Dia: 21 de maio de 2024

Entrevista dada ao Boletim DPU

Há quanto tempo está na DPU e por que motivo escolheu a instituição para trabalhar?

Tomei posse em 2010. Sou do 4 concurso (“141 corações”), mas a Defensoria Pública da União já corre em minhas veias desde o longínquo ano de 2001.

Eu estava na faculdade quando li, em um pequeno jornal jurídico, sobre essa nova instituição e seu primeiro concurso.

Era uma época de muita dificuldade para mim, mas, como dizem, as dificuldades são do mesmo tamanho que as facilidades… As pedras em nosso caminho são ferramentas para a evolução social.

O que eu quero dizer com isso?

É que entre tantos dramas pessoais, tantas dores, sofrimento, uma nova forma de encarar o Direito foi crescendo em minh´alma…

Foi como um ferro em brasa que marca a boiada…

Na mesma época eu tinha um professor de Seguridade Social (aspectos constitucionais de Direitos Humanos que moldam a Previdência e a Assistência Social) que me marcou profundamente ao mostrar que as Artes eram o calor da Lei…

Entendemos melhor a questão agrária depois de ler “Morte e Vida Severina”. A questão urbana, “O Cortiço”. A importância amazônica, ouvindo “A Floresta do Amazonas” de Villa Lobos. As possibilidades são infinitas!

Ir ao Teatro Oficina, por exemplo, é uma aula de Teoria Social do Direito! Evoé!

Qual instituição trabalha com a Previdência e com a Assistência? Qual instituição busca promover os Direitos Humanos? Qual instituição busca orientar a construção de estruturas sociais sustentáveis, inclusivas e justas?

No ano de 2001 ela vinha desabrochando, tal qual rosa vermelha…

Em meio a tantas dores e delícias, portanto, a DPU ficou marcada desde então em minha essência!

Vê alguma relação do trabalho no dia a dia da instituição com o conteúdo do livro, uma vez que diz que a proteção social é o caminho para a emancipação pessoal e coletiva?

Total! Eu conto em várias passagens do livro, inclusive.

Estou muito longe de ser um defensor tecnicamente ótimo. Entretanto, eu sei que cada assistido é uma pessoa que merece ser tratada com toda a dignidade possível. Esse é, muitas vezes, o meu papel.

A gente sabe das injustiças de cada dia… A gente sabe como o povo é flagelado cotidianamente. A gente vê as lágrimas e o desespero…

É nessas horas que o trabalho do defensor vai além da pureza jurídica: vai até se lambuzar com a Esperança. Não a Esperança da espera, mas aquela de Paulo Freire, o ato do Esperançar.

E o que é isso senão a emancipação cidadã de cada pessoa? É dar dignidade a cada indivíduo, realçando sua individualidade (identidade, diversidade, pluralidade…), para que a coletividade, emancipada, possa estruturar a sociedade em bases justas.

A individualidade é um traço intrínseco à natureza humana, refletindo nossa essência única e singular. Nossa identidade é formada pela combinação daquilo que trazemos de inato com as experiências vivenciadas ao longo da vida, além dos contextos sociais em que estamos inseridos.

É fato que as influências do meio em que crescemos moldam parte de nossa personalidade e preferências. Se nascemos em uma família corintiana, inserida numa comunidade majoritariamente corintiana, por exemplo, a tendência é que nos identifiquemos com o time e compartilhemos dos mesmos interesses esportivos.

Esse mesmo fenômeno se estende para outras características e traços de personalidade, onde a comunidade desempenha um papel crucial na construção da identidade individual.

Contudo, quando a coletividade, por meio de mensagens consumistas e materialistas, impõe padrões sem uma reflexão crítica individual, ocorre o contágio pelo egoísmo. O indivíduo se torna absorvido por um modo de pensar e agir que prioriza o “eu” em detrimento do “nós”. A busca incessante por bens materiais e a satisfação pessoal acima de tudo leva a uma padronização de comportamentos, gostos e atitudes. A individualidade se perde no meio desse individualismo exacerbado.

A partir do momento em que a individualidade é corrompida pelo egoísmo individualista, a diversidade e a pluralidade se tornam estranhos e, em alguns casos, hostis. A busca por semelhanças gera uma sociedade que se alinha a uma única forma de pensar, agir e desejar.

Em outras palavras, há uma padronização de vocabulário, ideias, ações e preferências estéticas. Todos gostam das mesmas coisas, desejam os mesmos objetos, fazem as mesmas viagens, tiram as mesmas fotos…

Esse processo resulta em estruturas excludentes e preconceituosas, uma vez que qualquer coisa que se desvie, é vista como fora do padrão e, por consequência, alvo de julgamento e rejeição. O preconceito floresce em terrenos onde a diversidade é sufocada.

Por outro lado, ele definha com a concretização dos Direitos Humanos, encarados como todos aqueles decorrentes da Vida, entendida como a plenitude das condições existenciais da pessoa; da Liberdade, entendida como a possibilidade de cada indivíduo ser, e se portar, segundo seus desígnios; Igualdade, entendida como equivalência concreta de condições de emancipação humana; Propriedade, entendida como possibilidade de se assegurar, e desenvolver, tudo aquilo que é próprio ao ser humano; e Segurança, que vai muito além do combate à violência, materializando-se como a oportunidade de satisfação das necessidades existenciais humanas (segurança alimentar, segurança sanitária, segurança educacional…).

