Meu Faraó e Eu
Dia quente aqui. Um calor abafado, um Sol ardido… Sábado de manhã. 08:00. Difícil caminhar… Vou descendo a Caraíbas… Parece até um deserto. Eu ia usar de um clichê super comum e falar em “deserto escaldante”, mas gato escaldado tem medo de água fria…
Meu objetivo é claro e conhecido: quero dar uma olhadela no Palmeiras. A Ana Rosa sempre comigo, me dando as mãos para todo tropicão que dou… Sol forte… Atrapalha a vista… Atrapalha as ideias… De repente, trupico em mim mesmo…
Deserto… Eu, eu mesmo e mim… Agora, há apenas um deserto… O deserto… O azul esbranquiçado do céu me lembra um mergulho… O mergulho… Lá estava ele sentado. Trono. Faraó.
***
– Achei que o deserto era lá fora. Acontece que ele é aqui dentro. E você… sempre no trono.
– André, minha criança… Você sempre me chama e depois vem o espanto. Sabia que foi você quem me semeou, grão por grão, areia por areia. A cada pequena fuga da sua responsabilidade! Eu sou apenas o Imperador deste reino que você construiu. Ninguém mais! Sou o Imperador Sol.
– Será que fui eu ou os outros? E você? Imperador… ou tirano? Sua voz é o grilhão que me aprisiona. A masmorra que me impede de… ser.
– Ser? E você não é? Suas ideias são como passarinhos que voam ao menor custo, ao menor sopro de vento. Lembra da juventude? Caótica e impulsiva, feito a pororoca… Seus fogos poderiam ter incendiado o ninho. Mas, não fui eu quem construiu a gaiola dourada para proteger você de si mesmo. Você não me convidou? Você não me pôs no trono, desesperado por uma ordem, por um rumo? Eu não tomei este poder. Fui só a voz que disse “não”, quando seu coração gritava “sim” para anarquia.
– Tá certo que eu… eu precisava de uma lei. Mas, repetindo Brecht, todo mundo chama o rio de violento, mas ninguém fala nada das margens que o oprimem…
– Poesia? Você vive no mundo da Lua! Eu sou a Lei. A luz que dá a vida!
– Mas também a que cega e queima…
– A sua vida, a estrutura, o respeito… acha que nasceram do caos, da algazarra? Não. Nasceram da ordem que impus. Olhe ao redor. Olhe para sua vida, para o que você construiu. Veja as bênçãos, não apenas as correntes. Eu afirmo, repetindo a tradição eterna: Quão lindas são suas tendas, Jacó! Quão belas são suas habitações, Israel! Você não enxerga a beleza da cidadela que ergueu por medo de admitir que precisou de um arquiteto!
– Mas a que preço? Versões e fatos. A lenda diz que sou um homem de sucesso. O fato é que sou um cativo em meu próprio palácio.
– Não existem fatos, apenas histórias. E você se apegou à história do prisioneiro porque ela é mais confortável. Ela livra você da responsabilidade suprema. A Liberdade, meu filho, não é a ausência de muros. É a coragem de assumir a autoria de cada tijolo. Você quer a Liberdade? Então aceite a Responsabilidade pela sua vida. Pare de lutar contra mim. Eu não sou seu inimigo. Sou sua fundação.
– Então… você nunca irá embora?
– Ir embora? Hahahaha! Eu sou a forma da sua alma. Sou os limites, bons e ruins. Sabe o grilo falante? Lembra do ratinho do Dumbo? Sou a prudência que te salvou e o medo que te paralisa. Sou a memória do seu pai, a sabedoria do seu avô, a disciplina de sua mãe… Você não pode me silenciar. Você aprende a dançar comigo.
– EU NÃO SEI DANÇAR!
– Até agora… Ninguém sabe nadar até a água bater na bunda… Só um passo de cada vez. Você precisou de mim para sobreviver à sua juventude. Agora, talvez precise de uma longa peregrinação neste deserto para entender minhas palavras. Para ver a beleza que pode nascer da aridez. Para encontrar a rosa nascida do lixo. Para olhar para trás, não com raiva, mas com gratidão.
– Obrigado… por me manter vivo. Por ter sido a sombra quando o meu Sol era forte demais.
– Agora você começou a entender, cabeçudo! Abençoe o passado para poder enxergar o futuro. O deserto ainda é longo, mas você não tá mais perdido nele. Você tá apenas… caminhando. E lembre-se sempre: é trupicando que a gente aprende a caminhar!
***
No fim, o Faraó parecia muito comigo. Pudera… Ele era eu!
Que voz importante a dele… Lógico que só faz sentido quando temperada pela conveniência do real, do concreto.
Era mais uma lição: quando ouvir e quando me pedir licença para seguir.
***
De repente, a luz do Faraó diminui, o trono se desfaz… O deserto recua.
O som de uma freada me traz de volta. A verdade é que nunca fui a lugar nenhum. Estou na esquina da Caraíbas com a Bartira. O sol ainda arde. Agora, não tenho mais um tirano, mas um companheiro de vida.
Ana Rosa segura minha mão com mais firmeza, como se soubesse que algo em mim acabou de mudar. Sempre muda… Continuo a descer a rua, um passo de cada vez.
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def
