As delícias da Maternidade

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As delícias da Maternidade

Florence Onyebuchi “Buchi” Emecheta, grande escritora nigeriana, falecida em 2017, escreveu, em uma de suas melhores obras sobre “As Alegrias da Maternidade”. As delícias de perceber a existência de novas e independentes individualidades, plenas de possibilidades e capacidades diversas e plurais a serem desenvolvidas. Por outro lado, também fala das dores de quem se vê diante de barreiras e obstáculos dificilmente transponíveis, impeditivos do estímulo às melhores habilidades de cada pessoa.

“Buchi” parece ecoar Carlos Drummond de Andrade quando ele afirma que “acreditar em nossa própria mentira é o primeiro passo para o estabelecimento de uma nova verdade”. Ou seja, a ela, inserida em uma sociedade segregada e preconceituosa, impedida de auxiliar seus filhos nas atividades reveladoras de suas melhores essências humanas, restava acreditar na emergência de um mundo livre de atitudes e comportamentos exclusivistas.

As ferramentas para a construção desse mundo, dessa maneira, fundavam-se na crença de um futuro inclusivo, e expandia-se numa ação de gentil educação conscientizadora. As alegrias da maternidade residiam nesse fato:  apesar das dores da exclusão, ela persistia acreditando e trabalhando disciplinadamente por uma sociedade inclusiva, livre de comportamentos injustificadamente exclusivistas. Ainda que ela aborde outras realidades, há muito a ser refletido por nós…

É que ainda vivemos inseridos em estruturas preconceituosas, segregacionistas e exclusivistas. Os dispositivos jurídicos têm pouco valor quando não ecoam socialmente. Em outras palavras, as leis precisam encontrar substrato real fértil para poderem germinar e produzir frutos. Pouco adianta assegurar um acesso abstrato às escolas, se esse direito é seguidamente desrespeitado, encontrando nas mais nefastas atitudes preconceituosas os fundamentos escusos e velados para toda a sorte de justificativas.

Não há enquadramento ao trabalho digno enquanto busca-se, tão somente, acesso às vagas laborais, sem que se preocupem com a capacitação, com a progressão e com a qualidade. De pouquíssima serventia é o direito à Saúde, se continuam sendo negadas as opções terapêuticas contínuas e de alto custo, se não há acesso à rede de saneamento básico… A carência de opções de transporte público acessíveis são um pequeno exemplo das nossas barreiras sociais…

Qual a utilidade de uma lei que garanta acesso a políticas públicas inclusivas que continue sendo desrespeitada e ignorada?

Resumindo, os obstáculos do preconceito, estruturalmente presentes em nossa sociedade, só podem ser debelados pela liderança de novas atitudes educacionais emergentes da sociedade civil. A partir desse clamor comunitário, evidenciados por novas posturas individuais e coletivas, os governos estabelecerão novas e adequadas políticas públicas tendentes ao reforço dos padrões comportamentais vigentes na sociedade.

A essência da maternidade, e as delícias dela portanto, residem nisso: no alegre reconhecimento de novas preciosidades carentes de capacitação, contrastando com as dores da existência das inúmeras barreiras comportamentais que realça a necessária postura de acreditar em, e trabalhar por uma realidade futura efetivamente inclusiva. 

ANDRÉ NAVES

Especialista em Direitos Humanos e Sociais.
Defensor Público Federal. Escritor, Palestrante e Professor. Conselheiro do Chaverim, grupo de assistência às pessoas com Deficiência. Comendador Cultural.
Colunista do Instituto Millenium, além de diversos outros meios de comunicação. www.andrenaves.com