Uma sociedade verdadeiramente sustentável é aquela que reconhece e valoriza a diversidade, que protege e fortalece os direitos humanos de todas as pessoas, independentemente de sua origem, etnia, gênero ou crença. Somente através de uma sociedade inclusiva e justa poderemos construir um futuro melhor, livre dos grilhões do ódio e da violência.

A Proteção Social é isso.

Como foi o processo de escrita? No livro, há contribuição daqueles que o ajudaram na recuperação após o acidente?

Como posso explicar? Sabe o jiló? Ele é amargo, mas delicioso! Escrever foi como comer petiscos de jiló tomando cachaça. Cada nova memória doía, queimava, era amarga… Cada reflexão era deliciosa, gostosa, de um prazer único.

Sabe como se fala orgasmo em francês? É “la petit mort”. Literalmente, a pequena morte. É uma visão extremamente poética daquele que é o prazer humano supremo. Todo dia eu escrevia um trechinho… Todo dia, uma nova “petit mort”…

Então, como vocês já devem ter desconfiado, escrever foi um fogo que arde sem se ver, para citar Camões.

E nesse mesmo sentido, tão paradoxal e antitético, escrever foi um ato de extrema solidão coletiva. Eu adentrava sozinho no brejo das lembranças, e saía de lá com as rosas que toda a coletividade plantou no meu Caminho…

A ajuda foi essa. Se não fosse por essa existência coletiva, eu nunca teria chegado até aqui. Eu jamais teria percorrido esse Caminho…

No texto, o Sr. fala em processo de superação depois o acidente aos 19 anos. Poderia nos contar como foi, principalmente em termos de superação?

Foi horrível!

Tanta dor, tanta humilhação, tanta lágrima…

Mas como diz Carla Madeira, tudo é rio. Tudo passa. Cartola diz uma coisa parecida quando canta que o Sol nascerá.

As terapias, os tratamentos, as lutas foram intensas. Na verdade, ainda são…

Mas, pensando bem, sabe a Luz que ofusca nossos olhos quando saímos da caverna? Ela cega, ela machuca, mas depois, ela ilumina o nosso Caminho…

A vida é isso, né? Eu enfrentei os meus obstáculos, nem maiores nem menores de que os de todos… Só diferentes…

Acho que eu tava zonzo de tanta Luz… Agora, já tô me acostumando…

Há também referência a um novo olhar diante da vida. Sobre isso, quais foram as principais mudanças?

Enxergar é perceber, com a alma, a maravilhosa essência que existe em cada ser humano.

Enxergar é a Beleza! Cada ser humano é único em suas notas… E a Humanidade é isso: é música, é poesia!

A Beleza é ser o protagonista desse espetáculo chamado Vida!

E mais.

Beleza é ser um protagonista que traz todos da plateia para o centro do palco. Isso é emancipar, dar dignidade, promover Direitos Humanos.

O Sr. fala em destinar a renda para instituições que promovem inclusão social. Se achar interessante falar quais são e por que foram escolhidas.

Eu escrevi esse livro para inspirar as pessoas a se envolverem com a cultura de Doar.

ENVOLVER!

Eu quero que cada leitor encontre uma instituição para chamar de sua, para que seu suor se misture à argamassa da construção social.

Claro que eu sugiro diversas instituições.

São para essas que eu doarei:

Chaverim (www.chaverim.org.br) – Inclusive, todas as ilustrações do livro foram elaboradas pelos “chanichim” (“afilhados” – assistidos) do Chaverim;

Turma do Jiló (https://grupotj.org/wp-content/cache/all/index.html);

Projeto Renascer (https://www.facebook.com/BATUIRAAMPARAASGESTANTESDEJACAREI/);

Vibrar com Parkinson (https://vibrarcomparkinson.com.br/).

Além do lançamento virtual do livro, há previsão de lançar de outra forma (presencial)?

Previsão, não… Mas quem sabe?

Há projetos para publicar outras obras?

Há sim. A temática, acredito, será a mesma: a grande sinfonia humana, que toca até o descer das cortinas! Gente é poesia que deve ser cantada!

Nos finalmente, agradeço demais as perguntas e convido a todos a visitarem meu site (www.andrenaves.com) e meu Instagram (@andrenaves.def).

Lá vão brotando as novidades…

Agora que dei uma entrevista para o Boletim DPU, como diriam meus estagiários, zerei a vida!

Calamidade e Solidariedade

O sentimento de Solidariedade, isto é, a percepção de pertencimento à grande família humana que nos torna, em nosso conjunto, sólidos, ou um todo único, é um sentimento inato a todos os seres humanos, pelo simples fato de serem humanos. É daí que decorrem nossos valores éticos, os direitos humanos, o pendor democrático e o respeito à dignidade humana. Em outras palavras, poderíamos repetir inspirados em Kant que a pessoa humana é digna por ser uma finalidade em si mesma.

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