confundir a aparência com a essência! O silêncio da boca é apenas o que se manifesta! O verdadeiro, reside no Silêncio Interior.

Vivemos em um mundo de barulho. Não apenas o barulho das cidades, do trânsito ou das notificações incessantes, mas um ruído muito mais pernicioso: o caos mental. Quantas vezes, mesmo de lábios cerrados dentro de nossos Templos, nossas mentes não estão gritando?

Esse “barulho mental” é o eco do mundo profano que insistimos em carregar para dentro da Loja. Ele é composto pela incessante procissão de pensamentos desordenados, pelas preocupações mundanas, mas, principalmente, pelas vozes estridentes dos nossos preconceitos e dos nossos erros. É o orgulho ferido que reclama, a vaidade que exige aplausos, a cobiça que calcula ganhos.

Enquanto a boca cala, a mente muitas vezes julga. Esse julgamento precipitado, nascido da intolerância e da falta de polimento, é o som da Pedra Bruta rangendo… Não há argamassa que una pedras que não foram devidamente esquadrejadas pelo silêncio.

A Maçonaria nos ensina, através de suas belas alegorias, que devemos levantar templos à Virtude e cavar masmorras ao Vício. Mas como podemos encarcerar nossos vícios se não conseguimos sequer ouvi-los chegar?

O Silêncio Interior é a sentinela vigilante. É através desse estado de quietude interna que conseguimos identificar os desejos irrefreados que tentam escravizar nossa vontade. Quando silenciamos as justificativas do ego, conseguimos enxergar nossas paixões como elas realmente são: tiranos internos que nos escravizam.

É neste silêncio profundo que ocorre a verdadeira alquimia moral. Calar os preconceitos permite que a Luz da Verdade entre sem distorções. Calar a arrogância permite que a Sabedoria se assente. Como nos lembra a tradição, é no silêncio do meio-dia à meia-noite que os maiores mistérios são trabalhados; é no silêncio da consciência que o Grande Arquiteto do Universo se faz ouvir.

O domínio do silêncio interno é, portanto, o supremo exercício de autodomínio. Ele é o cinzel que, manejado com firmeza, remove as arestas da pedra. Se a mão treme (pela agitação das paixões) ou se a mente divaga (pelo barulho do erro), o golpe do malho será impreciso e a obra sairá imperfeita.

Ao cultivarmos o Silêncio Interior, não nos tornamos passivos ou alienados. Pelo contrário, tornamo-nos senhores de nossa própria cidadela. O maçom que domina o silêncio interno não reage por instinto; ele age por princípio. Ele não é escravo de seus desejos, mas mestre de seu destino.

Que o nosso silêncio não seja jamais o silêncio da omissão diante da injustiça, nem o silêncio da ignorância diante da verdade. Que busquemos aquele silêncio operoso, fértil e profundo, onde a alma se despe de suas vaidades para vestir o avental do trabalho real.

Convido a todos para que, ao longo desta semana, tentem praticar não apenas a contenção da fala, mas a observação serena do próprio pensamento. Que possamos, no recesso de nossos corações, encontrar a quietude necessária para ouvir a voz da consciência — a única bússola capaz de nos guiar na construção de uma sociedade mais Justa e Perfeita.

Que a Paz, a Harmonia e o Silêncio criativo reinem em vossos corações.

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

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