O Agro como Motor da Neoindustrialização Inclusiva
Passadas décadas, o debate político do Brasil continua aprisionado a um entendimento vetusto e contraproducente: de um lado, o campo, visto apenas como exportador de commodities; do outro, a indústria, percebida como o único vetor de modernidade.
Essa visão anacrônica desperdiça nossa maior vantagem comparativa. O agronegócio brasileiro não é o antípoda da industrialização; ele é, hoje, pragmaticamente falando, a plataforma mais viável para uma neoindustrialização verde, tecnológica e profundamente inclusiva.
Não estamos falando apenas de plantar soja ou criar gado. Estamos diante de uma revolução onde o campo se tornou um laboratório de biotecnologia e um polo de manufatura avançada. As condições para transformar o Brasil em uma potência ambiental e social estão postas. O que nos falta é costurar esses pontos em um Projeto Nacional de Desenvolvimento que tenha a Dignidade Humana como valor inegociável.
A arquitetura política para sustentar esse projeto existe. Precisamos de mais pragmatismo! A bancada ruralista tem a oportunidade histórica de transcender a defesa setorial — legítima, mas insuficiente — e liderar a agenda de Estado. Com seu peso legislativo, o agro pode ser o fiador das reformas estruturantes que a indústria tanto clama: infraestrutura logística, modernização tributária e segurança jurídica.
Quando o agro defende ferrovias para escoar safra, por exemplo, ele viabiliza a indústria no interior do país. O interesse do campo e da fábrica, nesse sentido, é simbiótico, não antagônico.
A verdadeira revolução, contudo, está na bioeconomia. O Brasil, que historicamente importou fertilizantes químicos, hoje caminha para liderar a produção mundial de bioinsumos. Dados recentes apontam que o mercado de biofertilizantes e biodefensivos no país já movimenta mais de US$ 1,5 bilhão, com um crescimento robusto projetado para os próximos anos.
Isso é industrialização na veia. Produzir bioinsumos exige fábricas de alta complexidade, biorreatores, engenharia genética e microbiologia avançada. Ao substituir a química pesada importada pela biologia tropical nacional, fazemos três movimentos simultâneos:
- Soberania Nacional: Reduzimos a dependência externa de insumos estratégicos.
- Liderança Ambiental: Ofertamos ao mundo alimentos com menor pegada de carbono, alinhados à transição energética.
- Indústria de Ponta: Criamos cadeias industriais de alto valor agregado dentro do território nacional.
O mito de que o agro é “pouco intensivo em trabalho qualificado” cai por terra ao olharmos para o ecossistema de inovação. O Radar Agtech Brasil mais recente mapeou quase 2.000 startups dedicadas ao agronegócio — um crescimento explosivo de 75% em cinco anos.
Onde estão essas empresas? Muitas nascem dentro das Universidades Federais. Cidades como Viçosa (MG), Piracicaba (SP) e Lavras (MG) tornaram-se “Vales do Silício” do agro, provando que o investimento público em pesquisa universitária, quando conectado à demanda real do setor produtivo, gera riqueza imediata.
É aqui que se pode vislumbrar o princípio da Inclusão Social pelo trabalho qualificado. A agrotech não emprega apenas o operador de trator; ela emprega o desenvolvedor de software, o biólogo, o engenheiro de dados, o cientista de solo. Estamos retendo cérebros que, de outra forma, deixariam o país. Estamos interiorizando a classe média intelectualizada, levando renda e desenvolvimento para o interior do Brasil!
Nenhum crescimento econômico se justifica se não servir à Dignidade Humana. A beleza desse modelo de agroindústria é seu potencial distributivo. A manufatura de equipamentos, o processamento de alimentos e a produção de energia (biogás, etanol, biomassa) geram empregos formais, com direitos garantidos e salários superiores à média.
Além disso, a industrialização do alimento é a estratégia mais eficaz para o combate à fome. Ao processar a produção próximo à colheita, reduzimos o desperdício e fortalecemos a Soberania Alimentar.
A transição para uma agricultura regenerativa e de baixo carbono não é apenas “verde”; é social. Ela exige mão de obra mais capacitada e valorizada. A economia de água e a preservação dos biomas garantem que o desenvolvimento de hoje não roube o futuro das próximas gerações — a definição de Justiça Intergeracional.
Por fim, há um dos maiores potenciais do Agro Nacional: a aliança com os saberes tradicionais. Os povos da floresta são, historicamente, os guardiões da maior biblioteca biológica do planeta. O conhecimento milenar sobre bioativos, ciclos naturais e propriedades medicinais da flora brasileira funciona como um sofisticado laboratório de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D).
A lógica deve ser de cooperação, não de conflito. A indústria farmacêutica, cosmética e de superalimentos depende dessa biodiversidade preservada. A parceria ética com essas comunidades, regida pelo Marco Legal da Biodiversidade, permite a repartição justa de benefícios. Isso gera renda, autonomia e Dignidade para os povos originários (Inclusão Social) e confere aos produtos brasileiros um selo de exclusividade.
Além disso, há um pragmatismo climático inegável. A ciência já comprovou que a floresta em pé, protegida por seus habitantes originais, é a garantidora dos “rios voadores” que irrigam as lavouras do Centro-Oeste e do Sudeste. Garantir os direitos dos povos originários é, em última análise, garantir a segurança hídrica do próprio agronegócio.
O Brasil tem a faca e o queijo — ou melhor, o solo e a inteligência — na mão. Temos a biodiversidade, a competência científica da Embrapa e das Universidades, a força empreendedora das startups e uma bancada política capaz de garantir esse projeto.
O desafio agora é de narrativa e de vontade política. Precisamos abraçar o agronegócio não como o “passado primário” da nossa economia, mas como o motor da nossa indústria do futuro. Uma indústria limpa, que respeita a vida, que gera empregos dignos e que coloca o Brasil não como coadjuvante, mas como protagonista indispensável na mesa das grandes nações.
Esperança não é esperar! É construir as condições para que aconteça! E o caminho para um Brasil mais Justo e Desenvolvido passa, inegavelmente, pela união inteligente entre o campo e a fábrica.
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def
